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Paulo Ferreira: Deflação, o novo monstro

1. Há duas ou três semanas, falando em Braga (no extraordinariamente belo Mosteiro de Tibães), no âmbito dos encontros que o BCP vem organizando em todos os distritos do país para contactar mais de perto os seus quadros e os seus clientes, Daniel Bessa (o economista escolhido pelo banco para se dirigir às hostes) dizia, em traço grosso, que, se tivesse de escolher entre os efeitos de uma inflação alta e os de uma deflação, optaria pela primeira. Porquê? Porque a deflação tem consequências (ainda mais) devastadoras para as economias do que a subida generalizada dos preços (inflação).

O tema é controverso – há especialistas na matéria que pensam exactamente o contrário. É controverso e actual. Pela primeira vez nos últimos 40 anos (repito: 40 anos), a inflação registou em Portugal uma queda, de acordo com os dados ontem libertados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Causa principal: a evolução do preço dos combustíveis (o custo do petróleo caiu para menos de metade no espaço de um ano).

O governador do Banco de Portugal já tinha tido o cuidado de nos avisar: Portugal não escaparia durante alguns meses a uma inflação negativa. Constâncio afastou, contudo, um cenário de deflação (descida continuada e generalizada dos preços).

Porquê tanto temor com a deflação, se ela significa, para o consumidor, o acesso a bens mais baratos? Porque o reverso da medalha é o horror. Os preços baixam para níveis incomportáveis para as empresas. Consequência: desemprego e corte nos salários. Para quem, como é o nosso caso, tem as famílias penduradas pelos empréstimos aos bancos, já se vê os estragos que a famigerada deflação pode fazer.

Dois curtos exemplos para ilustrar o caos. A deflação que abalou o Japão, vista como uma espécie de antecipação do que pode acontecer no Ocidente, atirou aquele país para um período longuíssimo de letargia económica. A deflação que aconteceu nos EUA depois do crash bolsista de 1929 fez com que os preços baixassem 27%, com uma correspondente queda de 40% nos salários e elevados níveis de desemprego. Eis porque o monstro assusta tanto. E eis porque tem Daniel Bessa toda a razão.

Fonte: Jornal de Notícias de 14.04.2009

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14/04/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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