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O que vou lendo por ai…

Armando Esteves Pereira, Director-adjunto do Correio da Manhã: Casos de polícia

O BPN não foi o único banco nacional com gestão extravagante, digna de análise mais profunda de quem gosta de casos de polícia. No entanto, é nesta instituição de génese tão portuguesa, onde as fraudes, o compadrio, o gasto pornográfico de dinheiro em projectos sem sentido, mais se fizeram notar.

Rui Pedras, actual administrador, disse no Parlamento que as burlas de Oliveira e Costa são de maior dimensão do que as de Madoff, se tivermos em conta o peso no PIB. O buraco nas contas do BPN custará pelo menos 1,8 mil milhões de euros. As loucuras e erros que, provavelmente de forma injusta, são todos atribuídos a Oliveira e Costa significam quatro dias de riqueza produzida em Portugal. O banqueiro detido não é o único culpado, mas de facto nunca tão poucos roubaram tanto aos contribuintes.

– As audições parlamentares do BPN têm tido até agora uma vantagem. Demonstram a falta de vergonha e a colaboração interna do banco em enganar as autoridades, mas também deixam em claro a ineficiência da supervisão do Banco de Portugal. As operações delicadas podiam estar escondidas, mas a autoridade não procurou muito.

– O último trimestre de 2008 foi desastroso. O primeiro de 2009 parece pior. Ninguém sabe quando esta tragédia acaba. E será que haverá retoma depois da crise?

Fonte: Correio da Manhã de 15.02.2009

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16/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | Deixe um comentário

Pedro Lomba: A ARTE DE ENGANAR TODOS

“Sou muito chegado aos reguladores. A minha sobrinha até casou com um deles.”

Bernard Madoff, 2000

Com certeza que ouviram já falar de Bernard Madoff, o trader de Wall Street que durante décadas criou um esquema colossal de vigarice, com perdas de 50 mil milhões de dólares. Tenho andado a ler sobre a odisseia de Madoff. Podem pensar que nada disto é connosco, mas enganam-se. Notícias de ontem revelavam que, sozinho, Madoff impediu os bancos espanhóis de lucrarem 650 milhões de euros. Em Portugal ainda não sabemos os efeitos, mas o País é pequeno e isso, ocasionalmente, traz vantagens. Um só homem conseguiu o que muitos políticos anti-sistema reclamam: sugou os lucros da banca. Pelo meio apanhou investidores individuais, fundos de pensões, instituições de benemerência social. Fomos todos um pouco por todo o lado roubados por Bernard Madoff.

É verdade, porém, que foram sobretudo os ricos americanos os penalizados pela “arte” de Madoff que usava o dinheiro investido por novos clientes para pagar as comissões dos velhos clientes. Dizem que tudo não passava de um típico esquema Ponzi – nome do trapaceiro italiano que há cem anos aterrou na América e teve a ideia original. Tratava-se de um plano tão simples que ninguém percebe como é que durou tanto tempo sem ser deslindado. Acontece que Madoff era um homem deste tempo. Manipulava aparências como poucos. Controlava-se. Sobreestimava-se. Durante décadas a sua maior preocupação foi alimentar obsessivamente uma imagem de financeiro contido e meticuloso que conhecia a fundo o mercado e, acima disso, a cabeça dos reguladores. Tinha ganho a confiança de todos.

E é isso que faz de Madoff um interessante caso psicológico. Eis aqui um homem que, não só prometia aos investidores retornos rápidos e um certo estatuto selecto – duas coisas que os ricos não desprezam -, como tudo sabia sobre a forma de agir dos reguladores. “Vivia”, na prática, no meio deles. Conhecia-os em Washington, colaborava em comissões governamentais, fazia o discurso legalista que os reguladores apreciavam. Na mesma audiência de 2000, Madoff disse ainda: “Neste sistema de regulação é virtualmente impossível violar as regras por um considerável período de tempo sem ser detectado.” Acho que não se riu.

Desconfiem sempre de políticos demasiado íntimos de jornalistas, de promotores imobiliários demasiado íntimos de autarcas e de outros decisores, de agentes económicos demasiado íntimos dos respectivos reguladores. Todos frequentemente escondem um intento pessoal e pouco saudável. Todos, seguindo o princípio de Madoff, vivem onde menos se vê. No meio.
Jurista – pedro.lomba@eui.eu

Fonte: Diário de Notícias de 29.01.2009

29/01/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário