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O que vou lendo por ai…

Mais um artigo espectacular do Mário Crespo: Danos colaterais

“Quem é que sabe o que é uma OCD?”. Havia cerca de quatrocentos jornalistas de televisão na sala de conferências e à pergunta de Steve Sedgwick da CNBC ninguém respondeu. Eu estava lá. A questão tinha sido posta em Inglês. ‘What’s a CDO?’.

Depois de esgotado o minuto de embaraço Sedgwick, um especialista em jornalismo económico e financeiro, voltou à carga: ‘Presumo que também não saibam o que é uma OCD ao quadrado…ou ao cubo? ‘. Não se sentiu o arrastar de pés do desconforto nem o silêncio que permitiria ouvir o tal alfinete a cair no chão porque o auditório do Hilton de Valência é alcatifado. Foi o próprio Sedgwick, um tipo irritantemente novo, irritantemente bem parecido e bem vestido, irritantemente sabedor e extraordinariamente sagaz a fazer entrevistas (o que irrita também) que nos deu a redenção: ‘Não se preocupem muito. O Presidente de um dos maiores bancos multinacionais foi questionado sobre isto na Câmara dos Comuns e também não sabia’. Tinha sido no início da crise numa audição no parlamento britânico quando os bancos da City começaram a falir. Numa áspera troca de argumentos o parlamentar inquiridor tinha confrontado o banqueiro com o facto de desconhecer um produto que o seu banco andava há anos a vender por todo o Mundo. Os jornalistas que participaram no seminário de Valência, além da lição de humildade de que a crise financeira tem que ser jornalisticamente mais bem tratada, receberam como bónus a informação do que é uma CDO ou uma OCD em português. É um dos tais produtos financeiros tóxicos que nos fazem perder empregos, ter fome e que durante uns anos enriqueceram obscenamente uma série de Donas Brancas por esse mundo fora. Tecnicamente definida como Obrigação de Dívida Colateralizada, na realidade traduz-se na manipulação dos ingénuos que acreditam em galinhas dos ovos de ouro ou, já que estamos em avicultura, confiam que o tal ovo que se supõe esteja no oviducto do galináceo mas ainda ninguém viu, acabe por sair na forma de uma omeleta de espargos. Depois o ovo não sai e aumentam-nos os impostos e tiram-nos os empregos e retardam-nos a pensão de reforma e fecham maternidades e escolas e esquadras de polícia. Estamos a viver em Portugal uma destas monstruosidades. Preocupado com a crise financeira internacional o governo de Sócrates disponibilizou uma quantidade astronómica de dinheiro para “salvar o sistema”. Todos assumimos que se tratava de apoiar algo que servisse o bem público. O primeiro acto detectado deste plano foi salvar, o Banco Privado que tem tanto a ver com o público como a Ferrari, a Bentley e a Louis Vuitton têm a ver com a Carris. Fiquei finalmente a compreender a lição do jornalista de economia em Valência. O Estado Português deu dinheiro à banca privada mas não se quis meter no Banco Privado. Seis bancos privados, por razões que a razão ainda desconhece “colateralizados” pelo Estado Português, dão ao Banco Privado o “colateral” para manter os interesses privados que representa salvaguardados. É de facto a tal dívida sobre dívida colateralizada ao quadrado de que falava Sedwick na conferência de Valência e nós não sabíamos o que era. Pelo menos uma coisa já sabemos agora. É que vamos pagar por ela.

Fonte: Jornal de Notícias

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29/12/2008 Posted by | Uncategorized | , | 1 Comentário

Correio da Manhã: BPP pagou um milhão a gestores

Os quatro administradores do Banco Privado Português (BPP), instituição bancária especializada na gestão de fortunas que atravessa uma grave crise financeira, receberam, em 2007, mais de um milhão de euros em remunerações e acções do banco atribuídas pelo próprio BPP.

Os custos com os salários anuais de João Rendeiro, presidente do BPP, Paulo Guichard, Salvador Fezas Vital e Fernando Lima, administradores executivos, ascenderam, segundo o relatório e contas de 2007, a 927 015 euros. Em média, cada um dos quatro membros do conselho de administração ganhou 231 753 euros por mês.

A esta despesa anual com salários, acresceu, ainda, um valor total de 76 008 euros em acções do BPP atribuídas pelo banco aos quatro gestores. Ao todo, entre remunerações e acções do banco, os quatro gestores do BPP receberam, no ano passado, 1 003 023 euros, um aumento de cerca de 25,5 por cento face à verba total de 799 354 euros auferida em 2006.

Este aumento dos encargos com pessoal diz respeito apenas a salários, uma vez que o valor das acções atribuídas é igual ao ocorrido em 2006. Com um resultado líquido de 24,4 milhões de euros em 2007, o BPP registou, no ano passado, um acréscimo de 34 por cento face ao lucro de quase 18,2 milhões de euros obtido em 2006. E, mesmo assim, ‘em 2007 e 2006, não foram pagos prémios aos membros do conselho de administração do Banco’, segundo precisa o relatório e contas do ano passado.

Em contrapartida, em 31 de Dezembro de 2007, segundo o relatório e contas, ‘os órgãos de gestão tinham operações de crédito contratadas junto do Banco no montante de 205 963 euros’, valor inferior aos empréstimos totais de 235 179 euros registados em igual data do ano anterior.

O documento garante, ainda, que ‘o Banco não tem qualquer responsabilidade adicional ou benefício de longo prazo concedido ao conselho de administração, para além dos acima referidos’.

Mesmo com o BPP em situação financeira difícil, João Rendeiro afirmou que está ‘num momento de tranquilidade’ e mostrou-se convicto de que serão encontradas soluções alternativas ao aval do Estado para evitar a falência do BPP.

SAIBA MAIS

ACCIONISTAS

Pinto Balsemão e Stefano Saviotti são accionistas do BPP.

579,6 milhões de euros era o valor dos depósitos no BPP, em 2007. Nas últimas duas semanas, foram levantados 500 milhões de euros.

17,4 milhões de euros foi o valor em dividendos distribuídos pelos accionistas em 2005 e 2006.

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01/12/2008 Posted by | Política: notícias | , | Deixe um comentário

DN: Bancos nacionais têm 350 milhões reféns do BPP

Crise. Os accionistas do Banco Privado Português estão disponíveis para contribuir com a sua parte para o plano de salvação da instituição, que está a ser preparado pelo Banco de Portugal, juntamente com outros seis bancos, cujo interesse é proteger os seus créditos deixando o risco para o Estado

João Rendeiro demite-se da liderança do banco

O encontro de ontem à noite entre os principais accionistas do Banco Privado Português (BPP) terminou com a renúncia de João Rendeiro à presidência da instituição e com a disponibilidade dos accionistas – nomeadamente Rendeiro, que permanece como tal – para acompanhar um provável aumento de capital, fundamental no plano de salvação da instituição. Isto porque mantêm-se as dúvidas sobre a qualidade das garantias a dar ao Estado para que este assuma o risco das injecções de liquidez no BPP que os seis bancos envolvidos na operação irão disponibilizar.

O montante desta injecções deverá ser ligeiramente superior a 500 milhões de euros. Este dinheiro servirá para o BPP cobrir insuficiências de liquidez, quer nas linhas de crédito que estão a vencer, quer para pagar aos clientes que estão à espera de uma solução para resgatar os seus investimentos (bloqueados desde o início desta semana). A reviravolta da posição dos principais bancos portugueses – que há uma semana mostraram-se indisponíveis para “ajudar” o BPP – tem a ver com duas questões.

Por um lado, dada a inexistência de risco para o sistema (assumida pelo próprio Governo), a única ameaça tem a ver com os créditos que o BPP tem junto dos principais bancos portugueses. Segundo apurou o DN, do total de 707 milhões de créditos, cerca de metade foi contraída no mercado português. Por outro lado, os bancos admitiram fazer parte da solução para o BPP – também pelas ligações comerciais que têm com alguns dos seus clientes – se o Estado assumisse o risco da operação.

Soube o DN que a estrutura das injecções está definida de acordo com a dimensão dos bancos: o BCP e a CGD deverão avançar com 100 milhões cada, BES, Santander e BPI com 80 milhões e o restante será da responsabilidade da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo.

Imbróglio jurídico

Neste momento, o plano está definido, mas falta dar-lhe um enquadramento legal. É que a lei das garantias do Estado só prevê 45 milhões de euros para o BPP, já que está indexado à quota de mercado de crédito. Embora seja ao abrigo dessa lei que os outros bancos vão financiar-se para contribuir para a solução do BPP, o Banco de Portugal terá de encontrar outra solução jurídica, já que o regime geral das instituições de crédito e sociedades financeiras não prevê que o Estado assuma os riscos de injecções de capital feitas por entidades privadas. Ou seja, no caso de o BPP falhar o pagamento dos 500 milhões injectados, será o Estado a assumir o risco de contraparte. O enquadramento jurídico desta operação pode mesmo, segundo apurou o DN, obrigar o Governo a legislar, provavelmente através de portaria.

Os activos a dar como garantia são outro problema. É que, tendo em conta que o banco perdeu 500 milhões de euros em depósitos nas últimas semanas (os restantes 200 milhões estão bloqueados) sobra, como activos, o capital (daí a necessidade de o aumentar) e os veículos de investimento com participações no BCP, Brisa, Cimpor e Mota-Engil. Só que estes veículos perderam muito valor nos últimos meses, colocando uma dificuldade adicional ao Estado. Refira-se que, com a saída de Rendeiro, entrarão novos gestores na instituição. A Lusa avançava ontem que um deles pode ser Manuel Alves Monteiro, membro do conselho consultivo.

Berardo pede “bom senso”

Uma das questões que tem levantado algumas dúvidas prende-se com a eventualidade de o Estado assumir riscos para “salvar” más decisões de investimento dos gestores do BPP. Segundo apurou o DN, o banco conquistou clientes este ano com produtos de juros mais altos que a concorrência, a qual já procurava protecção da crise financeira em curso.

O investidor Joe Berardo pediu “bom senso” e frisou ao DN que “os accionistas e gestores do BPP deviam ter tido cuidado com o que estavam a fazer. Não amealharam no Verão para sobreviver ao Inverno”. Por isso, “o dinheiro dos contribuintes não deve ser usado para salvar grandes investidores. Se não também tem de salvar os pequenos”.

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30/11/2008 Posted by | Política: notícias | , , | Deixe um comentário