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Paulo Ferreira: Quanto vale uma ‘manif’?

O PCP convocou, pela voz do seu secretário-geral, mais uma manifestação para 23 de Maio, em Lisboa. Objectivo explicado por Jerónimo de Sousa: contestar as políticas do Governo, pois claro. Para isso, os comunistas reclamam a presença de todos quantos queiram mostrar a sua “indignação e descontentamento”. Jerónimo deseja “uma grande manifestaçção política, uma marcha de protesto, ruptura e confiança, uma grande acção de luta por uma vida melhor”.

Ora aqui está um interessante problema: o que é hoje uma “grande acção de luta”? Quantos manifestantes são necessários para impressionar o povo e para fixar a atenção dos media no evento? Os últimos protestos elevaram a fasquia a tal ponto que, hoje, reunir na capital do país 40 mil ou 50 mil pessoas (por comparação com as supostas 200 mil da manifestação da CGTP ou das supostas 120 mil dos professores) arrisca-se a ser visto como um grande fiasco. E um grande fiasco é tudo o que o PCP não precisa, numa altura em que a nossa vida nos dá mais argumentos para protestar do que para aplaudir.

De modo que, por muito sonoras que sejam as reclamações de Jerónimo de Sousa – combate às “injustiças, ao desemprego, à miséria e à corrupção” são palavaras duras-, o risco é grande para o PCP. Conhecidos e reconhecidos pela sua capacidade de trabalho e de mobilização, os comunistas sabem que as próximas eleições legislativas se jogam à Esquerda – e por isso estão disponíveis para, até ao limite se necessário, forçar a mobilização contra as políticas do Executivo de José Sócrates.

Verdade que, por muito bem sucedidas que sejam, as “acções de luta” não contam no sufrágio eleitoral. Mas ajudam a moldar o sentido de voto. Sobretudo quando são acompanhadas, dia após dia, por factos que afastam o optimismo dos que já vêem – e são alguns – sinais de recuperação nas economias.

Eis um sucinto e recente retrato do quotidiano nacional.

O número de desempregados disparou 17,7% em Fevereiro, face ao mesmo mês de 2008, marcando o acréscimo mais elevado desde Dezembro de 2003.

Efeito do desemprego: as contribuições para a Segurança Social estão a crescer, mas metade do previsto.

Os portugueses já não conseguem comprar os antidepressivos que lhes são receitados. As famílias estão sem dinheiro para os medicamentos.

A crise fez disparar o número de pedidos de bolsas universitárias: há centenas de novos candidatos e as universidades estão a aceitar candidaturas fora de prazo, para tentarem ajudar os alunos.

Donde: razões para “acções de rua” não faltam. Terão elas a dimensão que o PCP almeja?

Fonte: Jornal de Notícias de 24.03.2009

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24/03/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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