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O que vou lendo por ai…

Paulo Ferreira: Bom e mau das eleições

Os factos oferecidos pelas eleições europeiais estão à vista de todos: o PS e José Sócrates apanharam uma tareia; a maioria absoluta nas legislativas deve ter falecido anteontem; Manuela Ferreira Leite (e não o PSD) rejuvenesceu; Paulo Rangel é a mais fresca e interessante figura surgida no espectro político-partidário português desde há muitos anos; os barões sociais-democratas que esperavam um deslize para atacar a jugular de Ferreira Leite vão ter que se manter sossegados no seu canto durante mais uns tempos; o CDS-PP voltou a erguer-se, quando já era dado como morto e (quase) enterrado; a CDU conquistou 70 mil votos; o Bloco de Esquerda teve um fantástico resultado; e, finalmente e mais importante do que tudo isto, os portugueses não ligaram patavina a estes eleições.

O retrato é mais famoso para uns do que para outros. E dele emergem duas realidades cujo significado merece alguma atenção. Uma é boa, outra nem por isso.

A boa realidade é esta: os resultados de anteontem trazem o PSD de volta para a discussão sobre quem deve liderar o próximo Governo. Há uns meses – melhor: há umas semanas -, Ferreira Leite estava acantonada e à mercê dos que anseiam substituí-la rapidamente e em força. Com um partido dilacerado por erros vários, a tarefa afigurava-se impossível para a ex-minsitra das Finanças. Não é que, de um dia para o outro, Ferreira Leite tenha passado do inferno para o céu. Os cacos do partido estão lá para ser colados, um por um. Sucede que, agora, legitimida pelo voto, a presidente do PSD tem outros meios para fortificar o partido, preparando-o assim para as duras lutas que aí vêm.

E isto só pode ser uma boa notícia. Porque, antes disto, a democracia portuguesa estava colocada perante uma inevitabilidade: viver sem hipótese de escolha entre, pelo menos, dois partidos. A pluralidade de opções só faz bem.

Segunda e mais delicada realidade. Portugal é, desde domingo, um país onde a extrema-esquerda (CDU e Bloco de Esquerda) vale mais de 20% dos votos do eleitorado. Isto deve assustar? Não, pelo menos para já. Mas, se a tendência se mantiver em próximos actos eleitorais, é caso para reflectirmos muito bem sobre o país que estamos a construir, ou queremos construir. Pode ser verdade que, sobretudo o Bloco, tenha beneficiado do voto fiel (gente jovem, urbana e “moderna”, que discute nos blogues) e de muito voto de protesto. Normalmente, este último tipo de voto tende a fugir nas legislativas, por entender que há apenas dois partidos idóneos para governar: PS e PSD. Pode ser, mas também pode não ser…

Antevendo esta derradeira possibilidade, é crucial que os dirigentes bloquistas nos expliquem qual é, afinal, o seu modelo de sociedade, coisa de que fogem como o diabo foge da cruz. Não basta cavalgar as notícias, pedir aos ricos que paguem a crise e usar reiterados floreados de linguagem para impressionar os incautos.

Fonte: Jornal de Notícias de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Paulo Ferreira: Votar ou não votar

O bastonário da Ordem dos Advogados, home que prefere ficar preso às palavras violentas que profere – e são tantas! – do que gerir habilmente os silêncios, tirou aqui há dias da cartola a ideia de que “o não voto” (sic) é uma arma do povo, através da qual os eleitores podem exprimir o seu descontentamento para com a política e os políticos. “Às vezes também é necessário não votar para que as pessoas percebam que não há alternativa”, disse Marinho Pinto, apesar de tudo usando um tom menos histriónico do que o habitual.

O bastonário tem razão? Não tem razão nenhuma. Atirar com declarações destas a um público ávido de argumentos para desfazer a “classe política” é de um populismo pouco recomendável para o titular de um órgão público da importância da Ordem dos Advogados. Mais do que isso: com esta brincadeira de mau gosto, Marinho Pinto está a propor, talvez sem disso ter real consciência, a completa inversão do conceito de cidadania.

Não se trata aqui de negar ao “povo” o direito de se abster. Ou de, no limite, impor o exercício do voto (coisa que, de resto, já acontece em 29 democracias do Mundo). Trata-se apenas de fazer notar que nenhuma democracia resiste ao lento – ou rápido – distanciamento dos seus habitantes em relação às decisões sobre o seu futuro. Os estragos que isso provoca estão à vista de todos. Ou de quase todos. Só para citar um aleatório exemplo: o presidente do Governo Regional dos Açores foi eleito por 20,8% dos eleitores da ilha (40 mil votos, em 192 mil inscritos). Que democracia estamos a construir, em que democracia estamos a viver quando permitimos que, em média, um cada dois eleitores prefira o calor da praia ou o descanso do lar ao incómodo de ir votar?

O bastonário dos Advogados sabe que um espaço público informado e interessado é uma espécie de código postal: meio caminho andado para uma melhor democracia, em que o eleitor não se dá ao luxo de transferir para outro o ónus da decisão, para depois não se sentir culpado pelo “estado da arte” do seu país.

Há um direito a não votar? Claro que há. A ideia de o Estado impor e penalizar quem opta pela abstenção não me agrada, por um motivo muito simples: ela viola a minha liberdade individual. Uma coisa é o Estado obrigar-me a pagar impostos (em teoria eles devem contribuir para o bem-estar geral), outra bem diferente é obrigar-me a escolher um candidato, uma proposta política quando eu não me identifico nem com uma coisa, nem com a outra. Mas isto é totalmente diferente de andar para aí a vender que bom, bom é a malta abster-se, para ver se eles (os políticos, os marotos do costume) aprendem e se apercebem do descontentamento que grassa entre o “povo”.

Fonte: Jornal de Notícias de 02.06.2009

05/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Paulo Ferreira: A maldição da estatística

A estatística é, como se sabe, muito, muito traiçoeira. Exemplo típico: se eu comer duas laranjas e o leitor nenhuma, a estatística dirá que comemos cada um a sua laranja.

Perigosa, portanto, esta coisa da estatística. Os governos costumam torcê-la e retorcê-la, de modo a que, no final, os números espelhem uma realidade que a nós, incautos cidadãos e desconhecedores das virtudes da estatística, nos parece ligeiramente distante do quotidiano que nos calhou em sorte. Lição a tirar: sempre que ouvir falar de estatística e mais estatística, desconfie. Mas desconfie mesmo.

Verdade que desconfiar é feio. Mas que alternativa nos resta quando, espantados , lemos isto: há várias esquadras do país que estão a impor “números-base” de detenções a fazer até ao final do ano (ver edição de ontem do JN)? Apenas um exemplo: na 2ª Esquadra de Investigação Criminal da PSP do Porto, os agentes estão obrigados a deitar a mão a 250 indivíduos até ao final do ano.

Custe o que custar, doa a quem doer, a Brigada do Património (investiga roubos e furtos) e a Brigada da Droga têm que fazer, cada uma, quatro detenções mensais, entre o passado mês de Março e o final do ano. Já as brigadas de prevenção criminal (direccionadas para situações de flagrante delito) têm que fazer 14 detenções por mês.

Tradução: para a PSP, é igual apanhar um pilha-galinhas ou o cabecilha de um bando que trafique droga, ou que dedique as horas livres a espalhar o terror por esse país fora, assaltando bancos, postos de combustíveis e apetitosas coisas afins. Como se sabe, essa rapaziada costuma usar armas (e matar, se necessário for) para garantir os resultados das investidas, mas, mesmo assim, para as estatísticas da PSP continua a valer o mesmo do que o supracitado pilha-galinhas.

Os últimos números mostram que a criminalidade violenta aumentou assustadoramente em Portugal (partimos aqui do – quiçá ingénuo – princípio de que não foram manipulados). Se esta é a forma engenhosa que a PSP (e o Ministério da Administração Interna, que a tutela) encontraram para nos sossegar, falharam redondamente. Por uma simples razão: esta é a prova cabal de como são incapazes, uns e outros, de delinear uma eficaz estratégia de segurança; esta é a prova cabal de como, à falta de ideias, respondem com manipulação da estatística; esta é a prova da incapacidade de uns e de outros em mostrar fibra para assegurar uma das mais nobres e importantes funções do Estado: garantir a segurança dos seus cidadãos.

O caso é, portanto, grave. Esperemos que o ministro da Administração Interna se dê ao trabalho de nos explicar a todos quem é o culpado desta verdadeira aberração.

Fonte: Jornal de Notícias de 28.04.2009

28/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Paulo Ferreira: Deflação, o novo monstro

1. Há duas ou três semanas, falando em Braga (no extraordinariamente belo Mosteiro de Tibães), no âmbito dos encontros que o BCP vem organizando em todos os distritos do país para contactar mais de perto os seus quadros e os seus clientes, Daniel Bessa (o economista escolhido pelo banco para se dirigir às hostes) dizia, em traço grosso, que, se tivesse de escolher entre os efeitos de uma inflação alta e os de uma deflação, optaria pela primeira. Porquê? Porque a deflação tem consequências (ainda mais) devastadoras para as economias do que a subida generalizada dos preços (inflação).

O tema é controverso – há especialistas na matéria que pensam exactamente o contrário. É controverso e actual. Pela primeira vez nos últimos 40 anos (repito: 40 anos), a inflação registou em Portugal uma queda, de acordo com os dados ontem libertados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Causa principal: a evolução do preço dos combustíveis (o custo do petróleo caiu para menos de metade no espaço de um ano).

O governador do Banco de Portugal já tinha tido o cuidado de nos avisar: Portugal não escaparia durante alguns meses a uma inflação negativa. Constâncio afastou, contudo, um cenário de deflação (descida continuada e generalizada dos preços).

Porquê tanto temor com a deflação, se ela significa, para o consumidor, o acesso a bens mais baratos? Porque o reverso da medalha é o horror. Os preços baixam para níveis incomportáveis para as empresas. Consequência: desemprego e corte nos salários. Para quem, como é o nosso caso, tem as famílias penduradas pelos empréstimos aos bancos, já se vê os estragos que a famigerada deflação pode fazer.

Dois curtos exemplos para ilustrar o caos. A deflação que abalou o Japão, vista como uma espécie de antecipação do que pode acontecer no Ocidente, atirou aquele país para um período longuíssimo de letargia económica. A deflação que aconteceu nos EUA depois do crash bolsista de 1929 fez com que os preços baixassem 27%, com uma correspondente queda de 40% nos salários e elevados níveis de desemprego. Eis porque o monstro assusta tanto. E eis porque tem Daniel Bessa toda a razão.

Fonte: Jornal de Notícias de 14.04.2009

14/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Paulo Ferreira: Quanto vale uma ‘manif’?

O PCP convocou, pela voz do seu secretário-geral, mais uma manifestação para 23 de Maio, em Lisboa. Objectivo explicado por Jerónimo de Sousa: contestar as políticas do Governo, pois claro. Para isso, os comunistas reclamam a presença de todos quantos queiram mostrar a sua “indignação e descontentamento”. Jerónimo deseja “uma grande manifestaçção política, uma marcha de protesto, ruptura e confiança, uma grande acção de luta por uma vida melhor”.

Ora aqui está um interessante problema: o que é hoje uma “grande acção de luta”? Quantos manifestantes são necessários para impressionar o povo e para fixar a atenção dos media no evento? Os últimos protestos elevaram a fasquia a tal ponto que, hoje, reunir na capital do país 40 mil ou 50 mil pessoas (por comparação com as supostas 200 mil da manifestação da CGTP ou das supostas 120 mil dos professores) arrisca-se a ser visto como um grande fiasco. E um grande fiasco é tudo o que o PCP não precisa, numa altura em que a nossa vida nos dá mais argumentos para protestar do que para aplaudir.

De modo que, por muito sonoras que sejam as reclamações de Jerónimo de Sousa – combate às “injustiças, ao desemprego, à miséria e à corrupção” são palavaras duras-, o risco é grande para o PCP. Conhecidos e reconhecidos pela sua capacidade de trabalho e de mobilização, os comunistas sabem que as próximas eleições legislativas se jogam à Esquerda – e por isso estão disponíveis para, até ao limite se necessário, forçar a mobilização contra as políticas do Executivo de José Sócrates.

Verdade que, por muito bem sucedidas que sejam, as “acções de luta” não contam no sufrágio eleitoral. Mas ajudam a moldar o sentido de voto. Sobretudo quando são acompanhadas, dia após dia, por factos que afastam o optimismo dos que já vêem – e são alguns – sinais de recuperação nas economias.

Eis um sucinto e recente retrato do quotidiano nacional.

O número de desempregados disparou 17,7% em Fevereiro, face ao mesmo mês de 2008, marcando o acréscimo mais elevado desde Dezembro de 2003.

Efeito do desemprego: as contribuições para a Segurança Social estão a crescer, mas metade do previsto.

Os portugueses já não conseguem comprar os antidepressivos que lhes são receitados. As famílias estão sem dinheiro para os medicamentos.

A crise fez disparar o número de pedidos de bolsas universitárias: há centenas de novos candidatos e as universidades estão a aceitar candidaturas fora de prazo, para tentarem ajudar os alunos.

Donde: razões para “acções de rua” não faltam. Terão elas a dimensão que o PCP almeja?

Fonte: Jornal de Notícias de 24.03.2009

24/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário