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João Miguel Tavares: PODE O GRILO FALANTE ALGUM DIA SER PINÓQUIO?

Se Manuel Alegre conseguisse pôr a render o seu dinheiro como tem posto a render os votos das últimas presidenciais, por esta altura seria multimilionário. Aquele famoso milhão de votos de 2006 tem estado a ser pago a juros elevadíssimos pelo PS, e Alegre acredita, do fundo da sua alma, ser não só a verdadeira consciência da esquerda como o homem por quem Portugal intimamente suspira – e é sempre um problema quando alguém carismático está mesmo convencido daquilo que está a dizer. Contudo, o já baptizado “problema Alegre” tem sido colocado apenas num sentido: que males se abaterão sobre o Partido Socialista se o bardo do Mondego virar as costas ao Largo do Rato? Ora, talvez valha a pena pôr também a questão ao contrário: que ganha Manuel Alegre em arregaçar as mangas, sair do PS, e fundar o seu próprio movimento, o seu próprio partido, ou seja lá o que for?

Escrevi isto há um ano: até pode ser que José Sócrates seja o Pinóquio e Manuel Alegre o seu Grilo Falante, mas o Grilo Falante nunca protagonizou nenhum filme da Disney. Como personagem secundária, ele é supimpa, mas terá discurso e arcaboiço para um papel principal? Tenho as minhas dúvidas. E digo-vos porquê. Há dez dias, Manuel Alegre produziu um dos seus poemas de intervenção, intitulado Fado dos Contentores, onde clamava contra o terminal de Alcântara em versos de sete sílabas métricas: “Por isso vamos cantar/ O fado das nossas dores/ E com ele derrubar/ O muro dos contentores.” Questionado sobre o tema, ele afirmou: “Acho mesmo que este fado pode acabar com os contentores no terminal de Alcântara.” Apenas cinco dias depois, o mesmo Manuel Alegre estava a louvar a visita de José Eduardo dos Santos a Portugal. Desta vez, disse: “Afonso Henriques também não era um democrata exemplar.” Ora, não se pode em simultâneo acreditar que versos épicos desmoronam um megaprojecto de engenharia e achar que a realpolitik é a atitude mais acertada para ter em relação a Angola. Ninguém consegue ser, ao mesmo tempo, poeta e político. São actividades incompatíveis.

Este é o dilema de Manuel Alegre, e se ele o tivesse resolvido não andaria há tanto tempo a fazer perigosos equilibrismos em cima do arame. Alegre não está hesitante em bater com a porta por amor ao PS. Ele está hesitante por amor a si próprio. No Parlamento, Alegre é efectivamente um desagradável espinho cravado no pé autoritário de José Sócrates. Abandonando a cadeira de São Bento, isso não só lhe afecta a vaidade como lhe diminui o poder. O PS mostrou claramente que não o quer nas listas. É Alegre quem insiste nas piruetas quando o arame já lá não está.

Fonte: Diário de Notícias de 19.03.2009

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19/03/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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