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O que vou lendo por ai…

Baptista-Bastos: Olhem bem para os olhos dela

Esvoaça, embora discreto e módico, o perfume do poder e já o alvoroço se instalou nos militantes do PSD. Nos fóruns das rádios e das televisões, nos debates, nos artigos, nas preposições do Pacheco Pereira os sentimentos dominantes medeiam entre a glória do mando e o revanchismo. A euforia nunca foi boa conselheira. O próprio significado da palavra suscita precauções. Mas é preciso conhecer o significado da palavra.

O PSD, como se sabe, é constituído por uma série de ilhas, num oceano de atritos. O recente golpe de karaté aplicado pela dr.ª Manuela ao pobre Passos Coelho é paradigmático. O homem não foi, somente, afastado; foi vexado sem clemência. A senhora não abole distâncias: cria-as. Funcionando por exclusões, interdita, primeiro, qualquer veleidade de ascensão daqueles que a ela se opuseram; depois, cultiva o tribalismo, que desencoraja a mínima hipótese de dissenção. Naturalmente, esta prática despreza a ética.

O que se prepara, no caso (pouco provável) de José Sócrates perder as eleições é a aplicação de uma teia reticular de interesses particulares sobre o edifício do Estado. O PSD não dispõe de nenhuma estratégia de Governo. As soluções que vagamente expõe são as tradicionais da Direita. Qualquer preocupação de justiça é eliminada; as privatizações multiplicar-se-ão; a Saúde pertencerá às seguradoras com intervenção mínima do Estado, que será reduzido em todos os sectores da sociedade; aumento de impostos, mais repressão no mundo do trabalho. Nada de novo.

A dr.ª Manuela não alimenta o segredo das paixões. Nada promete que nos alivie do rude peso que, sabe-se lá como?!, tem sobrevivido a todas as penúrias impostas. Porque não haverá alterações de fundo, nem sequer remendos mal cerzidos, às avarias sociais de que temos sido vítimas. A responsabilidade do que nos acontece também terá de ser assacada ao PSD. Não há inocentes neste drama. O PS talvez tenha um comportamento menos brutal; porém, nunca concebeu ou estimulou uma consciência ética e estética que se prolongasse para além de si mesmo. Não é de estranhar que a dr.ª Manuela ameace rasgar um número ainda desconhecido, mas certamente vultoso, de decisões tomadas pelo Executivo Sócrates, caso seja “distinguida com o Governo” [sic].

Se há, manifestamente, uma tendência nos jornais, nas rádios, nas televisões e nas sondagens para se inflectir no PSD, isso deve-se mais ao desencanto que o PS provocou do que a méritos da dr.ª Manuela. A senhora é, rigorosamente, o que aparenta. E nada de bom se adivinha nessa aparência: algo de anacrónico, de deformado, incapaz de esboçar os contornos de uma sociedade mais justa.

Olhem bem para os olhos dela. Está lá tudo o que assusta.

Fonte: Diário de Notícias de 08.07.2009

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08/07/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Baptista Bastos: Afinal, que quer o PS?

Não é de estranhar que uma sondagem recente atribua “empate técnico” ao PS e ao PSD, nas legislativas. A prática governamental, nestes últimos anos, é um empreendimento de confronto com sectores sociais decisivos, e uma construção de poder (direi pessoal) que repousa em imprevisíveis decisões individuais. O modelo não se rege por princípios; obedece a reflexos. Chamado de “reformas”, foi elogiado pelas faixas mais retrógradas da nossa sociedade. E a sociedade está em fanicos.

Notoriamente, o orgulho de Sócrates foi amolgado com a derrota nas “europeias”. Até hoje engole em seco, mas continua a combinar os mesmos elementos modulares que têm feito a sua perdição. Parece que não consegue definir o corpo social português e delimitar as fronteiras entre as classes. Sabe-se que nada tem a ver com “socialismo” como instância histórica, ideológica e ética. Também se sabe que conseguiu domesticar aqueles dos seus camaradas que, tenuemente embora, ainda agitavam as bandeiras de uma específica identidade política. A derrocada de 7 de Junho alarga-se em vergonhosas cumplicidades. Nenhum “socialista” se rebelou. Talvez porque já não haja socialistas. Talvez porque o socialismo nunca existiu. Talvez. Uma única certeza: José Sócrates nunca foi socialista.

Ele próprio dá vivo testemunho dessa evidência. Há dias resolveu convidar um grupo de pessoas para o ajudar a reflectir sobre o País, e procurar as soluções adequadas. Os vigorosos pensadores não eram gente de Esquerda, ou afins. Nada disso. T’arrenego, Satanás! Alguns pertenciam àquele agrupamento de estilistas conhecido pelo Compromisso Portugal. A notícia correu fértil. Logo a seguir, o dr. Carrapatoso, corrigindo o que semelhava ser a natureza dos signos, veio afobadamente dizer que nada tinha a ver com os desígnios da amena reunião. Uma selecta jantarada, de duvidosa eficácia.

Cada vez mais desarvorado com os sucessivos dislates, José Sócrates decidiu, agora, consultar os “magos” que ajudaram Barack Obama a conquistar o poder. Uma mistura de marquetingue e de Alvin Tofler. E, embora um técnico português de publicidade, altamente qualificado, tenha dito que não há nenhum génio que consiga, hoje, vender fruta bichada, Sócrates não abdicou de escutar os americanos. Atingimos a era do desequilíbrio e da alucinação. O Estado é entendido como uma empresa, não como a configuração de um corpo político, social e administrativo.

Afinal, que deseja de nós o secretário-geral do PS? Ambiciona os votos de quem? Enquanto esta espessa mediocridade sem alma e sem valores campeia infrene, que nos espera? Manuela Ferreira Leite? Dá que pensar.

Fonte: Diário de Notícias de 02.07.2009

02/07/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Baptista-Bastos – Os mesmos à mesa

Acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse ‘socialismo’ desacreditado e desacreditante

Os resultados estão muito aquém das nossas expectativas. São decepcionantes”, disse Sócrates, rosto compacto e voz pesada. Já suspeitava de que o primeiro-ministro tem vivido num universo plano, no qual é inexistente a espessura das coisas e a evidência dos factos. A prova forneceu-a ele próprio, com a taciturna confissão. Que esperava da sua rude teimosia, da sua obtusa empáfia, ele, mais propenso às volúpias do mando do que às obediências da ideologia?

Sócrates perdeu para quem? A admitir, como júbilo, a selvagem alegria de Paulo Rangel, e como declaração de impostos a fúnebre catadura de Vital, Sócrates perdeu para toda a gente. Mas o PSD vence quem? O PS e o Governo? Se a verdade enriquece mais do que a reticência, o Bloco Central sai incólume deste imbróglio. O Bloco Central é uma instância de poder, desprovida de convicções, e, sobretudo, destinada a distribuir empregos. O PS não é “socialista” (creio que nunca o foi) e o PSD foge espavorido da “social-democracia”.

É verdade que o Bloco subiu, o PCP aumentou o número de votantes, e o CDS sacudiu a letargia com a qual desejavam amortalhá-lo. Mas as coisas estão rigorosamente na mesma: elementares e antigas. A mesa está posta para os mesmos. E não é preciso restaurar a frase de Lampedusa; basta reler, por exemplo, o “Portugal Contemporâneo”, do Oliveira Martins, para se entender quem manda e sempre aqui mandou.

Paulo Rangel saiu-se menos-mal de uma contenda de mediocridades. No PSD é olhado de viés. O baronato acha-o levemente patusco e um pouco ridículo. Pelejou sozinho, ou quase, contra desdéns e omissões. Ao contrário do que afirma o cada vez mais enfatuado e fatigante Pacheco Pereira, o candidato do PSD não seguiu a “estratégia” da dr.ª Manuela, pela simples razão de que essa “estratégia” não existe. A vitória nestas eleições cabe, por inteiro, a Paulo Rangel, o qual atribuiu a si próprio a defesa de um castelo cercado, cujos paladinos haviam debandado. Que fazer com esta vitória? Os senhores do PSD começaram, já, a assenhorear-se de uma glória que lhes não pertence; Rangel vai para Bruxelas mas, antes, será crestado em fogo brando; e, com maior ou menor fortuna, passada a increpação nervosa do momento, a dr.ª Manuela continuará alvo de conspirações e objecto de pequenas deslealdades. É o PSD, tal o caracterizou Sá Carneiro.

Em todo o caso, acentua-se a decadência do PS, esse projecto sem projecto, esse “socialismo” desacreditado e desacreditante. Mas poderá José Sócrates inverter a tendência para o abismo? Fará pequenos remendos como um remorso sobressaltado. Apenas isso. Nada de substancial que sacuda a leve rotina das coisas.

Fonte: Diário de Notícias de 12.06.2009

12/06/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | 1 Comentário

Baptista-Bastos: “…Mas as crianças, Senhor…”

A sociedade portuguesa perdeu, há muito, a noção de valores e tripudiou sobre as regras de convivência. Lenta mas inexorável uma endemia de dissolução alastrou, de tal forma, que põe em causa a própria razão do ser individual. Abandonámos um conceito de destino e desinteressámo-nos da ideia de futuro, se alguma vez a ambos tivemos. Antero e Oliveira Martins disseram que não. Causticámo-los com o ferrete de cépticos. Desprezámo-los quando devíamos tê-los estudado. A República animou-nos, mas a festa durou pouco. Meio século de cantochão, bota cardada, medos vários, foram as insígnias das nossas obediências. No Abril antigo, o bandolim pareceu tocar a nossa música. Pregámos um susto às bem-pensâncias, andámos a lavar as ruas, a oferecer à pátria um dia de salário e a gritar um estribilho que fora funesto no Chile: “O povo unido jamais será vencido!” Pois sim!

Fui um daqueles que deitou foguetes. E ainda me resta uma pequena fagulha, apesar de o desemprego correr a galope, de os nossos velhos morrerem nos jardins, e de termos atingido, agora, a abjecção com o que fazemos aos nossos miúdos: abandonamo-los, enchemo-los de miséria, de fome e de morte por extinção moral.

Anteontem, os jornais alargaram-se em notícias sobre estes sacrilégios. Porque há pais que abandonam os filhos? Que desespero incontido pode levar alguém a deixar uma criança à bússola do acaso? E que bizarro mecanismo mental encaminha progenitores a não dar de comer aos seus miúdos, mas a adquirir-lhes roupas de marca? Pensemos duas vezes.

A família tem cada vez mais dificuldade em se representar. Mas foi a família que se não opôs às imposições de uma sociedade, cuja inconsistência transformou o secundário em primordial. O desprezo pelos miúdos conduz a conflitos profundos com as suas personalidades. Porém, o Estado abandonou os pais, e os pais deixaram de se interessar, no essencial, pelos filhos. O círculo ainda não encerrou. E as notícias a que me refiro advertem da existência de uma compressão da época e de um mal da alma, resumidos nesta frase medonha: “Não tenho tempo a perder.”

Não temos tempo a perder com quem? Com os nossos filhos? Com os outros? Connosco próprios? Estamos a encurtar tudo (a vida, o amor, a amizade, o ócio) com melancólica leviandade. “Às duas por três nascemos/às duas por três morremos/e a vida?/não a vivemos” – ensinou Alexandre O’Neill. Nunca ouvimos os poetas.

Não há unidade nem absoluto possível se não conseguirmos travar a marcha de um sistema doente, cuja natureza se opõe à partilha, e tem destruído e aniquilado o melhor dos nossos sentimentos e emoções.

Fonte: Diário de Notícias de 15.04.2009

17/04/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Baptista Bastos: A pátria cheia de sono

As obras no hemiciclo da Assembleia da República trouxeram algumas alegrias aos mais cépticos dos cidadãos. Entre campainhas em surdina, computadores e assentos mais confortáveis, a grande novidade consiste na aplicação de uma luz vigilante. Vigilante de quê e de quem?, perguntará, ousadamente curioso, o pio leitor. Da tranquila sonolência que costuma embalar os destemidos deputados, e devolver-lhes sonhos do passado e bem-aventuranças do presente.

A luz é uma luz civilizada, embora crua e inclemente. Como as televisões e as imagens da imprensa no-lo informam, os encantadores parlamentares, digerem, dificultosamente, os almoços e deixam-se levar nos braços de Morfeu. É o momento da calma. Ninguém ouve ninguém, e ninguém está interessado em ouvir tristes realidades e objurgatórias incutidas e já conhecidas no breviário do Parlamento. A luz, a nova luz, acaso quiséssemos utilizar uma metáfora deselegante e fácil, constrange os representantes da nação a não pregarem olho. Nem um módico bocejo. Podem não prestar a mais escassa atenção ao que dizem os outros; mas salvam as aparências: estão de pálpebra aberta. Se cederem à soneira e o olho se lhes cerrar, logo a luz, ofensiva e retumbante, ataca os prevaricadores.

Enquanto estas nobres decisões vão fazer caminho, e a sesta dos deputados está em perigo iminente, vem o Público e assevera: “Portugueses são os que dormem pior por causa da crise.” Infere-se, pois, da severa notícia, que a crise não afecta, minimamente, os parlamentares, e, salvo o devido respeito, a soneca (agora ameaçada) era a doce compensação da crudelíssima chatice de terem de ali estar – investidos da espantosa glória de representar um povo cheio de sono. Cheio de sono e sem dinheiro para comprar sedativos.

“gestores” fazem bicha nos consultórios dos psiquiatras e dos psicólogos clínicos, para ser atendidos com a urgência que as suas angústias requerem e justificam. Um país a cair de sono e os seus dirigentes empresariais apossados de sombrios cismas. A súbita fragilidade mental dos “gestores” advém do facto de poderem ver os seus vencimentos drasticamente reduzidos? Não creio que se tivessem abandonado a tão embaraçosa emoção. Um “gestor” talvez veja, momentaneamente, a sua factura limitada. Mas tem sempre um emprego à sua espera. Enche os psiquiatras porque vive a imitação de uma importância que na reali-dade não tem. Vive por “objectivos”; pagam-lhe para os atingir: em troca cede à desumanização e a um cinismo que desconhece o facto moral. Como se tem visto.

Fonte: Diário de Notícias de 25.03.2009

25/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Baptista-Bastos – Escritor e jornalista – b.bastos@netcabo.pt: O DISCURSO DO NADA

A vitória de Sócrates é a metáfora do eucalipto: ele seca tudo à sua volta e conduz o partido como muito bem entende. A percentagem de 96,43 por cento dos votos não reflecte, em boa verdade, a imagem que o PS deseja expor. O PS dispõe de cerca de 73 mil militantes, mas apenas 29 mil votaram, por terem as quotas em dia. Há um manifesto desinteresse dos socialistas pelo destino do partido em que militam. Pode-se atribuir essa falta de comparência cívica a mil razões. As mais das vezes razões falaciosas. E as declarações jubilosas de altos dirigentes, em lufa-lufa de subserviência ao chefe, além de fastidiosas, ocultam o nó do problema. O PS é a imagem devolvida do País: desencanto, aborrecimento, ausência de convicções, desmotivação. São os próprios princípios que estão em causa. A absurda justaposição do slogan “socialismo moderno” com a lógica fatal do neoliberalismo mais assanhado conduziu a uma esterilidade ideológica e ética que estas eleições vieram sancionar. O volumoso resultado obtido por Sócrates não tem importância nenhuma. A ameaça dos acontecimentos, a carência de respostas sérias, o desprezo para com a história do partido, a falta de fidelidade descaracterizaram o PS. E José Sócrates não vive em autismo, não se move num universo virtual: simplesmente não sabe como resolver os inúmeros problemas da sociedade portuguesa. Os temas exclusivos que, no congresso, suscitaram o seu interesse, são indicadores do seu oportunismo ou da sua incompetência. Esqueceu o desemprego, o desajuste entre a realidade pungente, na qual estamos mergulhados, e a mudança das instituições; a falência dos bancos, a corrupção e a própria questão da liberdade. Sócrates tinha opções: não as tomou ou não as quis tomar. A sociedade pedia-lhe (e até lhe exigia) respostas. O método de pensamento que utilizou é-lhe habitual. Passa ao lado do que se lhe pedia, exigia ou perguntava. Sob a capa de falar de problemas “fracturantes”, nunca assumiu, com a coragem requerida, enfrentar os dilemas que o excedem, mas que são inseparáveis dos princípios elementares do nosso viver colectivo. Desconhecemos o que José Sócrates pensa da exaustão portuguesa, sovada pela agressividade das leis que promoveu e fez promulgar. Não sabemos dos seus projectos para Portugal, sobre o qual nos é inculcada a ideia de que materialmente não tem futuro.

Parece que o secretário-geral do PS e primeiro-ministro somente obedece a forças cegas e brutais, impostas e garantidas pelos grandes interesses, que sobrepuseram o económico ao político. Apesar de tudo, presumi, um pouco ingenuamente, que José Sócrates iria inflectir o discurso para outros perímetros. Enganei-me. O homem não tem cura.

Fonte: Diário de Notícias de 18.02.2009

18/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Baptista-Bastos Escritor e jornalista – b.bastos@netcabo.pt: HOMENS SEM REINO

A governação está em banho-maria e José Sócrates anda pelo País a promover a moção que vai apresentar ao congresso do seu partido. No intervalo inaugura isto e aquilo, sempre coisas sem importância, e avisa que, futuramente, vêm aí toneladas de realizações destinadas à felicidade dos portugueses. Claro que quase ninguém acredita na suave bondade das promessas. Aliás, já quase ninguém acredita em nada. Mas aprendeu que a cupidez tem dado cobertura à mais ignara mediocridade. O panorama parece mavioso. O caso Freeport e as peripécias que envolvem o assunto Casa Pia transformaram as angústias quotidianas em factos desprezíveis. A verdade é que o Governo paralisou e os portugueses são homens sem reino. Despedidos aos milhares, tratados como subalternos, humilhados na mais rudimentar dignidade – sem que os seus gritos de desespero, as suas lágrimas excruciantes consigam congregar um feixe de energias.

Vemo-los e escutamo-los nas televisões, os retábulos modernos que condenam os homens e as mulheres a admitir o mundo tal como ele lhes é apresentado, e aprendemos que o medo impede tomadas de consciência e sufoca as manifestações da razão. Nada tem sido feito para inverter a tendência de uma crise nascida de um sistema em declínio. O Governo obedece, cegamente, às regras que tentam inserir-se no real, a fim de salvar o que sobra dos escombros. Cede à facilidade, e legitima decisões as mais asquerosas e danosas para a generalidade dos portugueses, apoiado numa maioria que, demonstradamente, não merece. Para que o embaraço continue, o ministro Santos Silva desencadeia novo alvoroço no partido, já de si tão ausente de convicções quanto repleto de oportunistas. Lembremo-nos de que o PS não pertence, apenas, ao “arco do poder”: é uma agência de empregos, tal como o PSD. O conflito com Manuel Alegre resulta de um acto de má educação, infelizmente comum ao ministro dos Assuntos Parlamentares. Porém, a peça mais relevante deste berbicacho é um artigo do eng. Henrique Neto, publicado no Jornal de Leiria. O conhecido empresário socialista reafirma, claramente, que vivemos na indiferença porque o medo está presente e a presença do medo dá azo à resignação. Mas se o PS não serve, o PSD serve ainda menos. É o nosso drama, porque nos inculcaram a ideia de que não há alternativa. Claro que há. Mas será que isso nos tem sido explicado? A comunicação social, no seu todo, tem cumprido, de facto, as funções para as quais está destinada? Penso o contrário. Todavia, as derivas, os compromissos e as malfeitorias daqueles dois partidos não justificam a nossa atonia cívica, a nossa falta de comparência política e moral, a abjecção da nossa passividade.

Fonte: Diário de Notícias de 11.02.2009

11/02/2009 Posted by | Uncategorized | , , , | Deixe um comentário

Baptista-Bastos: O PROCESSO DO PARLAMENTO

Parece que 30 deputados do PSD aproveitaram o prolongadíssimo fim-de-semana e descartaram-se do imenso enfado de estar no Parlamento. Como não se duvida do altaneiro patriotismo dos faltosos, talvez se acredite que foram para o remanso do lar desbravar dossiês e estudar as causas da decadência da democracia portuguesa. Porém, a ausência destes abnegados profissionais da política (junte-se mais 13 do PS, três do CDS, um do PCP e outro dos Verdes) permitiu que não fosse suspensa a avaliação dos professores, causa suprema da oposição. Manuela Ferreira Leite, irritadíssima, chamou o líder parlamentar: exigia explicações ante tão infausto acontecimento. No Porto, Marco António Costa exigiu a demissão de Paulo Rangel, por “desmotivador”. Grave e severo, Marcelo Rebelo de Sousa pediu as cabeças dos prevaricadores, alguns deles gente de considerável ambição e altos desígnios. “Os nomes! Que sejam publicados os nomes!”, intimou.

Independentemente da pouca-vergonha que o episódio comporta, ele adiciona-se a outros, associados à guerrilha interna do PSD. Este partido acentua a sua cada vez mais nítida semelhança com um conglomerado de verdetes, de vinganças pessoais, de ódios mal resolvidos. Ninguém dá sinais de se abstrair dos argumentos emocionais e, servindo-se da vontade e da inteligência, comprometer-se com a solução dos nossos múltiplos problemas. O descrédito do Parlamento resulta do laxismo que se instalou na sociedade, permitindo e até estimulando a complacente indiferença cívica. Já poucos acreditam na bondade dos políticos; e os deputados são objecto de desprezo ou de anedotas devastadoras. Todos conservamos na memória as imagens televisivas de parlamentares a dormir, a ler jornais, revistas e livros; o número surpreendente de cadeiras vazias. Sabemos da “disciplina partidária”; da abdicação da consciência em nome da subordinação às estratégias de momento; da vassalagem; das pequenas trocas de favores. Conhecemos aqueles que nunca falaram, que jamais intervieram, recatados por imposição ou por conveniência própria. E também conhecemos aqueles que falam sem nada dizer. Sinto, cada dia que passa, a necessidade de não conciliar, com um mutismo falsamente distraído, o erro e a conivência, a abjecção e a irresponsabilidade. Marcelo Rebelo de Sousa disse, no domingo, que a democracia estava a ser desgastada porque muitos dos que a deviam servir não lhe atribuíam o grau superior exigido pela sua própria natureza. Não sendo novo, o incidente do prolongado fim-de-semana dos 48 deputados dá que pensar. Pensar que a dignidade das funções, quaisquer que elas sejam, depende do carácter e da integridade de quem as exerce. Em torno deste princípio devemo-nos unir ou separar.

Fonte: DN

10/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Baptista-Bastos: VÃO BATER A OUTRA PORTA!

Na semana que passou fui copiosamente nomeado. Não por ter editado um novo livro. Não por ter escrito um rude artigo contra alguém, ou um elogio a quem o mereceu. Apenas porque, há 11 anos, sou inquilino da Câmara Municipal de Lisboa. As “notícias” vindas a lume traem o étimo da palavra: nenhuma novidade comportam. Por três ou quatro vezes, em crónicas amenas, confessei-me arrendatário municipal, como outras dezenas, senão centenas, de pessoas. E há os ateliês dos Coruchéus; os de Belém. Cedidos, como em toda a Europa, a artistas, que não vivem propriamente na penúria. Sem esquecer o Bairro dos Jornalistas, em Alfragide, construído com grandes apoios municipais. Durante umas outras eleições municipais, um sisudo e monótono semanário quis saber do assunto. Embora preserve, com feroz esmero, a minha vida privada, esclareci a senhora que perguntava. Repetiu-se, agora, a dose. Habituei-me à manipulação (porque de manipulação se trata), tocado da leve rabugice que a reincidência me provoca e a idade justifica. O que se publicou está eivado de inexactidões, de omissões e de insídia. Este jornalismo húmido e pegajoso mais parece um livro de encargos sujos do que a função de origem. Um só facto: o meu senhorio é, realmente, o Município. De resto, nada de ilegal, nada de imoral. E muito menos a retribuição de “pequenos favores”. Há homens que arrastam consigo a polémica ou a ignomínia. Pertenço ao primeiro grupo. E de ignomínias possuo uma lista cada vez mais acrescida. Como o registo das coisas acompanha sempre o sentido das intenções – sei muito bem de onde e de quem partem estas periódicas atoardas. Ser livre é muito difícil.

O apartamento foi-me atribuído após inspecção dos técnicos à minha casa, em Alfama, onde vivi 32 anos. Chovia no interior, paredes rachadas, perigos vários. Procederam, outros técnicos, ao varejo cuidadoso dos meus réditos de então. Escassos: eu estava desempregado. Abandonara o jornalismo, ou o jornalismo abandonara-me em 1990. O contrato assinalava que a renda aumentaria consoante os ritmos da inflação. Devo dizer que faço estas confidências com pudor e escrúpulo. Porém, torna-se imperioso que não deixe aos acasos das contingências as evidências da razão. Conheço os perigos que a minha actividade comporta. Tenho sido, certamente, injusto, áspero e, até, insensato. Mas escrever ou ter comportamentos moralmente reprováveis – conscientemente, creio que nunca. No extremo cume da extrema percepção, é-me difícil exprimir, por outro meio que não este, a indignação causada pela abjecta orientação ad hominem da atoarda. Faço uma representação do mundo que, naturalmente, me é muito própria. E não abdico de convicções. Há quem altere o prisma, para adoptar novos modos de vida. Como não pertenço a esse agrupamento, recomendo: Vão bater a outra porta! É tudo.

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01/10/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | , | 3 comentários

Baptista-Bastos: A ALEGRIA DOS CEMITÉRIOS

escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt

Falhei! Falhámos!” Dramático, numa infelicidade de intempérie, Ângelo Correia crucificou-se no Congresso do PSD. Mas logo acusou a intriga permanente, o mal-dizer constante, a sombra pesada do rancor como factores determinantes para a enfermidade da alma do partido. Foi um momento trémulo, lacrimoso, pungente. As câmaras das televisões percorreram as faces dos ilustres, e os ilustres apresentavam as faces com o decoro espiritual recomendado pela grave circunstância.

Pedro Passos Coelho quis saber qual o projecto, qual o programa, qual a doutrina, qual a estratégia que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite possuía para resgatar a pátria dos malefícios do “socialismo moderno” de José Sócrates. A pátria ficou muito reconhecida, e até lhe saltou uma furtiva lágrima, com as estremecidas preocupações do desenvolto Passos. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, impassível, fechada, fatigada, gótica, na escura profundidade das suas cogitações parecia nem sequer ouvir.

Levemente rouco, místico, lívido, surgiu na noite o fatal Santana. Os jornalistas, muito animosos, agitaram-se com intenso regozijo. “Agora é que é!” O Congresso decorrera morno, lento, pesaroso. E o velho animador da congregação nunca se deixara substituir, nem entregara os créditos em mãos alheias. Falou em ética política, como se ele próprio constituísse uma garantia da verdade, uma força da consciência e, de certo modo, um instrumento da justiça. A plateia, ante a sumária execução, sorriu e aplaudiu.

O rosto da dr.ª Manuela Ferreira Leite, esse, permanecia o que tem sido: um enigma íntimo. Aliás, a substância do seu discurso (que Pacheco Pereira aplaudiu, frenético, com transporte e unção) foi o gélido resultado de uma assustadora ausência de ideias. Qualquer módica alegria de grupo fica ensombrada pelo mal-estar provocado por esta inexistência de empatia. A senhora nada disse de novo, nada acrescentou ao que já se sabia. Como nos comunicou António José Teixeira, naquele registo fúnebre que se lhe reconhece, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite é irmã gémea do Dr. Cavaco. Quer dizer: cria uma atmosfera de frigorífico.

Ao imbricar para a “esquerda”, na vaga afirmação do “social”, a chefe do PSD lança a linha nas águas que pertenceriam aos socialistas. Estes, inclinando-se para a “direita” tinham pescado no lago dos “sociais-democratas.” Não há redenção possível para as duas agremiações. O seu discurso cuneiforme desenvolve um absurdo clima de bocejo, falso e letal. As diferenças entre o PSD e o PS são nulas. E, além de não empolgarem ninguém, nenhum dispõe de querer político nem de vontade moral.

Veja-se aquela gente do conclave de Guimarães. É a imagem devolvida da falta de paixão, da carência de vontade, da vacuidade de convicções, da ignorância rotativa. A alegria dos cemitérios.

25/06/2008 Posted by | Uncategorized | , , | Deixe um comentário