Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Manuel António Pina: O fim de festa

Desta vez, os autores da “campanha negra” estão devidamente identificados: são os juízes do Tribunal de Contas. Por motivo de “urgência”, embora o contrato só terminasse em 2015, o Governo assinou com a Liscont, empresa da famosa “holding” económico-partidária Mota-Engil/Jorge Coelho (e, já agora, Luís Parreirão, também ex-governante socialista da área das Obras Públicas) um “aditamento” à concessão do terminal de Alcântara. Sem concurso, que a coisa era “urgente” e sabe-se lá quem estará no Governo em 2015. É um contrato justo: a Liscont cobra os lucros e o Estado (a Grande Porca bordaliana, a de inesgotáveis tetas) suportará eventuais prejuízos, ou, nas palavras do TC, “o ónus do risco do negócio passa para o [Estado]”. O Estado pagará ainda 1,3 milhões em advogados, consultores & assessores para a montagem e gestão da ampliação do terminal; e até se, durante as obras, calhar serem descobertos vestígios arqueológicos, será (adivinhem quem) o Estado a pagar a paragem dos trabalhos. Só de má-fé é que alguém pode concluir que tudo isto não é de interesse público e do mais transparente que há.

Fonte: Jornal de Notícias de 23.07.2009

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23/07/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Falsas esperanças

Em resposta à decisão do Ministério das Finanças de não garantir as aplicações de “retorno absoluto” impingidas pelo BPP a numerosas pessoas, João Rendeiro, ex-presidente e principal accionista do banco, diz que o Governo “alimentou falsas esperanças aos clientes”. Vinda de um especialista em falsas esperanças, a constatação tem a autoridade de um juízo inter-pares. Foram assim por água abaixo as pretensões dos investidores do BPP de ver reembolsados pelo Estado os seus investimentos falidos. A verdade é que as falsas esperanças que Rendeiro lhes vendeu contaram com a cobertura (ou, tendo em conta os indícios e rumores que já existiam, com o ‘encobrimento por negligência’) do BdP e da CNVM. Os clientes do BPP não confiaram apenas em Rendeiro, confiaram também na regulação de Constâncio e Teixeira dos Santos, então presidente da CNVM. Mas se o Estado fosse a indemnizar todas as vítimas disto e daquilo (roubos, furtos, fraudes…) que por aí há diariamente por a Polícia falhar na sua missão de garantir a segurança, não havia dinheiro dos contribuintes (nem contribuintes) que chegassem.

Por motivo de férias,

esta coluna regressa a 15 de Julho

Fonte: Jornal de Notícias de 12.06.2009

12/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Tempo de fazer contas

Peguemos então na máquina de calcular e deitemos contas à democracia que temos. De mais de 9 milhões e meio de eleitores inscritos, 63% (mais de 6 milhões) entenderam, no passado domingo, que não valia a pena votar. Considerando que outros 4,63%, tendo votado, o fizeram em branco, negando a confiança a qualquer partido, e que houve 2% de votos nulos, os portugueses que confiam ainda nos partidos que temos são já menos de um terço (30%).

O que significa que o PSD – partido mais votado – tem a confiança de apenas 9,5% dos portugueses (31,68% de 30%), e o PS de menos ainda: nem de 8% (26,58% de 30%). E todos os restantes partidos, no seu conjunto, de menos de 9%. É esta a legitimidade democrática (o PSD representando 9,5% dos portugueses, o PS menos de 8% e os restantes partidos menos de 9%) do actual sistema partidário. O que levou a tal divórcio dos portugueses – que, no entanto, nas primeiras eleições após o 25 de Abril acorreram em massa, esperançada e entusiasticamente, às urnas – dos políticos e da política? Teremos que mudar de povo? De políticos? Ou devemos continuar a fazer de conta?

Fonte: Jornal de Notícias de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Todos gratos

Estava mesmo a ver-se que o tiro da “roubalheira” do BPN e outros tiros no pé, como o da “bárbara agressão” do 1.º de Maio ou o do “PCP de Direita”, iriam sair pela culatra ao “professor de Coimbra, meu Deus!”. Vital Moreira bradou (e Ana Gomes re-bradou) que “figuras gradas do PSD” estariam envolvidas na “roubalheira”, no “escândalo” e na “vergonha”. Afinal, segundo se soube entretanto, parece que há também figuras gradas de outro partido – aquele por que ambos se candidataram – “envolvidas” (o que quer que isso queira dizer). É o que acontece quando se cospe para o ar, o cuspo acaba por cair em cima do cuspidor. Em certas matérias, aconselha o bom senso que nem PS nem PSD se apedrejem, e até um professor de Coimbra, ainda por cima “meu Deus!”, deveria saber que não é bom para nenhuma delas as comadres começarem a arrepelar-se uma à outra, pois acabam ambas carecas. Ontem, Sócrates, reconhecendo a carecada do PS, agradeceu a Vital Moreira; os restantes partidos têm também razões para lhe estarem gratos. Quer a vitória do PSD quer as subidas eleitorais da CDU e do BE lhe ficam a dever muito.

Fonte: Jornal de Notícias de 08.06.2009

08/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina: É melhor sermos amigos dele

Se a notoriedade por assim dizer política do ministro Manuel Pinho advém, principalmente, de ter conseguido ser fotografado para a posteridade ao lado de celebridades como Catherine Deneuve (a verdadeira, não a do Parque Eduardo VII) e Michael Phelps e de não ter conseguido – que diabo!, um ministro não consegue tudo – salvar a Quimonda ou as minas de Aljustrel, ele é notável também pela luta ardorosa que trava com Mário Lino pelo título de campeão nacional das “bocas” de gosto refinado.

A última foi que Paulo Rangel, do PSD, ainda tem que “comer muita papa ‘Maizena’ para chegar aos calcanhares de Basílio Horta”. Pensar-se-ia (muita gente o pensou) que seria, em tempos de crise, um estímulo ao importante sector económico das papas, do género do de Sócrates ao “Magalhães” e à J.P. Sá Couto. Só que não se tratava da economia nem do país, tratava-se de Basílio Horta ser seu amigo e de ele, como disse à TSF, “defender os amigos”. Foi uma desilusão. Afinal, Manuel Pinho é um ministro como os outros, preocupa-se é com os amigos. Mas o país ainda pode ter esperança: basta-lhe passar a ser seu amigo.

Fonte: Jornal de Notícias de 12.05.2009

12/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Foleiros & doutores

Terminaram as chamadas “Queimas das Fitas” e, salvo raras excepções, o balanço foi o do costume: alarvidade+Quim Barreiros+garraiadas+comas alcoólicos. No antigo regime, os estudantes universitários eram pomposamente designados de “futuros dirigentes da Nação”. Hoje, os futuros dirigentes da Nação formam-se nas “jotas” a colar cartazes e a aprender as artes florentinas da intriga e da bajulice aos poderes partidários, enquanto à Universidade cabe formar desempregados ou caixas de supermercado. A situação não é, pois, especialmente grave. Um engenheiro ou um doutor bêbedo a guiar uma carrinha de entregas com música pimba aos berros não causará decerto tantos prejuízos como se lhe calhasse conduzir o país. Acontece é que muitos dos que por aí hoje gozam como cafres besuntando os colegas com fezes, emborcando cerveja até cair para o lado, perseguindo bezerros e repetindo entusiasticamente “Quero cheirar teu bacalhau” andam na Universidade e são “jotas”. E a esses, vê-los-emos em breve, engravatados, no Parlamento ou numa secretaria de Estado (Deus nos valha, se calhar até já lá estão!).

Fonte: Jornal de Notícias de 11.05.2009

11/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião, Uncategorized | | Deixe um comentário

Manuel António Pina: Finalmente todos de acordo

Foi um dia histórico na AR: todos os partidos, da direita à esquerda, de acordo. Inacreditável? Não, tratava-se de aumentar de 22.500 para 1.257.660 euros – 5 500% de aumento! – o valor que os partidos podem receber em “cash” (notas, arame, guita, maravedis, pilim…). E, já que estavam com a mão na massa, decidiram alargar ainda as subvenções que recebem do Orçamento de Estado.

A justificação é que o eleitorado do PCP não usa cheques nem cartões multibanco, e deve poder ir buscar ao colchão 1 257 660 euros em notas para entregar no Centro de Trabalho mais próximo. Guerra Junqueiro falava, há mais de cem anos, de partidos “análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais (…) como metades do mesmo zero, não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão (…) de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar”. Afinal, cabem. E é fácil imaginá-los a repetir uma das “Ladaínhas modernas” do mesmo Junqueiro correcta e aumentada: “S. Venha-a-Nós, satisfazei-nos este desejo, /S. Venha-a-Nós, este desejo timorato: / S. Venha-a-Nós, fazei do país um queijo, / S. Venha-a-Nós, e fazei de nós um rato”.

Fonte: Jornal de Notícias de 06.05.2009

06/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Vital, o “amordaçado”

Aproveitando sofregamente a circunstância de Paulo Rangel, cabeça de lista do PSD às europeias, ter usado a palavra “mordaça” para dizer que não se calaria, durante a campanha, sobre questões nacionais, Vital Moreira, o tal candidato “independente” do PS – crendo, como na fábula, que era algum bago -, veio auto-medalhar-se com o facto de que ele é que sabe “o que é suportar mordaça” pois terá “suportado mordaça” durante o Estado Novo, coisa de que o juvenil Rangel, na altura recém-nascido, não pode gabar-se.

Conta-se que uns irlandeses terão procurado um dia George Bernard Shaw ostentando as chagas da repressão inglesa e pedindo o seu apoio à causa republicana, e que Shaw julgou perceber em tal ostentação algum orgulho, comentando: “Não vejo que ter sido maltratado possa ser motivo de orgulho…”. O “professor de Coimbra, meu Deus!” e arrependido do PCP orgulha-se do seu passado de “amordaçado” e tenta pô-lo a render (é, pensará, um capital de credibilidade) na bolsa eleitoral. O que sempre me pergunto, em casos como o de Vital Moreira, é o que, se falasse, o seu passado diria do seu presente.

Fonte: Jornal de Notícias de 17.04.2009

17/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Manuel António Pina – mais um artigo conciso e acutilante: De que tem medo o PS?

O PS tem um problema com a corrupção que, sendo o PS Governo, se torna um problema do país. Sempre que o tema vem à baila, designadamente na AR, o PS mostra-se patentemente incomodado, e tal incómodo manifesta-se numa torrente de palavras e declarações de intenção que, por um motivo ou por outro (e pode legitimamente recear-se que seja por outro), nunca se traduz em actos. Paralelamente, se hoje, em Portugal, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um corrupto ir parar à cadeia, isso deve-se fundamentalmente a um Código Penal aprovado pelo PS. Ao mesmo tempo, o deputado socialista que mais batalhou por eficazes leis anti-corrupção passou a…ex-deputado.

Agora é o enriquecimento ilícito de titulares de cargos públicos. Os portugueses habituaram-se a ver gente que ocupa ou ocupou lugares de decisão política aparecer a vender cabritos sem ter, que se saiba, cabras e pareceria natural que a lei lhe perguntasse (como já faz no domínio fiscal) donde vieram os cabritos. O PS acha a pergunta imprópria, e nem permite que o TC se debruce sobre ela. Que hão-de pensar os portugueses?

Fonte: Jornal de Notícias de 10.04.2009

13/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Do Grande Manuel António Pina – “ácido (cítrico)” e ironia…: A decência, finalmente

A notícia agitou no fim-de-semana a habitualmente pacata (hoje é um daqueles dias em que, como no soneto de Bocage, me acho mais pachorrento) comunicação social portuguesa.

O Estado, através da Agência de Modernização Administrativa, decidiu modernizar administrativamente as meninas da Loja do Cidadão de Faro e proibiu-as de usar saias curtas, decotes, saltos altos, perfumes “agressivos” (acho bem, perfumes armados e perigosos deviam estar sob a alçada da lei das armas; e sei do que falo que já tenho sido espoliado até por águas de colónia) e roupa interior escura. Descontando as cuecas e os “soutiens”, reservas ecológicas onde o Estado talvez devesse, mas que sei eu?, abster-se de edificar, o resto, juntamente com os processos a jornalistas, é já, tudo o indica, o primeiro passo da política de decência da sociedade portuguesa anunciada no Congresso do PS. Tinha que se começar por algum lado e começou-se pelas saias e decotes, que era o que estava mais à mão (salvo seja). A corrupção, o tráfico de influências e o enriquecimento ilícito que ponham as barbas de molho; um dia chegará a sua vez.

Fonte: Jornal de Notícias de 13.04.2009

13/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário