Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Nuno Rogeiro: A ho(n)ra da China?

Pequim já fumega, depois do novo relatório do Pentágono, apontando a China como o grande “desestabilizador militar” dos equilíbrios estratégicos, na delicada Ásia. Embora reconhecendo que o “modelo chinês” não possui “ainda” os meios de projecção da sua força, a grandes distâncias, o Departamento de Defesa de Obama olha nele uma ameaça imediata.

Ameaças, sobretudo, aos parceiros americanos do Pacífico e da Oceânia, isto é, a novos e velhos (e futuros) aliados dos EUA.

A China reage, explicando que a sua força militar se destina apenas à defesa de um imenso território, e à participação em todas as tarefas militares pós-modernas, incluindo as “missões de apoio à paz”. E, dentro dos EUA, há muitos responsáveis que, discretamente, reconhecem a preciosa ajuda da China, na domesticação de “regimes párias”, ou no combate ao “extremismo violento”.

Como me dizia há pouco tempo um diplomata chinês, o problema é que os EUA “precisam da China, mas não como superpotência: apenas enquanto ajudante de superpotência”.

Há razões para esta desconfiança de Washington?

Há. Pequim deve compreendê-las, antes de se queixar do “espírito da Guerra Fria”.

Apesar de todos os avanços, o “modelo chinês” é baseado no domínio de um partido, dito comunista, entre grossas aspas.

Este é o maior obstáculo. Se a China fosse um estado pluralista como o Japão, a sua ascensão à condição de superpotência, rival ou aliada dos EUA, seria mais fácil e mais natural, e teria menos oposição americana.

Assim, a chave está na liberalização cívica na China. Quer na direcção de genuínos outros partidos quer no sentido de voz plena à “sociedade civil”, através de um sólido código de direitos fundamentais. Incluindo plenas liberdades políticas, sociais e económicas.

Claro que, como vem sendo explicado por Pequim, primeiro tem de se atender à vida, e só depois à filosofia. Quer dizer, antes há que elevar a riqueza individual, alimentar o povo, trazer da sub-humanidade as massas que ainda lá estão, depois das criminosas fantasias maoístas e neomaoístas, e só depois pensar em cultivar a mente.

A chave de abertura de novos jornais, para grande parte dos decisores políticos chineses, é a abertura de novos supermercados, escolas, fábricas modernas, hospitais e bairros confortáveis.

Mas este caminho pode ser longo. Cem anos na vida da China não são nada, mas constituem uma eternidade, no caminho do Ocidente.

E o “Ocidente”, e o mundo em geral, olham para a China, ansiosos. Esta parece sobreviver melhor do que os outros, face à crise financeira, a tal que come as almas e os corpos.

O “mercantilismo” chinês, em que o Estado, através de várias entidades (governos regionais, cooperativas, guildas de empresários, sindicatos, empresas “privadas” detidas indirectamente pelo sector público, e um largo etc.), vigia, controla, condiciona e protege a economia e as finanças, actuando no valor da moeda, nos subsídios aos sectores produtivos, ou no estabelecimento de planos de actividade, tem amortecido o choque do descalabro da Wall Street, no ex-“Império do Meio”.

Mais habituado ao apertar do cinto, ao sofrimento, à flutuação do conforto, à reciclagem e ao recomeço, o meio social chinês, ajudado por esta máquina, pode ajudar a injectar dinheiro fresco nos mercados internacionais. Pode, inclusivamente, ajudar a reconstruir a “ordem financeira mundial”.

Mas há-de pedir alguma coisa em troca.

Incluindo poder.

Político.

Aos EUA.

Fonte: Jornal de Notícias de 27.03.2009

Anúncios

27/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 4 comentários

JN: Ataque cibernético ao “big brother” chinês

Repórteres Sem Fronteiras saqueram frequência de estação de Pequim

A associação Repórteres Sem Fronteiras deu um golpe ao “big brother” chinês. Em ataque cibernético, pirateou a frequência de uma rádio de Pequim, saqueou clandestinamente a emissão e disse cobras e lagartos do regime.

Esta é uma história de pilhagens cibernéticas, com despojos virtuais. Se, na véspera, lhe tinham saqueado o site internet com um ataque viral de procedência desconhecida, embora se suspeite de “hackers” chineses, ontem, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) conseguiu uma gloriosa retaliação: ludibriou o controlo do regime, pirateou a frequência FM de uma rádio de Pequim e emitiu, clandestinamente, durante quase meia hora, palavras de ordem pela liberdade de expressão e contra as supostas violações dos direitos humanos no Império do Meio.

Organizado desde Paris, o ataque pirata da RSF foi perpetrado através de emissores miniaturizados e de antenas móveis. E até a hora da emissão clandestina teve toda a simbologia: se, na superstição numérica dos chineses, a abertura dos Jogos estava marcada para as 08.08 horas da noite de 8/8/2008, a rádio FM foi tomada de assalto às 8.08 horas da manhã.

Uma voz, em francês, seguida de outra, na dobragem em inglês, endereçou a primeira declaração às autoridades chinesas: “Nunca calarão a liberdade da palavra”.

As mensagens contra o regime continuaram na língua local: “Sejam bem-vindos à Rádio Repórteres Sem Fronteiras em Pequim […] para vos informar sobre a liberdade de expressão no país da censura”; “Esta é a maior afronta ao regime que mantém na cadeia dezenas e dezenas de jornalistas e de internautas”.

A RSF congratulou-se de ter criado, ainda que brevemente, “a única estação de rádio livre da China, a primeira não estatal desde que o Partido Comunista tomou conta do poder, em 1949”.

Durante os 22 minutos de antena clandestina, defensores chineses dos direitos humanos refugiados no estrangeiro pediram a Pequim que libertasse os presos por delito de opinião e que descodificasse as frequências das rádios internacionais que emitem em Chinês, nas frequências de onda curta.

LINK

09/08/2008 Posted by | Política: notícias | , | Deixe um comentário