Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Paulo Ferreira: A maldição da estatística

A estatística é, como se sabe, muito, muito traiçoeira. Exemplo típico: se eu comer duas laranjas e o leitor nenhuma, a estatística dirá que comemos cada um a sua laranja.

Perigosa, portanto, esta coisa da estatística. Os governos costumam torcê-la e retorcê-la, de modo a que, no final, os números espelhem uma realidade que a nós, incautos cidadãos e desconhecedores das virtudes da estatística, nos parece ligeiramente distante do quotidiano que nos calhou em sorte. Lição a tirar: sempre que ouvir falar de estatística e mais estatística, desconfie. Mas desconfie mesmo.

Verdade que desconfiar é feio. Mas que alternativa nos resta quando, espantados , lemos isto: há várias esquadras do país que estão a impor “números-base” de detenções a fazer até ao final do ano (ver edição de ontem do JN)? Apenas um exemplo: na 2ª Esquadra de Investigação Criminal da PSP do Porto, os agentes estão obrigados a deitar a mão a 250 indivíduos até ao final do ano.

Custe o que custar, doa a quem doer, a Brigada do Património (investiga roubos e furtos) e a Brigada da Droga têm que fazer, cada uma, quatro detenções mensais, entre o passado mês de Março e o final do ano. Já as brigadas de prevenção criminal (direccionadas para situações de flagrante delito) têm que fazer 14 detenções por mês.

Tradução: para a PSP, é igual apanhar um pilha-galinhas ou o cabecilha de um bando que trafique droga, ou que dedique as horas livres a espalhar o terror por esse país fora, assaltando bancos, postos de combustíveis e apetitosas coisas afins. Como se sabe, essa rapaziada costuma usar armas (e matar, se necessário for) para garantir os resultados das investidas, mas, mesmo assim, para as estatísticas da PSP continua a valer o mesmo do que o supracitado pilha-galinhas.

Os últimos números mostram que a criminalidade violenta aumentou assustadoramente em Portugal (partimos aqui do – quiçá ingénuo – princípio de que não foram manipulados). Se esta é a forma engenhosa que a PSP (e o Ministério da Administração Interna, que a tutela) encontraram para nos sossegar, falharam redondamente. Por uma simples razão: esta é a prova cabal de como são incapazes, uns e outros, de delinear uma eficaz estratégia de segurança; esta é a prova cabal de como, à falta de ideias, respondem com manipulação da estatística; esta é a prova da incapacidade de uns e de outros em mostrar fibra para assegurar uma das mais nobres e importantes funções do Estado: garantir a segurança dos seus cidadãos.

O caso é, portanto, grave. Esperemos que o ministro da Administração Interna se dê ao trabalho de nos explicar a todos quem é o culpado desta verdadeira aberração.

Fonte: Jornal de Notícias de 28.04.2009

Anúncios

28/04/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

Ainda sem comentários.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: