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Pedro Ivo Carvalho: As cores do dinheiro

A estatística, tantas vezes alcandorada a rainha do debate político, desta vez parece ter ficado esquecida numa gaveta enferrujada. A estatística com que nos enxameiam os ouvidos numa base diária (o défice isto, o desemprego aquilo, o PIB aqueloutro) não compareceu à discussão em torno do financiamento dos partidos políticos. Estamos mergulhados numa crise económica sem precedentes? Estamos apostados em combater essa maleita nacional que dá pelo nome de corrupção? Estamos?

Resposta dos cinco partidos com assento parlamentar: então vamos aprovar uma nova lei que não só não diminui o apoio financeiro do Estado aos partidos, como incentiva o aumento, em cerca de 60 vezes, do dinheiro vivo (o tal que não fala, que não viaja por cheque ou por conta bancária) com que os privados podem alimentar as campanhas. Da Esquerda à Direita, a mesma ideologia contabilística.

Não sei o que será mais trágico: se a concordância quase inaudita entre forças parlamentares (dá vontade de perguntar: alguém se lembra de tamanho pensamento único em matérias de Estado?); se a falta de pudor da esmagadora maioria dos deputados da nação (dos 198, só António José Seguro, do PS, votou contra; só Matilde Sousa Franco, independente pelo PS, se absteve); se a óbvia constatação de que, em matéria de combate à corrupção, se propõe uma coisa e se faz precisamente o seu contrário.

Sim, porque estamos certamente todos lembrados de como os partidos puxaram dos galões na batalha pelo título d’ “o mais transparente”. Circunstância, todavia, que nem os fez pestanejar na hora de aprovar esta lei opaca.

Paulo Portas teve, até, o descaramento de vir acusar os restantes partidos de esbanjar dinheiro na campanha para as europeias depois do “seu” PP também ter ajudado a aprovar, sem qualquer reserva, a nova lei do financiamento.

A questão é esta: como é que pode promover-se a transparência na vida política se ao mesmo tempo se criam mecanismos que dificultam a fiscalização do financiamento dessa mesma vida política? Será crime lesa-pátria pensar que a democracia deve ter um preço? Ou estaremos condenados a acreditar que o sistema só funciona se não perdermos tempo com essas questiúnculas? Que os custos eleitorais não podem ser vistos como despesas, mas sim como investimentos no futuro colectivo. Que tudo não passa, no fundo, de simples e costumeira estatística.

E, já agora, se os partidos acham tudo isto normal, por que não começam a partilhar com o país os nomes dos que os financiam?

Fonte: Jornal de Notícias de 08.05.2009

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08/05/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário