Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Do grande Manuel António Pina: Lá se vai mais um sonho

Perdemos os sonhos ou são os sonhos que nos perdem? O meu sonho de menino sempre foi ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos; e quando, em vez de estudar, me punha a ler o “Cavaleiro Andante”, minha mãe dizia-me: “Estuda se queres vir a ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos”, sabendo que só isso era capaz de me arrancar da companhia de Tartarin de Tarascon e de Tintin.

Chegado a esse lugar de exílio que é a idade adulta (o que sucedeu mais ao menos na altura em que Tintin deixou de usar calças de golfe), procurei em vão informar-me acerca de como seria possível realizar tão desmesurado sonho. Só agora, já velho, o descobri. Para se ser presidente de uma empresa intermunicipal de tratamento de resíduos é recomendável, pelo menos em Braga, ter sido condenado por tentativa de corrupção de um vereador, o que (uma condenação por corrupção) é, como se sabe, uma inalcançável miragem em Portugal. Sem meios para tentar corromper vereadores, terei que me ficar pelo jornalismo, que também é uma actividade do sector do tratamento do lixo.

Fonte: Jornal de Notícias de 02.04.2009

02/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Doutores ou ainda menos

E se eu me tornasse Doutor antes de todos os outros portugueses? Não me serviria de nada, mas sempre evitaria o asterisco que um amigo colocou no título “Prof. Dr.” do cartão-de-visita, esclarecendo, ao fundo, em letra miúda: “Prof. por parte da mãe, Dr. por parte do pai”.

De facto, enquanto o ME não oferece também Novas Oportunidades para doutoramentos simplex, posso fazer como tantos outros cidadãos e alistar-me em qualquer “Independente” ou “Internacional” espanhola, comprando a tese, já pronta a imprimir, na Net. Mas, se calhar, optarei por algo mais credível: a “Doctorate Degree” em qualquer assunto (hesito entre Física Quântica e Biologia Molecular, ou então, como o doutoramento que a ex-astróloga de Mitterrand obteve na Sorbonne, em “A situação epistemológica da astrologia através da ambivalência fascinação/rejeição nas sociedades pós-modernas”). Basta-me ir à Net e, em oito dias e “at cheap price”, “sem estudar, sem aulas, sem exames e sem ter de pagar um orientador”, passarei a ostentar no cabeçalho destas crónicas um respeitável “Prof. Dr.”. E serei finalmente levado a sério.

Fonte: Jornal de Notícias de 27.03.2009

29/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Manuel António Pina: O reino do arbítrio

Ministra e secretários de Estado da Educação não foram capazes, na AR, de dizer em que lei consta a obrigatoriedade da entrega de objectivos individuais pelos professores ou a possibilidade de os conselhos executivos se lhes substituírem ou lhes instaurarem processos disciplinares. O mais que conseguiram titubear foi: “Está na lei…”. Percebe-se porque contratou Lurdes Rodrigues o eminente jurista Pedroso e lhe pagou 290 mil euros para fotocopiar “Diários da República”, trabalho de tal “exigência técnica” e “complexidade” que ele não foi capaz de o completar.

Os números dizem tudo: entre 1820 e 1900, o ME produziu 29 diplomas; de 1900 e 1974 cerca de 500; de 1974 a 1986 mais 900. De 1986 para cá tem sido o Dilúvio: são tantas as leis, decretos, portarias e regulamentos que o pobre eminente jurista, prestes a afogar-se, fugiu a sete pés com o cheque no bolso, deixando para trás um monte de 44 pastas a abarrotar de fotocópias. Diz-se em Direito que “muitas leis, lei nenhuma”. Quem se admira que o ME seja o reino do arbítrio? Ali pode fazer-se tudo, que há-de sempre haver uma lei que o permita…

Fonte: Jornal de Notícias de 26.03.2009

26/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Manuel António Pina: “Vem vero Povo, que lindo é”

Uma petição de sportinguistas exigindo a repetição da final da Taça da Liga “porque nós merecemos a taça, lutámos por ela com honra e amor à camisola” reuniu, em poucas horas, mais assinaturas que petição idêntica que anda há uma eternidade na Net (na Net, clica-se em qualquer sítio e aparecem duas ou três petições) apelando à demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado na sequência do caso BPN e dos “seus comportamentos que põem em causa o bom-nome do Conselho de Estado, da Presidência da República e do País”.

Quem julgasse que trafulhices de milhões como as do BPN chegariam para comover a Pátria, nunca, como na redacção daquela menina de Leiria, foi lá, à Pátria. A Pátria comove-se é com “penalties” roubados, não com milhões roubados. A Pátria não faz a mínima ideia do que é um milhão e está-se nas tintas (como o povo diz, isso são coisas “lá deles”) para “o bom-nome do Conselho de Estado (de quem…?), da Presidência da República e do País”. Ponham-lhe à frente uma petição a exigir a demissão do Eduardo de “Podia acabar o mundo” do tal Conselho de Estado, e essa, sim, a Pátria assina logo.

Fonte: Jornal de Notícias de 24.03.2009

JÁ AGORA:

Todos os dias surgem mais indícios de que Dias Loureiro mentiu à comissão parlamentar de inquérito. Estas mentiras são motivo suficiente para exigir a sua saída do Conselho de Estado.

Por iniciativa própria ou após ser desautorizado por Cavaco.

A história do BPN é uma vergonha. Ainda não se sabe tudo, mas já percebemos que a marosca é grande. É tempo de levantar a voz da cidadania.

Assinem a petição e passem a palavra:

“Os cidadãos portugueses abaixo-assinados apelam ao ainda conselheiro Manuel Dias Loureiro que, a bem do bom-nome daquele órgão de soberania e da democracia e dando um sinal claro de que não vê o seu cargo como forma de protecção e que quer o cabal esclarecimento de todos os factos, se demita do Conselho de Estado.

E que, caso este teime em não o fazer, o Presidente da República, que o indicou para o cargo, deixe claro que este conselheiro de Estado já não conta com a sua confiança.”

http://www.petitiononline.com/DLCE2009/petition.html

24/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina irónico e ácido…: O bom sindicalismo

Os sindicalistas bons, que não são “instrumentalizados” nem fazem greves e manifestações e “aposta(m) na concertação e não no conflito”, reuniram-se em congresso, durante o qual o seu “programa de acção” foi aprovado com 90% de votos.

Um dia depois, em resposta a declarações do líder do patronato, segundo as quais um salário mínimo de 500 euros em… 2011 é apenas uma “indicação” e “iremos ver se é possível”, o secretário-geral reeleito explicitou em que consiste a “aposta”: o sindicalismo bom “espera” que o próximo Governo “seja sensível”.

Este tipo de sindicalismo não reivindica, “espera”, não reconhece o salário como direito de quem trabalha, mas como prodigalidade. Se o próximo Governo for “sensível”, e o patronato também, “darão” em 2011 aos trabalhadores um salário mínimo compatível, como os pedintes dizem, com as suas possibilidades.

Em contrapartida, os sindicatos e os sindicalistas bons continuarão a ser bons, se possível ainda melhores, e a não perturbar o trânsito nem impedir os jornalistas igualmente bons da Antena 1 de chegar a horas às conferências de imprensa da CIP e do Governo.

Fonte: Jornal de Notícias de 23.03.2009

23/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Obsceno só? – eu diria nojento!: Manuel António Pina – Um negócio obsceno

Os 38 apartamentos de luxo construídos no edifício que foi a sede da PIDE, em Lisboa (“um edifício com história” que, diz a imobiliária, se mostra “novamente orgulhoso da sua herança”) estão a ser vendidos convidando os compradores a “reviver tempos de esplendor” e um passado de “luzes a reflectirem-se nas pratas do aparador e nas vestes de gala de cavaleiros e damas”.

A suja história de sangue e horror do edifício e os gritos de dor de milhares de portugueses que as “velhas e nobres paredes com um metro de espessura” abafavam, são agora, pelo turvo milagre da usura, uma memória doirada, transbordante de festas e de bodas, e de duques, príncipes e embaixadores. Num país onde o dinheiro compra tudo, até a memória colectiva, os antigos torturadores tornaram-se “copeiros e gentis homens” ao serviço de ricaços e recém-chegados ansiosos por reconhecimento. Bem pode o poeta clamar que “com usura homem algum terá casa de boa pedra” e que “com usura, pecado contra a natureza,/ sempre teu pão será rançosa côdea”; os usurários não têm pesadelos nem temem fantasmas. O esquecimento é o seu “estilo de vida”.

Fonte: Jornal de Notícias de 20.03.2009

20/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | 2 comentários

Manuel António Pina: O país dos milagres

O Vaticano anunciou nova fornada de santos, entre eles o condestável Nuno Álvares Pereira, a quem atribui a cura do olho esquerdo de uma velhinha de Vila Franca de Xira, atingido por salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe.

O Vaticano que me perdoe, mas, então, e os milagres da multiplicação do solo edificável e dos milhões nas contas de autarcas e familiares que todos os dias se produzem por esse Portugal fora?

O das moradias, automóveis, casas de férias, barcos de recreio, do presidente, vice-presidente, vereadores e directores de serviços da Câmara de Braga que a ciência não pode explicar com base nos seus parcos rendimentos?

E o milagre da falta de “recursos humanos” para investigar tal milagre? E o da PJ ter, segundo o MP, atribuído prioridade a “outras investigações”? E o suavíssimo milagre da recusa do PS em criminalizar o enriquecimento ilícito? E os milagres das aparições, em cima de azinheiras, sobreiros e áreas protegidas, de PIN aprovados à pressa em vésperas de eleições? Irá o Vaticano canonizar, a seguir, a generalidade da classe política dirigente portuguesa?

Fonte: Jornal de Notícias de 23.02.2009

19/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Manuel António Pina: “Olhem para mim a nadar”

Há uns anos houve uma inundação na garagem do meu prédio. Os carros ficaram com água pelos radiadores, e só de galochas se conseguia aceder a eles e tentar inutilmente tirá-los dali. Continuava a chover e a água, na garagem, não parava de subir. Então, o administrador do condomínio resolveu intervir afixando um comunicado a tranquilizar-nos: “A situação, embora alarmante, não é preocupante”. O ministro da Economia, Manuel Pinho, disse-o por outras palavras quando se soube que o desemprego chegara aos 7,6% no último trimestre de 2008, ainda antes da vaga de “layoffs” e fechos de empresas que se seguiu: “É um sinal de esperança…”.

Agora, Silva Lopes, ex-governador do Banco de Portugal, revelou que o país corre o risco de deixar de ter crédito no estrangeiro e que a contracção da economia portuguesa pode chegar a 5% ou mais. O Governo e Manuel Pinho dir-nos-ão que a situação, embora alarmante, não é preocupante, e que em breve começarão as obras do TGV. Assim a modos como o Menino Ru de “Joanica-Puff” a afogar-se e a vir a espaços à tona dizendo: “Olhem para mim a nadar, olhem para mim a nadar!”.

Fonte: Jornal de Notícias de 06.03.2009

06/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Intriga em família

Como os tempos vão para arrependidos, se eu fosse a dra. Manuela Ferreira Leite escolhia Zita Seabra para encabeçar a lista do PSD às próximas “europeias”. Como é provável que o PCP venha a ter um comunista à frente da sua candidatura, e como as do PS e do BE contam já com Vital Moreira e Miguel Portas, ambos trânsfugas do PCP, só faltaria o CDS arranjar também um (e eles não faltam por aí) para que a disputa eleitoral se travasse entre comunistas e ex-comunistas, o que talvez pudesse colorir com algum sal as habitualmente sensaboronas eleições para o PE.

O povo aprecia intrigas em família, e espreitar pelo buraco da fechadura do PCP (não é afinal o PCP a escola de quadros da democracia?) tornou-se há muito, em Portugal, um género jornalístico de grande sucesso. Quem quer saber de PACs, de PESCs, de FSEs, de FEOGAs ou de QCAs? Não é Tratado de Lisboa coisa, como diz Vital Moreira, incompreensível para o vulgo que vota e só acessível a “doutores de Coimbra, meu Deus” e aparentados? Uma boa lavagem de roupa ideológica suja seria decerto o melhor tónico para combater a abstenção que se adivinha.

Fonte: Jornal de Notícias de 05.03.2009

05/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Manuel António Pina: O que está em causa

A propósito da apreensão pela PSP, em Braga, de livros com “L’Origine du Monde”, de Courbet, na capa, tudo o que é comentador se tornou de repente especialista em teoria da arte. Houve até quem tivesse deslumbradamente descoberto que a arte pode ser pornográfica como a pornografia pode ser artística.

Em inícios do século XX, Duchamp, ou R. Mutt por ele, confrontou os “beaux esprits” com o facto de tudo poder ser arte e arte poder ser tudo, e de nem o assunto, o “feio” ou o escabroso (em arte, como para o velho Karamazov, há muito que “não há mulheres feias”), nem a intenção ou o “kunstgriff” lhe servirem de BI. Não era o alfabeto, para Mallarmé, a maior das obras poéticas? Talvez não seja desejável (não é, de certeza) que os polícias sejam críticos de arte, por muito que custe aos agentes do Serviço de Fronteiras dos por assim dizer “géneros”. O que está em causa no que aconteceu na Feira do Livro de Braga não é uma discussão sobre os limites da arte, é (sinal dos tempos?) uma limitação abusiva, pois não fundada no Direito e da parte de quem não tem poderes para tal, à liberdade de expressão.

Fonte: Jornal de Notícias de 27.02.2009

01/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário