Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Paulo Pinto de Albuquerque: Supervisão falhada

A supervisão do Banco de Portugal falhou redondamente. O falhanço da supervisão bancária nos casos do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português tem um custo para todos os portugueses, que atingiu por ora os 1,6 mil milhões de euros no caso do BPN e os 450 milhões de euros no caso do BPP. Trata-se de um valor que ultrapassa o orçamento de toda a justiça portuguesa para 2009. Mas este falhanço da supervisão vai ter também um custo político nas próximas eleições legislativas. Os portugueses não esquecem estes valores astronómicos, que lhes saem dos bolsos. E esse custo político será cobrado ao Governo, que é responsável pela nomeação do conselho de administração do Banco de Portugal e pela manutenção do seu governador em funções. Dito de modo simples, a manutenção do actual governador do Banco de Portugal é uma decisão política que vai custar caro ao primeiro-ministro.

Com efeito, o Banco de Portugal e o seu governador exercem dois tipos de supervisão: uma supervisão comportamental e uma supervisão prudencial. A supervisão comportamental consiste na vigilância da conduta dos membros dos órgãos de administração das instituições de crédito, bem como das pessoas que nelas exerçam cargos de direcção, gerência, chefia ou similares, que devem proceder nas suas funções com a diligência de um gestor criterioso e ordenado de acordo com o princípio da repartição de riscos e da segurança das aplicações e ter em conta o interesse dos depositantes, dos investidores, dos demais credores e de todos os clientes em geral. A supervisão prudencial visa garantir que as instituições de crédito aplicam os fundos de que dispõem de modo a assegurar a todo o tempo níveis adequados de liquidez e solvabilidade. Para exercer as suas funções de supervisão, o Banco de Portugal pode emitir recomendações e determinações específicas para que sejam sanadas irregularidades, aplicar coimas, sanções acessórias e medidas provisórias, como a suspensão preventiva do exercício de funções dos administradores, e mesmo tomar medidas extraordinárias de saneamento, quando uma instituição de crédito se encontre em situação de desequilíbrio financeiro, traduzido na redução dos fundos próprios a um nível inferior ao mínimo legal ou na inobservância dos rácios de solvabilidade ou de liquidez. Entre as medidas extraordinárias, o Banco de Portugal pode ordenar a apresentação, pela instituição em causa, de um plano de recuperação e saneamento, designar administradores provisórios e impor restrições ao exercício de determinados tipos de actividade ou ainda a sujeição de certas operações ou de certos actos à aprovação prévia do Banco de Portugal. O Banco de Portugal pode até exigir a realização de auditorias especiais por entidade independente, por si designada, a expensas da instituição auditada.

Tudo isto o Banco de Portugal poderia e deveria ter feito em tempo útil, quando surgiram os primeiros indícios e notícias de irregularidades várias naquelas instituições bancárias. Só finalmente em Dezembro de 2008 o Banco de Portugal nomeou administradores provisórios para o BPP e só em Fevereiro de 2009 suspendeu preventivamente das suas funções seis administradores do BPP. Por outro lado, o Governo concedeu uma garantia ao consórcio de bancos que emprestou ao BPP 450 milhões de euros em Dezembro de 2008 e desde então muito tempo passou sem que uma solução definitiva tenha sido encontrada, aguardando ainda os clientes que sejam honrados os depósitos no âmbito do mecanismo do Fundo de Garantia de Depósitos e seja resolvida a questão dos produtos de capitais garantidos. Ao invés, no tocante ao BPN, o Governo foi lesto em assumir os custos colossais do falhanço da supervisão bancária, nacionalizando o banco em Novembro último, sem que o cidadão comum tenha compreendido a disparidade de critério da intervenção pública. Não é apenas por esta política errática que o primeiro-ministro vai ter de prestar contas. Ao manter em funções o governador do Banco de Portugal, o primeiro-ministro fica também politicamente associado ao falhanço e às omissões graves da entidade supervisora.

Fonte: Jornal de Notícias de 19.06.2009

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19/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , , , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Falsas esperanças

Em resposta à decisão do Ministério das Finanças de não garantir as aplicações de “retorno absoluto” impingidas pelo BPP a numerosas pessoas, João Rendeiro, ex-presidente e principal accionista do banco, diz que o Governo “alimentou falsas esperanças aos clientes”. Vinda de um especialista em falsas esperanças, a constatação tem a autoridade de um juízo inter-pares. Foram assim por água abaixo as pretensões dos investidores do BPP de ver reembolsados pelo Estado os seus investimentos falidos. A verdade é que as falsas esperanças que Rendeiro lhes vendeu contaram com a cobertura (ou, tendo em conta os indícios e rumores que já existiam, com o ‘encobrimento por negligência’) do BdP e da CNVM. Os clientes do BPP não confiaram apenas em Rendeiro, confiaram também na regulação de Constâncio e Teixeira dos Santos, então presidente da CNVM. Mas se o Estado fosse a indemnizar todas as vítimas disto e daquilo (roubos, furtos, fraudes…) que por aí há diariamente por a Polícia falhar na sua missão de garantir a segurança, não havia dinheiro dos contribuintes (nem contribuintes) que chegassem.

Por motivo de férias,

esta coluna regressa a 15 de Julho

Fonte: Jornal de Notícias de 12.06.2009

12/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Pois…: Armando Esteves Pereira, Director-Adjunto do CM – Não há coincidências

(…) Não deixa de ser curiosa a rápida alteração do discurso do Governo sobre o caso do Banco Privado, especialmente se atendermos à coincidência de a decisão ter sido anunciada menos de 48 horas após o desastre eleitoral do PS, castigado por uma subida exponencial do Bloco de Esquerda. Mas em política não há coincidências.

Que se aguentem…desde quando é que eu tenho de pagar os prejuízos dos outros em Bolsa?

Banco só pagaria hoje um sexto do valor

A liquidez gerada pelos títulos, actualmente congelada no banco, só chega a 230 milhões de euros, bem longe dos 1,2 mil milhões investidos.

11/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Armando Esteves Pereira, Director-adjunto do Correio da Manhã: Contribuinte paga a conta

Ainda não se sabe qual vai ser o desfecho do triste caso do BPP, mas já há uma certeza: os contribuintes vão pagar caro o prejuízo deste banco especializado em gestão de fortunas. Se o Governo optar pela falência, assume pelo menos 800 milhões de euros.

Se optar pela viabilidade, a factura pode ser ainda a maior. E ainda falta saber quem paga a factura dos clientes dos produtos de retorno absoluto, que foram notoriamente enganados pela gestão de Rendeiro. Mais uma vez, o contribuinte perplexo pergunta: Ninguém vai preso?

Fonte: Correio da Manhã de 12.05.2009

12/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Armando Esteves Pereira, Director-Adjunto do Correio da Manhã: Escândalo do BPP

O ministro das Finanças disse ontem que “os clientes do BPP que celebraram contratos de depósito terão as garantias asseguradas”. Esta promessa do ministro não acalma os clientes vítimas do Banco Privado, porque as suas aplicações, tecnicamente, não são depósitos, mas sim investimentos mais próximos de fundos bolsistas.

Até rebentar o caso BPP, os clientes estavam sossegados e pensavam que os produtos de ‘retorno absoluto’, garantidos pelo banco, com um juro pouco superior a 5%, eram depósitos. Descobriram depois que eram produtos de risco e que alguns até serviam para pagar aplicações de outros clientes, como num esquema de D. Branca.

Isto aconteceu num banco de portas abertas, num negócio em que os administradores estão sob a alçada disciplinar do Banco de Portugal. A autoridade falhou de forma absurda e deixou que o banco vendesse gato por lebre.

Os accionistas da Privado Holding estão agora em guerra, enquanto João Rendeiro está tranquilo, com o seu património seguro em offshores. Entre os clientes que invadiram os balcões do banco há casos dramáticos. Pessoas que perderam o pé-de-meia. A actual administração ainda tenta recuperar banco, mas o mais importante não é salvar o BPP: o fundamental é recuperar o máximo possível do dinheiro dos clientes.

Fonte: Correio da Manhã de 09.05.2009

09/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

BPP: Plano de viabilização foi entregue ontem – Rendeiro geria produtos fictícios

O Banco Privado Português (BPP) terá comercializado produtos financeiros em relação aos quais não houve qualquer tipo de investimento subjacente. Segundo apurou o CM junto de várias entidades, foram lançados investimentos cujo único objectivo seria angariar poupanças que serviam para pagar resgates de outros clientes do banco.

Em causa estarão várias emissões de dois produtos financeiros: os STL – Short Term Liquidity, aplicações com vencimento trimestral e que tinham uma taxa evolutiva até ao máximo de 5,25 por cento, e os produtos designados como ‘Oportunidades’. Em particular a emissão ‘Oportunidade’ 25 de Março de 2010, que oferecia uma rentabilidade anual de seis por cento. Bem como aplicações directas realizadas em produtos fictícios que serviriam para garantir rentabilidades “falsas”.

Questionada a administração do BPP, fonte oficial do banco afirmou não ser verdade “que tenham sido identificados quaisquer veículos comerciais sem nenhuns colaterais subjacentes”. O gabinete de Adão da Fonseca reafirma que “o dinheiro dos clientes foi usado na totalidade para adquirir activos, que existem no banco”.

Estas afirmações contrariam as declarações de Carlos Tavares, proferidas esta semana na Comissão Parlamentar. O presidente da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), em resposta a uma pergunta de um deputado, afirmou terem existido “transacções fictícias para alimentar veículos fictícios”.

O CM tentou chegar à fala com João Rendeiro, ex-presidente do BPP, mas tal não foi possível até ao fecho desta edição.

Ontem a administração liderada por Adão da Fonseca entregou o plano de viabilização da instituição, que deverá passar pelo recurso ao programa de recapitalização do Estado, acompanhado de um aumento de capital (a subscrever pelos accionistas da Privado Holding) que deverá trazer ao BPP cerca de 300 milhões de euros.

PORMENORES

CONTRA CONSTÂNCIO

Um grupo de 20 clientes do BPP enviou para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DIAP) uma queixa-crime contra a administração do Banco de Portugal. Segundo estes clientes, a actuação do BdP foi ilegal e discriminatória”.

SEM CULPA

O ex-presidente do BPP, João Rendeiro, rejeitou a responsabilidade pelo estado do banco afirmando em Dezembro: “Não me sinto culpado, não há lugar para culpas, há lugar para uma situação financeira complexa” e ameaçou, num artigo de opinião, processar quem o comparasse à Dona Branca

Fonte: Correio da Manhã de 25.04.2009

25/04/2009 Posted by | Política: notícias | , , | 5 comentários

Armando Esteves Pereira: Privado e fictício

Quando a 19 de Novembro de 2008 João Rendeiro, em entrevista à SIC Notícias, fez um apelo para o Estado dar um aval a um empréstimo de 750 milhões de euros, poucos imaginavam que a instituição tivesse poupanças em risco, especialmente aplicações que os clientes pensavam que eram depósitos, que o banco vendia co-mo produtos de ‘retorno absoluto’.

Rendeiro, que publicou a biografia dos seus sucessos como o homem que venceu o mercado, na semana em que o naufrágio do banco foi conhecido conseguiu convencer ilustres clientes do banco com alguns milhões investidos. Um mês antes de desistir da liderança do BPP, Rendeiro assegurava que estava tudo bem.

Não estava tudo bem, e Carlos Tavares, presidente da CMVM, acusou o banco de ter realizado operações fictícias. Como Madoff ou, na versão portuguesa menos sofisticada, D. Branca. Rendeiro respondeu com ameaça de processo judicial ao regulador da Bolsa.

Se a convicção das autoridades do mercado estiver certa, o banqueiro dos ricos vendeu alguns produtos que não aplicava. Usava o dinheiro captado junto dos clientes para satisfazer necessidades de tesouraria correntes. Parece o jogo de um perigoso esquema de pirâmide. Depois de se saber isto, a quem é que os clientes lesados vão pedir contas? Às autoridades do mercado ou às offshores de Rendeiro?

Fonte: Correio da  Manhã de 25.04.2009

25/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | Deixe um comentário

Do Diário de Notícias: Cravinho diz que João Rendeiro é “homem de bem”

BPP. O ex-ministro do PS escreveu prefácio do livro do banqueiro
O socialista João Cravinho não se arrepende de ter escrito o prefácio do livro “Testemunho de um Banqueiro”, de João Rendeiro, mesmo depois do escândalo que envolve o Banco Privado Português (BPP). “O prefácio representa o que penso de João Rendeiro, até prova em contrário. Continuo a pensar que é um homem de bem”, afirmou ao DN.

O actual administrador do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) sublinha que “é amigo” do ex-presidente do BPP e que apesar de ter sido membro do Conselho Consultivo do banco durante três anos não teve “qualquer conta ou transacção” com o BPP.

“Fiz o prefácio porque o amigo me convidou. Fi-lo com a responsabilidade e o sentido de verdade à data em que o fiz. E se ele me convidasse agora também o faria”, garante João Cravinho. Aproveita para dizer que João Rendeiro lhe transmitiu estar convicto de que o BPP iria sobreviver apesar da crise financeira.

No prefácio do “Testemunho de um Banqueiro”, Cravinho diz a propósito da personalidade de Rendeiro e da ambição que o moveu: “Chegar mais alto pelo seu próprio mérito, com toda a limpeza, é também apontar caminhos aos outros, um pouco como quem abre portas a futuras marés que levantam os barcos à medida que a linha de água sobe.”

O antigo ministro das Obras Públicas do Governo de António Guterres recorda que o banqueiro começou a sua vida profissional na administração pública e que, na altura, mesmo sem o conhecer bem pessoalmente “desde logo me apercebi da sua craveira intelectual e carácter”. Daí que tenha sido ele próprio a escrever uma carta recomendando a admissão de Rendeiro ao programa de doutoramento de Sussex, desviando-o da carreira na função pública.

João Cravinho afirma ainda no prefácio que João Rendeiro soube tirar partido da liberalização dos mercados de capitais em meados dos anos 80. “Hoje, não carece de demonstração o sucesso da ambiciosa e inovadora estratégia empresarial que vem prosseguindo em torno do Banco Privado Português”, pode ainda ler- -se nesta introdução às memórias.

O livro de João Rendeiro, o primeiro em Portugal sobre a vida de um banqueiro, foi lançado em Novembro do ano passado, numa altura em que o BPP já estava debaixo de fogo. Na altura não quis falar da situação do banco, mas prometeu não baixar os braços. Ainda em Novembro, o banqueiro abandonou a presidência do banco destinado a gerir fortunas e do qual era o principal accionista.

Em Dezembro, para salvar o BPP da falência, foi-lhe concedido um empréstimo de 450 milhões de euros, vindos de seis instituições de crédito, com a garantia de Estado, entre as quais a Caixa Geral de Depósitos. Recentemente, a PJ, o Ministério Público e a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários fizerem buscas às instalações do BPP que visaram apreender registos de movimentos bancários, que podem estar relacionados com aplicações financeiras suspeitas.

Fonte: Diário de Notícias de 02.02.2009

02/02/2009 Posted by | Política: notícias | , , | Deixe um comentário

Como falir um banco em três tempos: American Club – João Rendeiro foi o convidado do almoço mensal – Um azar nunca vem sozinho

Vinte minutos de discurso sobre a crise mundial, nem uma palavra sobre a crise do BPP, três perguntas e estava acabado o almoço mensal do American Club com o convidado João Rendeiro, ex–presidente do BPP, que ontem teve lugar no Hotel Sheraton, em Lisboa. Uma aparição dois meses depois de ter saído da ribalta, na sequência do pedido de ajuda ao Banco de Portugal e da sua saída da presidência do banco, que fundou em 1996.

Nessa altura, ia Novembro no seu fim, o dia da desgraça coincidiu com o lançamento do livro ‘João Rendeiro, Testemunho de um Banqueiro’. Ontem, a sua ida ao American Club coincidiu com a a notícia da falência da Privado Holding, que controla a totalidade do capital do BPP, e do prejuízo de 247 milhões que deixou na altura em que abandonou a presidência do banco. O discurso do banqueiro sobre a crise mundial e os negros anos que se avizinham não despertou o entusiasmo dos 70 convidados do American Clube. O que entusiasmou os jornalistas presentes foi obviamente a notícia de mais uma desgraça para os accionistas do BPP e, claro, para o próprio João Rendeiro, principal accionista do banco. Parece coincidência, pode ser azar, mas o banqueiro que se dedica às artes, à inclusão social e a diversas associações de beneficência não anda decididamente nas boas graças dos deuses. Até parece castigo.

“DEUS ABENÇOE OBAMA”

João Rendeiro, fato cinzento escuro, camisa branca e gravata preta, começou a sua intervenção com uma saudação ao novo Presidente dos EUA: “Neste dia cheio de simbolismo somos todos americanos. Deus abençoe Obama, Deus abençoe a América.” Nem esta frase provou um entusiasmo por aí além nos 70 convidados do almoço mensal do American Club. Mas não foram apenas as palavras do convidado que pesaram no ambiente da sala White Plaines do Hotel Sheraton. O almoço propriamente dito também terá deixado muito a desejar. Um creme de ervilhas com estragão e espargos, peito de frango recheado com requeijão e espinafres com batata atomatada e poejos, creme de arroz com cardamomo e sultanas e vinho Cerejeiras, branco e tinto.

PORMENORES

70 CONVIDADOS

Na sala White Plaines do Hotel Sheraton não se via uma cara conhecida do mundo dos negócios.

POUCAS PERGUNTAS

Depois de um discurso de vinte minutos, sem novidades, só três pessoas colocaram questões.

LRIVOS INTERESSANTES

À entrada da sala White Plaines estavam à venda dois livros: o de Rendeiro e ‘Terramoto no BCP’.

PEDRO PASSOS COELHO

O clube de homens e mulheres de negócios, fundado em 1947, vai ter Passos Coelho em Fevereiro.

Fonte: Correio da Manhã de 21.01.2009

21/01/2009 Posted by | Política: notícias | , | Deixe um comentário

Mais um artigo espectacular do Mário Crespo: Danos colaterais

“Quem é que sabe o que é uma OCD?”. Havia cerca de quatrocentos jornalistas de televisão na sala de conferências e à pergunta de Steve Sedgwick da CNBC ninguém respondeu. Eu estava lá. A questão tinha sido posta em Inglês. ‘What’s a CDO?’.

Depois de esgotado o minuto de embaraço Sedgwick, um especialista em jornalismo económico e financeiro, voltou à carga: ‘Presumo que também não saibam o que é uma OCD ao quadrado…ou ao cubo? ‘. Não se sentiu o arrastar de pés do desconforto nem o silêncio que permitiria ouvir o tal alfinete a cair no chão porque o auditório do Hilton de Valência é alcatifado. Foi o próprio Sedgwick, um tipo irritantemente novo, irritantemente bem parecido e bem vestido, irritantemente sabedor e extraordinariamente sagaz a fazer entrevistas (o que irrita também) que nos deu a redenção: ‘Não se preocupem muito. O Presidente de um dos maiores bancos multinacionais foi questionado sobre isto na Câmara dos Comuns e também não sabia’. Tinha sido no início da crise numa audição no parlamento britânico quando os bancos da City começaram a falir. Numa áspera troca de argumentos o parlamentar inquiridor tinha confrontado o banqueiro com o facto de desconhecer um produto que o seu banco andava há anos a vender por todo o Mundo. Os jornalistas que participaram no seminário de Valência, além da lição de humildade de que a crise financeira tem que ser jornalisticamente mais bem tratada, receberam como bónus a informação do que é uma CDO ou uma OCD em português. É um dos tais produtos financeiros tóxicos que nos fazem perder empregos, ter fome e que durante uns anos enriqueceram obscenamente uma série de Donas Brancas por esse mundo fora. Tecnicamente definida como Obrigação de Dívida Colateralizada, na realidade traduz-se na manipulação dos ingénuos que acreditam em galinhas dos ovos de ouro ou, já que estamos em avicultura, confiam que o tal ovo que se supõe esteja no oviducto do galináceo mas ainda ninguém viu, acabe por sair na forma de uma omeleta de espargos. Depois o ovo não sai e aumentam-nos os impostos e tiram-nos os empregos e retardam-nos a pensão de reforma e fecham maternidades e escolas e esquadras de polícia. Estamos a viver em Portugal uma destas monstruosidades. Preocupado com a crise financeira internacional o governo de Sócrates disponibilizou uma quantidade astronómica de dinheiro para “salvar o sistema”. Todos assumimos que se tratava de apoiar algo que servisse o bem público. O primeiro acto detectado deste plano foi salvar, o Banco Privado que tem tanto a ver com o público como a Ferrari, a Bentley e a Louis Vuitton têm a ver com a Carris. Fiquei finalmente a compreender a lição do jornalista de economia em Valência. O Estado Português deu dinheiro à banca privada mas não se quis meter no Banco Privado. Seis bancos privados, por razões que a razão ainda desconhece “colateralizados” pelo Estado Português, dão ao Banco Privado o “colateral” para manter os interesses privados que representa salvaguardados. É de facto a tal dívida sobre dívida colateralizada ao quadrado de que falava Sedwick na conferência de Valência e nós não sabíamos o que era. Pelo menos uma coisa já sabemos agora. É que vamos pagar por ela.

Fonte: Jornal de Notícias

29/12/2008 Posted by | Uncategorized | , | 1 Comentário