Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Do grande jornalista que é o Mário Crespo:Segredos e enredos

Não é “insultuoso”, como me retorquiu o ministro Silva Pereira, interrogar governos sobre se houve troca de favores por dinheiro. É insultuoso para todo o sistema democrático o governo não responder.

A Mark Felt, Director do FBI, morreu há poucos meses. Entrou para a história por ter sido o “garganta funda” no caso Watergate. Felt, guiou Bob Woodward, do Washington Post, com “fugas cirúrgicas de informação” até o jornal conseguir entender o que estava em causa: a Presidência dos Estados Unidos era culpada de um processo ilícito de espionagem política usando agências e dinheiros governamentais. Num livro recente, Woodward analisa quais teriam sido as motivações de Felt para fazer sair do hermético sistema do FBI para os media informações cruciais para rectificar uma ilegalidade que tinha todas as probabilidades de vir a ser encoberta e esquecida. A conclusão de Woodward é que Felt o tinha feito para honrar os valores que o Estado americano lhe tinha confiado. Felt teve a percepção de que algo incrivelmente pérfido se estava a passar na maior democracia do Mundo e que todo o sistema, FBI incluído, capturado por interesses, não ia responder. “Estavam em causa coisas como democracia, responsabilização do poder político e pura e simples honestidade”, diria Ben Bradley, Director do Post.

Quando na passada semana o discurso oficial, da Procuradoria ao Governo, começou a centrar-se na “gravidade” das fugas de informação, colocando-as, em termos de importância, pari passo com a enormidade criminal do que pode estar em causa, eu interroguei-me sobre as motivações de quem divulgou os pormenores que nos permitem começar agora a compor uma imagem do escândalo Freeport. Pensei também que se não tivesse havido fugas de informação sobre o horror que se estava a passar na Casa Pia tudo tinha continuado como sempre, na conveniência confortável dos silêncios do pecado colectivo e não tinha havido a denúncia pública de que havia crianças abusadas por pervertidos poderosos num asilo do Estado. Sem fugas de informação também não se tinha chegado ao conceito ainda indefinido de que algo está mal no Freeport de Alcochete.

Nos dois casos, as fugas, por sorte, acertaram na rara combinação de coragem e persistência que é a maneira de Felícia Cabrita estar no jornalismo. É fácil e útil para quem queira controlar mediaticamente os estragos varrer tudo para os lados “ocultos” da “força”. Não se pode é excluir que haja pessoas de bem na administração pública, genuinamente ultrajadas porque um Estado pactuante com perigosas irregularidades, deixa passar anos a fio sem nada fazer até as coisas caírem no esquecimento, ou pior ainda, na habituação. Aqui, tal como Mark Felt fez com o Washington Post, alguém passou informações para o Sol. E fez muito bem. O Freeport não é um Watergate à portuguesa. Com estes montantes e possíveis envolvimentos do executivo e justiça, é, por si só, um grande escândalo em qualquer parte do mundo. Face a isto não é “insultuoso”, como me retorquiu o Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, interrogar governos sobre se houve troca de favores por dinheiro. Seria insultuoso para todo o sistema democrático não o perguntar. É insultuoso o governo não responder. Não chega repetir “deixem-nos trabalhar”. É essencial saber onde chega o Freeport. Com os valores que estão em questão, tudo o mais é menor. Até as próximas eleições.

Fonte: Jornal de Notícias de 02.02.2009

02/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Uma personagem de Óscar Wilde

O ministro Santos Silva, encarregado, na economia governamental, do pelouro da refutação da Oposição, pratica habitualmente o honroso encargo com a indignação afectada de uma personagem de Óscar Wilde: “É inadmissível que andem para aí a dizer coisas do Governo que são absolutamente verdadeiras”. Foi assim que, agora, no regresso ao Parlamento do Código do Trabalho, o ministro refutou indignadamente a acusação de que este fomenta a precariedade.

Garantiu Santos Silva ao país que “o Governo leva muito a sério o princípio constitucional da segurança no emprego” (a lição continua a ser a de Óscar Wilde: “Em questões muito sérias, o essencial é o estilo, não a sinceridade”). Por isso, o Governo – argumentou – terá incluído no Código “medidas de combate à precariedade”. Dir-se-ia que, de facto, “só quem já está completamente perdido aceita argumentar”. É que a conclusão de que o Código não leva a sério o princípio fundamental da segurança do emprego é uma constatação técnica, verificada pelo Tribunal Constitucional, não uma crítica política. E contra isso pouco podem indignação ou argumentos.

Fonte: Jornal de Notícias

27/01/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Carlos de Abreu Amorim: Rastejamos há muito

O indizível ministro Santos Silva quis dar uma mãozinha a Sócrates num debate parlamentar em que este não estava tão bem como de costume.

Com o ar prazenteiro de jogador de ‘bisca lambida’ que acredita ter um trunfo demolidor, revelou que o facto de o Instituto de Emprego obrigar os candidatos em concurso de promoção de funcionários a estudarem textos de Sócrates (não o grego mas o nosso) não é inédito e que coisa semelhante já tinha sido feita em 2003 com textos de Bagão Félix e Pais Antunes, à data governantes.

Ou seja, defendeu o Governo contando que outros já tinham cometido a mesma pouca vergonha e sem admitir qualquer falta. Jaime Gama até forçou uma piada e os ministros riram-se. Eu não vejo graça nenhuma em políticos que esquecem os rudimentos do pudor.

Fonte: Correio da Manhã de 16.01.2009

16/01/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina – outro artigo primoroso…: Notifiquem-se os arguidos

É um talento que costuma atribuir-se aos poetas, mas que têm todos aqueles, raros, que são capazes de “ver”, e não apenas olhar. A blogosfera, porque é múltipla, e livre (por enquanto…), e contraditória, é um lugar privilegiado para “ver” o que o discurso e o olhar raso dos media tradicionais ocultam. Ficar-se hoje, em termos de informação como de opinião, por jornais e telejornais constitui a pior forma de cegueira. Em blasfémias.net dei ontem, de súbito, com algo de cuja dimensão, apesar de estar sob os meus olhos, nunca me apercebera: a vocação de queixinhas do ministro Santos Silva.

Num “post” assinado por jcd (meu Deus, mais um anónimo!, dirá Pacheco Pereira), enumeram-se 22 títulos ou notícias recentes de jornais em que o perplexo ministro “acusa” alguém ou alguma coisa: sindicatos, Manuela Ferreira Leite, PSD, CDS, Paulo Portas, “Jornal da Madeira”, professores… Nunca contradiz, “acusa”. Seguindo o conselho de um comentador, dei-me ao trabalho pesquisar no Google por “Santos Silva acusa” ou “Santos Silva acusou”. 16 700 entradas! Se ninguém o nomeia intendente-geral é uma injustiça.

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21/11/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário