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João Miguel Tavares: José Sócrates e os cogumelos de Benlhevai

Caro leitor: sempre que lhe vierem dizer que a comunicação social portuguesa é muito agressiva e pouco escrupulosa, lembre-se dos cogumelos de Benlhevai. A tarde de sexta-feira ia a meio quando a TVI24 decidiu fazer um directo da fábrica de cogumelos Sousacamp, em Benlhevai, onde o primeiro-ministro fazia uma distintíssima visita. Eu não tenho nada contra cogumelos, e muito menos contra Benlhevai. Mas o que se passou nessa tarde é um pequeno exemplo de como o grande problema da comunicação social nunca foi o excesso de irreverência ou a falta de escrúpulos, mas sim o respeitinho pelo poder e a devoção às instituições, pondo-se a jeito de tudo o que é propaganda governamental.

Em Benlhevai estava o primeiro-ministro. O ministro da Agricultura. Televisões. A Lusa. E cogumelos. A TVI24 levou um carro de exteriores para um directo que consistiu em acompanhar três anúncios, qual deles o mais ridículo: dois contratos de investimento que vão criar a loucura de 165 postos de trabalho (em tempo de vacas magras, se for preciso Sócrates até convoca as câmaras para anunciar a contratação da sua nova empregada doméstica); o aumento para 28 dos “túneis de produção de substrato”, que parece ser uma coisa que faz os cogumelos muito felizes; e como bónus a notícia de que o Governo vai aumentar as ajudas para a “agricultura de montanha”, coisa que deve preocupar para aí o João Garcia, e só quando não está a trepar os Himalaias.

O interesse noticioso desta viagem de estudo pelos cogumelos de Benlhevai é obviamente nulo. Mas se está lá o primeiro-ministro a comunicação social tem de ir. Porque vai sempre. E depois tem de passar umas imagens nos telejornais. Porque passa sempre. É uma espécie de contrato não escrito entre o primeiro e o quarto poderes, que Sócrates aproveitou como nenhum outro. E por isso devemos ser o país do Ocidente onde os ministros mais desfilam pela televisão, com cada espirro legislativo e cada tabuleta descerrada a merecer ampla cobertura mediática.

Para sermos justos, o Governo não é o único beneficiário de toda esta disponibilidade. Ainda recentemente, após a entrevista de José Sócrates à RTP, as TV foram a correr pôr os microfones na boca dos partidos com assento parlamentar (incluindo Os Verdes, para as clássicas “reacções”. Mas porquê, meu Deus? Num país onde os media andam a ser tão acusados de serem terríveis para o nosso querido engenheiro, alguém devia explicar porquê então esse tempo de antena permanente, esta disponibilidade perpétua para escutar o que partidos e Governo têm para dizer, mesmo que quase sempre seja uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Todos os dias nos enfiam cogumelos pela goela abaixo – e ainda protestam.

Fonte: Jornal de Notícias de 12.05.2009

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12/05/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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