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Francisco Moita Flores, Professor universitário: Perplexidade

Leio as notícias sobre o BPN com os olhos e o saber de um cidadão médio. Não sei nada sobre a Banca, pouco percebo de acções, obrigações e outros instrumentos correlativos. Tal como qualquer cidadão vulgar, o banco é uma instituição onde é depositado o nosso ordenado e a quem pedimos dinheiro para pagar a casa até sermos velhos. Talvez por isso mesmo me surpreendesse tanto, e não tenho razões para não acreditar em Sócrates, que tenha afirmado ser a nacionalização do BPN um mal menor. A sua falência determinaria um choque terrível no nosso sistema financeiro. É possível.

Agora, face às sucessivas notícias que divulgam negócios fantásticos, milhões e milhões desaparecidos, perdidos, destruídos, à saraivada de críticas que chove de todos os lados da política e de muitos sectores económicos, em guerra declarada com os sistemas de supervisão internos e externos, devo admitir que toda esta gritaria tem, no meu olhar vulgar sobre especiarias bancárias, muitos rabos de palha. Ou seja, não creio que tantos, e tão portentosos, negócios que seguramente levaram anos a fazer, a discutir, a planear, a decidir, a revelar resultados fossem descobertos tão tardiamente e, segundo já ouvi a um especialista, apenas porque a crise financeira internacional se revelou de forma intensa.

Não é possível que, durante tantos anos, uma instituição pudesse usar a boa-fé dos seus depositantes, do sistema nacional de crédito, dos benefícios fiscais do Estado até ao ponto da sua possível falência ser uma ameaça grave à saúde financeira do País. Teve forçosamente de haver muita negligência, muito desleixo, muita cumplicidade, muitos interesses cruzados para que, a ser verdade tudo o que vem a ser publicado, há muito não se tivesse parado este problema, que, como todos os problemas, começam por ser pequeninos antes de serem enormes e alarmantes.

O Banco de Portugal é o bombo da festa por falta de supervisão. Porém, cheira-me que o fogo cerrado sobre Vítor Constâncio, que algumas responsabilidades terá, é uma forma de iludir a questão essencial: durante muitos anos, de certeza, que algum administrador menos parvo, ou menos obediente ao presidente do BPN, algum revisor menos estúpido, algum técnico menos idiota, teve de perceber, e esconder, que aquilo não era um banco, mas um espectáculo de ilusionismo. Só uma rede de silêncios cúmplices, de interesses clandestinos organizados pode explicar que durante tanto tempo tantos tenham sido ludibriados por um só homem. Não é possível. Ou melhor, é impossível.

Fonte: Correio da Manhã de 15.02.2009

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15/02/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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