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O que vou lendo por ai…

Baptista Bastos: A pátria cheia de sono

As obras no hemiciclo da Assembleia da República trouxeram algumas alegrias aos mais cépticos dos cidadãos. Entre campainhas em surdina, computadores e assentos mais confortáveis, a grande novidade consiste na aplicação de uma luz vigilante. Vigilante de quê e de quem?, perguntará, ousadamente curioso, o pio leitor. Da tranquila sonolência que costuma embalar os destemidos deputados, e devolver-lhes sonhos do passado e bem-aventuranças do presente.

A luz é uma luz civilizada, embora crua e inclemente. Como as televisões e as imagens da imprensa no-lo informam, os encantadores parlamentares, digerem, dificultosamente, os almoços e deixam-se levar nos braços de Morfeu. É o momento da calma. Ninguém ouve ninguém, e ninguém está interessado em ouvir tristes realidades e objurgatórias incutidas e já conhecidas no breviário do Parlamento. A luz, a nova luz, acaso quiséssemos utilizar uma metáfora deselegante e fácil, constrange os representantes da nação a não pregarem olho. Nem um módico bocejo. Podem não prestar a mais escassa atenção ao que dizem os outros; mas salvam as aparências: estão de pálpebra aberta. Se cederem à soneira e o olho se lhes cerrar, logo a luz, ofensiva e retumbante, ataca os prevaricadores.

Enquanto estas nobres decisões vão fazer caminho, e a sesta dos deputados está em perigo iminente, vem o Público e assevera: “Portugueses são os que dormem pior por causa da crise.” Infere-se, pois, da severa notícia, que a crise não afecta, minimamente, os parlamentares, e, salvo o devido respeito, a soneca (agora ameaçada) era a doce compensação da crudelíssima chatice de terem de ali estar – investidos da espantosa glória de representar um povo cheio de sono. Cheio de sono e sem dinheiro para comprar sedativos.

“gestores” fazem bicha nos consultórios dos psiquiatras e dos psicólogos clínicos, para ser atendidos com a urgência que as suas angústias requerem e justificam. Um país a cair de sono e os seus dirigentes empresariais apossados de sombrios cismas. A súbita fragilidade mental dos “gestores” advém do facto de poderem ver os seus vencimentos drasticamente reduzidos? Não creio que se tivessem abandonado a tão embaraçosa emoção. Um “gestor” talvez veja, momentaneamente, a sua factura limitada. Mas tem sempre um emprego à sua espera. Enche os psiquiatras porque vive a imitação de uma importância que na reali-dade não tem. Vive por “objectivos”; pagam-lhe para os atingir: em troca cede à desumanização e a um cinismo que desconhece o facto moral. Como se tem visto.

Fonte: Diário de Notícias de 25.03.2009

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25/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

NOVAS OPORTUNIDADES: Fátima pagava facturas de obras fictícias

A sessão 19 do julgamento do caso do futebol, em que Fátima Felgueiras é, juntamente com nove arguidos, acusada de sete crimes de participação económica em negócio e de um de abuso de poder, ficou marcada pelo depoimento de Joaquim Freitas.

O antigo vice-presidente do Futebol Clube de Felgueiras disse que abandonou o cargo pelo facto de o então presidente, Júlio Faria, o ter mandado entregar à presidente da Câmara, Fátima Felgueiras, uma factura fictícia da Socopul.

“Era uma factura de uma obra que não tinha sido feita, que a Câmara pagava e cuja verba, após deduzidos os impostos, a empresa passava para o clube”, disse Joaquim Freitas.

Júlio Faria disse que se trata de uma mentira e que vai processar Joaquim Freitas.

Fonte: Correio da Manhã de 25.03.2009

25/03/2009 Posted by | Política: notícias | , | 1 Comentário

Eduardo Dâmaso, director-adjunto do Correio da Manhã: O país real e o outro…

Os discursos que anunciavam para Portugal a conquista da modernidade absoluta e a construção de um homem novo, moldado pelo sucesso individual e colectivo, já lá vão.

Esse tique político de todas as maiorias – do cavaquismo ao socratismo – é derrubado pelas más notícias da crise: desemprego, falências de empresas, sobreendividamento, fome, carências de todo o tipo. Este é o novo caleidoscópio da realidade social portuguesa. A vulnerabilidade portuguesa, por muito que não queiramos, está a vir ao de cima.

Na verdade, ela sempre cá esteve e, agora, é destapada pela crise internacional. Ela está em tudo o que, diariamente, simboliza a enorme fractura que existe entre todos aqueles que nos últimos vinte anos viveram próximos de qualquer forma de poder político ou económico e a imensa maioria – o chamado país real – que vive na periferia das várias formas de representação do Estado. Essa dicotomia é cada vez mais chocante e não se vê que por cá faça caminho o apelo de Obama contra todos os que fixam, em causa própria, salários e prebendas estratosféricas que, de resto, em muitos casos nem correspondem a uma real valia ou produtividade elevada. Se não soubermos ultrapassar este estrangulamento de nada nos valerá que a crise internacional se vá embora lá para 2010 ou 2011.

Fonte: Correio da Manhã de 25.03.2009

25/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Carlos Abreu Amorim, professor universitário: Promitente impenitente

Os tiques de um político podem converter-se em vícios aflitivos – é o caso de José Sócrates e a sua irremediável propensão para se desfazer em promessas nas vésperas de eleições.

Em 2005, jurou não subir os impostos (‘uma receita falhada do passado’), criar mais 150 mil empregos e referendar o Tratado europeu. Nada cumpriu e, imperturbável, enredou-se em justificações manhosas.

Seria de prever que a actual crise o ajudasse a adquirir alguma cautela antes de garantir o que não pode. Mas não. À rédea solta, afiança aumentos nas pensões sociais, bolsas de estudo aos magotes e mais 40 000 estágios profissionais. Tudo piora e quem nos governa limita-se a sacudir a água do capote e, sem réstia de pudor, continua a prometer, a prometer, a prometer…

Fonte: Correio da Manhã de 25.03.2009

25/03/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário