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O que vou lendo por ai…

Manuel António Pina: Samba de uma nota só

A diversidade e a pluralidade do debate interno nos partidos portugueses não deixa de me surpreender. No PCP, Jerónimo de Sousa foi eleito praticamente por unanimidade, apenas com a abstenção de quatro anónimos heróis sacrílegos; no CDS, Portas por 91,6%; no BE, Louçã por 78,7%; e, agora, no PS, Sócrates por 96,43%. Todos os queridos líderes foram a votos sozinhos (e, na maior parte dos casos, sozinhos e mal acompanhados). No BE ainda chegaram a esboçar-se umas tímidas alternativas, mas o resultado foi idêntico. Tirando o PSD, onde, em lugar do debate, reina o caos, todos os outros partidos são sambas de uma nota só, pelotões acríticos marchando em ordem unida em direcção a uma fatia do poder e do Orçamento de Estado, onde cada vez menos gente, alguma por falta de jeito outra, que sei eu?, por excesso de convicção, troca o passo. Saddam Hussein, Enver Hoxha e Kim Il-Sung têm boas razões para estarem a roer-se de inveja além-túmulo; e e Kim Jong-Il decerto reflectirá melancolicamente sobre a singularidade teórica do unanimismo à portuguesa: em vez de um partido único, quatro partidos únicos.

Fonte: Diário de Notícias de 16.02.2009

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16/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | | 1 Comentário

Mário Crespo: O horror do vazio

Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido.

Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica “a morte do sentido de tudo” dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. O resultado das duas dinâmicas, um “casamento” nunca reprodutivo e o facilitismo da morte-na-hora, é o fim absoluto que começa por negar a possibilidade de existência e acaba recusando a continuação da existência. Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer. Já escrevi nesta coluna que a ampliação do casamento às uniões homossexuais é um conceito que se vai anulando à medida que se discute porque cai nas suas incongruências e paradoxos. O casamento é o mais milenar dos institutos, concebido e defendido em todas as sociedades para ter os dois géneros da espécie em presença (até Francisco Louçã na sua bucólica metáfora congressional falou do “casal” de coelhinhos como a entidade capaz de se reproduzir). E saiu-lhe isso (contrariando a retórica partidária) porque é um facto insofismável que o casamento é o mecanismo continuador das sociedades e só pode ser encarado como tal com a presença dos dois géneros da espécie. Sem isso não faz sentido. Tudo o mais pode ser devidamente contratualizado para dar todos os garantismos necessários e justos a outros tipos de uniões que não podem ser um “casamento” porque não são o “acasalamento” tão apropriadamente descrito por Louçã. E claro que há ainda o gritante oportunismo político destas opções pelo “liberalismo moral” como lhe chamou Medina Carreira no seu Dever da Verdade. São, como ele disse, a escapatória tradicional quando se constata o “fracasso político-económico” do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos.

Fonte: Diário de Notícias de 16.02.2009

16/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | 2 comentários

Armando Esteves Pereira, Director-adjunto do Correio da Manhã: Casos de polícia

O BPN não foi o único banco nacional com gestão extravagante, digna de análise mais profunda de quem gosta de casos de polícia. No entanto, é nesta instituição de génese tão portuguesa, onde as fraudes, o compadrio, o gasto pornográfico de dinheiro em projectos sem sentido, mais se fizeram notar.

Rui Pedras, actual administrador, disse no Parlamento que as burlas de Oliveira e Costa são de maior dimensão do que as de Madoff, se tivermos em conta o peso no PIB. O buraco nas contas do BPN custará pelo menos 1,8 mil milhões de euros. As loucuras e erros que, provavelmente de forma injusta, são todos atribuídos a Oliveira e Costa significam quatro dias de riqueza produzida em Portugal. O banqueiro detido não é o único culpado, mas de facto nunca tão poucos roubaram tanto aos contribuintes.

– As audições parlamentares do BPN têm tido até agora uma vantagem. Demonstram a falta de vergonha e a colaboração interna do banco em enganar as autoridades, mas também deixam em claro a ineficiência da supervisão do Banco de Portugal. As operações delicadas podiam estar escondidas, mas a autoridade não procurou muito.

– O último trimestre de 2008 foi desastroso. O primeiro de 2009 parece pior. Ninguém sabe quando esta tragédia acaba. E será que haverá retoma depois da crise?

Fonte: Correio da Manhã de 15.02.2009

16/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | Deixe um comentário