Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Nuno Rogeiro: Notas apocalípticas

Nova ordem – Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Mas, como nos anos 30, face às crises económicas, ao colapso dos banqueiros, ao desprestígio dos políticos e ao crepúsculo dos parlamentos, erguem-se grupos populares e populistas, legiões tribais e clãs de protesto, salientando que a Europa deve arrepiar caminho. A maior parte destes clubes de “pensamento e acção” tem, como programa, a simples revolta. Não possui ideia sobre o que deva ser a “nova ordem”.

Ainda.

Tróia e os Cavalos – José Bové é uma espécie de Obélix, disposto a partir os restaurantes de “fast food”, para salvar os javalis e os menhires.

Cohn Bendit (os inimigos chamam-lhe “Con Béni”, ou “imbecil ungido”), esse, já possui os planos da pólvora.

E o BNP inglês quer (quase) todos os imigrantes lançados à Mancha. Ou assim diz a caricatura.

Por outras palavras, o “partido do não” (à Europa) existe e não existe.

Existe, porque ganha dezenas de deputados. Não existe, porque não tem coesão interna, nem ideias comuns.

Mesmo o “Não” é diferente, de família para família: uns não querem a federação (quem quer?), outros não querem uma confederação, ou uma aliança flexível de estados. Uns não querem a Europa política, outros não querem sequer a económica. Uns querem regressar antes do Tratado de Maastricht, outros ao continente antes do acordo fundacional de Roma, outros à Europa dos séculos XVIII e XIX, quando não à Idade Média.

De qualquer forma, todos estes “nãos” engrossam um “Não” na assembleia final. Serão, certamente, Cavalos de Tróia no parlamento, obrando para a destruição do projecto que o fundamenta.

Mas não é isto a “democracia”?

Lei Marcial – Para alguns impacientes e descorçoados, tudo se resolveria com medidas administrativas. As massas não votam? Sufrágio obrigatório. As massas não votam como deviam? Interdição dos partidos “perigosos”. As massas não querem ir para onde as “elites” as conduzem? Todo o poder à vanguarda esclarecida. As massas não se mexem? É preciso obrigá-las a ser livres. As massas não têm pão? Que comam brioche.

Já vimos isto: é o catálogo dos erros mortais dos “iluminados”. Também eles merecem o seu cadafalso.

Até porque há cada falso…

O socialismo nunca existiu – Uma versão piedosa diz que o Socratismo foi desmantelado, nestas eleições, porque teve (coitado) de governar o país na crise, com sacrifício, fazendo das tripas coração. Ora a verdade é que os partidos socialistas foram aniquilados por toda a Europa, quer estivessem no governo ou contra. Perderam rotundamente, quer aparecessem como o rosto da crise, quer como a salvação dela. Em poucas palavras, perderam pelo seu carácter “anfíbio”, pelas palavras oportunistas, pela falta de ideias, pela ausência de palavras, até pela má qualidade dos trocadilhos.

Por outro lado, nem todos os partidos no poder, ou colados à crise, perderam. Pelo contrário: vejam-se os casos de Merkl, Sarkozy e Berlusconi, todos fortalecidos, apesar de serem “bêtes noires” dos “inteligentes” de esquerda. E de Saramago.

Como me dizia um ex-trotskysta, hoje convertido em grande “resistente” ao “neofascismo” italiano: “o povo é tramado!”.

Pois é. Tem o mau hábito de não se deixar “formar” pelos “formadores de opinião”. E de pensar pela sua própria, e colectiva, cabeça.

E agora? – Espera-se que todos ganhem bom senso, razoabilidade e humildade. Não estamos em tempo de Napoleões do quinto esquerdo.

Fonte: Jornal de Notícias de 12.06.2009

12/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Baptista-Bastos – Os mesmos à mesa

Acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse ‘socialismo’ desacreditado e desacreditante

Os resultados estão muito aquém das nossas expectativas. São decepcionantes”, disse Sócrates, rosto compacto e voz pesada. Já suspeitava de que o primeiro-ministro tem vivido num universo plano, no qual é inexistente a espessura das coisas e a evidência dos factos. A prova forneceu-a ele próprio, com a taciturna confissão. Que esperava da sua rude teimosia, da sua obtusa empáfia, ele, mais propenso às volúpias do mando do que às obediências da ideologia?

Sócrates perdeu para quem? A admitir, como júbilo, a selvagem alegria de Paulo Rangel, e como declaração de impostos a fúnebre catadura de Vital, Sócrates perdeu para toda a gente. Mas o PSD vence quem? O PS e o Governo? Se a verdade enriquece mais do que a reticência, o Bloco Central sai incólume deste imbróglio. O Bloco Central é uma instância de poder, desprovida de convicções, e, sobretudo, destinada a distribuir empregos. O PS não é “socialista” (creio que nunca o foi) e o PSD foge espavorido da “social-democracia”.

É verdade que o Bloco subiu, o PCP aumentou o número de votantes, e o CDS sacudiu a letargia com a qual desejavam amortalhá-lo. Mas as coisas estão rigorosamente na mesma: elementares e antigas. A mesa está posta para os mesmos. E não é preciso restaurar a frase de Lampedusa; basta reler, por exemplo, o “Portugal Contemporâneo”, do Oliveira Martins, para se entender quem manda e sempre aqui mandou.

Paulo Rangel saiu-se menos-mal de uma contenda de mediocridades. No PSD é olhado de viés. O baronato acha-o levemente patusco e um pouco ridículo. Pelejou sozinho, ou quase, contra desdéns e omissões. Ao contrário do que afirma o cada vez mais enfatuado e fatigante Pacheco Pereira, o candidato do PSD não seguiu a “estratégia” da dr.ª Manuela, pela simples razão de que essa “estratégia” não existe. A vitória nestas eleições cabe, por inteiro, a Paulo Rangel, o qual atribuiu a si próprio a defesa de um castelo cercado, cujos paladinos haviam debandado. Que fazer com esta vitória? Os senhores do PSD começaram, já, a assenhorear-se de uma glória que lhes não pertence; Rangel vai para Bruxelas mas, antes, será crestado em fogo brando; e, com maior ou menor fortuna, passada a increpação nervosa do momento, a dr.ª Manuela continuará alvo de conspirações e objecto de pequenas deslealdades. É o PSD, tal o caracterizou Sá Carneiro.

Em todo o caso, acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse “socialismo” desacreditado e desacreditante. Mas poderá José Sócrates inverter a tendência para o abismo? Fará pequenos remendos como um remorso sobressaltado. Apenas isso. Nada de substancial que sacuda a leve rotina das coisas.

Fonte: Diário de Notícias de 12.06.2009

12/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Tempo de fazer contas

Peguemos então na máquina de calcular e deitemos contas à democracia que temos. De mais de 9 milhões e meio de eleitores inscritos, 63% (mais de 6 milhões) entenderam, no passado domingo, que não valia a pena votar. Considerando que outros 4,63%, tendo votado, o fizeram em branco, negando a confiança a qualquer partido, e que houve 2% de votos nulos, os portugueses que confiam ainda nos partidos que temos são já menos de um terço (30%).

O que significa que o PSD – partido mais votado – tem a confiança de apenas 9,5% dos portugueses (31,68% de 30%), e o PS de menos ainda: nem de 8% (26,58% de 30%). E todos os restantes partidos, no seu conjunto, de menos de 9%. É esta a legitimidade democrática (o PSD representando 9,5% dos portugueses, o PS menos de 8% e os restantes partidos menos de 9%) do actual sistema partidário. O que levou a tal divórcio dos portugueses – que, no entanto, nas primeiras eleições após o 25 de Abril acorreram em massa, esperançada e entusiasticamente, às urnas – dos políticos e da política? Teremos que mudar de povo? De políticos? Ou devemos continuar a fazer de conta?

Fonte: Jornal de Notícias de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 1 Comentário

Eduardo Dâmaso, Director-Adjunto do CM: Onde pára o PS?

As mais reveladoras imagens das eleições foram captadas no quartel-general dos socialistas, montado no Hotel Altis. A noite começou fria. Sem militantes e com imagens de alguns ‘notáveis’ em debandada logo que foram conhecidas as projecções de resultados.

Depois, por longos e ruidosos minutos, as televisões fixaram-se numa sala vazia, metáfora de circunstância de um partido também ele muito vazio de alma, de discurso e de rumo estratégico. O silêncio falava mais alto do que Sócrates. Mas o extraordinário aconteceu quando os socialistas decidiram assumir a derrota. A sala encheu-se de governantes, ex-governantes, deputados e ex-deputados, assessores disto e daquilo, chefes de gabinete, secretárias, administradores, autarcas e meia dúzia de líderes das federações e concelhias.

O povo socialista que pulula pelo Estado estava ali em peso, com meia dúzia de rapazes da JS para abrilhantar. Agora, o verdadeiro povo socialista, que noutros tempos enchia espontaneamente o Altis, cá fora e lá dentro, esse, esteve longe dali. O PS tornou-se um partido de quadros colocados politicamente e cada vez menos de militantes e simpatizantes. Não debate, segue o chefe. Não contesta, verga-se às orientações. Está refém do pragmatismo e da gestão de interesses, a léguas do sonho e do rasgo estratégico de outras eras.

Fonte: Correio da Manhã de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Carlos Abreu Amorim, Jurista: Perguntem à Maya

A indústria das sondagens tem um poder de autopromoção invulgar – esses gurus dos tempos pós-modernos acertam sempre mesmo quando falham clamorosamente. Durante semanas, quase em uníssono, juraram que o PS iria ganhar, apenas divergindo na diferença a que ficaria o PSD. O CDS foi reduzido à sua expressão mais ínfima. Só no último dia da campanha surgiu um ‘estudo’ que colocava o PSD a vencer, mas por pouco.

Na antiguidade, as predições eram feitas por sacerdotes que procuravam as pistas do futuro nas tonalidades do fígado das aves. Mais tarde, as folhas de chá tiveram algum sucesso. Qualquer um dos métodos é mais barato do que as fortunas que agora se pagam às empresas que fazem vaticínios travestidos de ciência – e os resultados têm rigor semelhante.

Fonte: Correio da Manhã de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Paulo Ferreira: Bom e mau das eleições

Os factos oferecidos pelas eleições europeiais estão à vista de todos: o PS e José Sócrates apanharam uma tareia; a maioria absoluta nas legislativas deve ter falecido anteontem; Manuela Ferreira Leite (e não o PSD) rejuvenesceu; Paulo Rangel é a mais fresca e interessante figura surgida no espectro político-partidário português desde há muitos anos; os barões sociais-democratas que esperavam um deslize para atacar a jugular de Ferreira Leite vão ter que se manter sossegados no seu canto durante mais uns tempos; o CDS-PP voltou a erguer-se, quando já era dado como morto e (quase) enterrado; a CDU conquistou 70 mil votos; o Bloco de Esquerda teve um fantástico resultado; e, finalmente e mais importante do que tudo isto, os portugueses não ligaram patavina a estes eleições.

O retrato é mais famoso para uns do que para outros. E dele emergem duas realidades cujo significado merece alguma atenção. Uma é boa, outra nem por isso.

A boa realidade é esta: os resultados de anteontem trazem o PSD de volta para a discussão sobre quem deve liderar o próximo Governo. Há uns meses – melhor: há umas semanas -, Ferreira Leite estava acantonada e à mercê dos que anseiam substituí-la rapidamente e em força. Com um partido dilacerado por erros vários, a tarefa afigurava-se impossível para a ex-minsitra das Finanças. Não é que, de um dia para o outro, Ferreira Leite tenha passado do inferno para o céu. Os cacos do partido estão lá para ser colados, um por um. Sucede que, agora, legitimida pelo voto, a presidente do PSD tem outros meios para fortificar o partido, preparando-o assim para as duras lutas que aí vêm.

E isto só pode ser uma boa notícia. Porque, antes disto, a democracia portuguesa estava colocada perante uma inevitabilidade: viver sem hipótese de escolha entre, pelo menos, dois partidos. A pluralidade de opções só faz bem.

Segunda e mais delicada realidade. Portugal é, desde domingo, um país onde a extrema-esquerda (CDU e Bloco de Esquerda) vale mais de 20% dos votos do eleitorado. Isto deve assustar? Não, pelo menos para já. Mas, se a tendência se mantiver em próximos actos eleitorais, é caso para reflectirmos muito bem sobre o país que estamos a construir, ou queremos construir. Pode ser verdade que, sobretudo o Bloco, tenha beneficiado do voto fiel (gente jovem, urbana e “moderna”, que discute nos blogues) e de muito voto de protesto. Normalmente, este último tipo de voto tende a fugir nas legislativas, por entender que há apenas dois partidos idóneos para governar: PS e PSD. Pode ser, mas também pode não ser…

Antevendo esta derradeira possibilidade, é crucial que os dirigentes bloquistas nos expliquem qual é, afinal, o seu modelo de sociedade, coisa de que fogem como o diabo foge da cruz. Não basta cavalgar as notícias, pedir aos ricos que paguem a crise e usar reiterados floreados de linguagem para impressionar os incautos.

Fonte: Jornal de Notícias de 09.06.2009

09/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Carlos Abreu Amorim, Jurista: Há derrotados

Ontem, deu-se o insucesso de uma campanha que jurou só falar em temas europeus e acabou a sujar os adversários à boleia de escândalos internos que não têm partido. Foi o desaire da táctica ridícula da ‘campanha negra’ e dos ‘poderes ocultos’. Foi a queda de um estilo peculiar de querer ser ‘duro’, assente em ameaças pouco veladas a professores descontentes e em processos judiciais a jornalistas menos respeitosos em relação ao ‘chefe’.

Ontem percebeu-se, também, que não é impunemente que se finge governar com muito marketing político mas poucas medidas competentes, com reformas anunciadas mas nunca realizadas.

Ontem, Sócrates foi o grande derrotado. Rangel o vencedor indiscutível. A sorte do ainda primeiro-ministro é que não vai ter o mesmo adversário nas Legislativas.

Fonte: Correio da Manhã de 08.06.2009

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Octávio Ribeiro, Director: Votos deixam Sócrates em gestão

A maré política mudou. Com este cartão laranja mostrado nas urnas, Sócrates tem certa a perda – no mínimo – da maioria absoluta. Ferreira Leite contará agora com um partido unido e disciplinado. Já cheira a poder no PSD. Esse aroma, sabe-se, inebria as hostes social-democratas ao ponto de verem a sua futura primeira-ministra em quem até ontem somavam incapacidades para liderar.

No PS começará inexorável o dia seguinte, o dia após Sócrates. E este é o grande desafio ao ainda primeiro–ministro: perante um Verão que se prevê socialmente duríssimo, Sócrates terá de continuar a governar, enquanto o partido que o suporta estará já à procura de novas soluções para a liderança. Na azáfama do fim de festa deste Governo, a Cavaco Silva caberá um papel mais central e reforçado nos poderes de vigilância que lhe assistem.

É já claro – na prova real dos votos contra a predição das sondagens – que os próximos três meses contarão com uma maioria absoluta no Parlamento desajustada da vontade actual dos eleitores. Tal facto terá de ser ponderado na acção governativa com efeitos nos próximos anos. E isso Cavaco deverá fazer com total legitimidade.

Fonte: Correio da Manhã de 08.06.2009

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