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Nuno Rogeiro: Os anos dos tiranos

Não nos podemos esquecer da verdade comezinha: nas “democracias”, os chefes dos governos, presidentes da república, ministros e secretários de Estado são servidores do povo. Por outras palavras, Brown, Sarkozy, Zapatero e Sócrates trabalham para nós. Aquilo que possuem à sua disposição, em bens materiais pagos pelo “patrão” soberano, serve apenas para que possam cumprir, com dignidade, as suas funções.

De automóveis a palácios, trata-se tão-só de um empréstimo. Em Belém e São Bento, há locatários e inquilinos, não proprietários. No Eliseu, é a nação que paga a factura, e que autoriza o baile.

Nas “democracias”, não se confunde o aprumo do poder legítimo com qualquer deslize majestático. Os primeiros-ministros não podem assim sentir-se insultados, ou exprimir dores de alma, quando respondem, na sede própria (as assembleias), às inquirições e dúvidas dos que representam também o povo, nessas funções de escrutínio.

Isto não significa que as difamações não se dirimam em tribunal.

Isto não quer dizer, obviamente, que os parlamentares serão sempre astutos, correctos, elevados e eficazes. Na última sessão de debate com o Governo da pátria, parte da Oposição perdeu-se em assuntos laterais e flores de retórica. Mais uma vez, ficou aquém da meticulosa responsabilização do Executivo pela condução da economia, ou do que resta dela.

Mas o princípio geral tem de prevalecer.

Só os imperadores por (presumido) direito divino podem esperar servidores a rodeá-los, em vez de amos.

Sós os tiranos podem desejar uma vida sem fiscais.

Só os monarcas absolutos podem impacientar-se com a alegada trivialidade das perguntas.

Abrindo a porta, chegam-nos boas notícias, no combate a esta soberba do poder.

A antigamente rica Rodésia, que poderia ter emancipado politicamente o povo negro, e ao mesmo tempo dar-lhe justiça social, riqueza e desenvolvimento, caiu, com o tempo, numa tirania desmesurada e irracional. Só agora, por pressão internacional e interna, abre Mugabe a mão às urnas, à mudança, ao verdadeiro domínio popular.

No seu discurso de posse, Morgan Tsvangirai citou Nelson Mandela, pedindo reconciliação e nenhuma vingança. Prometeu trazer de volta os milhões que tiveram de encontrar vida algures. Jurou o desmantelamento do sistema oligárquico e corrupto. Anunciou que, com urgência, vai dar às massas os alimentos de que os seus corpos carecem, para que amanhã possam ocupar-se só do espírito.

Mas Robert Mugabe, o Grande Crocodilo, continua à frente do Estado, presidindo ao Conselho de Segurança nacional e ao Gabinete, repartindo assim funções executivas com o novo governante, que dirige o Conselho de Ministros.

Em várias empresas de África, circula uma carta, assinada pelo Movimento 21 de Fevereiro, do Zimbabué, pedindo contribuições e doações para a festa de anos do presidente. O 85.º aniversário está a ser preparado pelo seu sobrinho Patrick Zhuwawo, e no rol de presentes sugeridos estão milhares de lagostas, garrafas de champanhe e doses de caviar, para além de depósitos em moeda estrangeira, em bancos americanos.

Para evitar mais boatos e escândalo, num país à míngua, se Mugabe, com ou sem pressão de Tsvangirai, cancelasse a festa, e entregasse o cheque correspondente à Cruz Vermelha local, teríamos um bom começo.

Vistas bem as coisas, até Estaline, que viajava num comboio blindado pela URSS, possuía o título oficioso de “Jardineiro da Felicidade Humana”.

E Mugabe não é menos do que Estaline.

Fonte: Jornal de Notícias de 13.02.2009

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14/02/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião |

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