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Dedicado ao Pinóquio e aos gatunos que nos governam…: Mário Crespo – “Na América nada se consegue esconder”

Mário Crespo, jornalista da SIC, trabalhou vários anos nos EUA como correspondente da RTP

Nasceu em Coimbra, foi para Moçambique ainda criança e o seu primeiro contacto com a informação foi no gabinete de imprensa militar do Comando-em-Chefe português naquela ex-colónia, em 1972.
Hoje tem 58 anos e apresenta o jornal das “Nove” na SIC-Notícias.
Chama-se Mário Crespo, passou sete anos que “valem toda uma vida profissional” nos Estados Unidos e continua a ser o único correspondente da RTP alguma vez acreditado na Casa Branca.

“Cheguei em 1991, depois da Guerra do Golfo”, recorda o jornalista, explicando que demorou ano e meio a conseguir a acreditação junto da Casa Branca e das outras instituições governamentais norte-americanas, como o Departamento de Estado e o Pentágono.
“Primeiro tens de ser membro de um media de boa fé; depois tens de pedir credenciais à tua Embaixada sobre o que é o órgão de comunicação social que representas e a sua relevância; tens de provar que trabalhas para esse órgão e que vais estar por um período prolongado no país. Por fim, assinas um documento em que autorizas o FBI a investigar a tua vida toda”, disse.
Mas o processo só fica concluído, realçou, após um período probatório de cerca de um ano em que é obrigatório assistir a três “briefings” semanais naquelas instituições, “o que na prática significa que passas lá a semana”.

Ultrapassadas as formalidades para aceder à Casa Branca, Departamento de Estado ou Pentágono, o jornalista é livre de questionar as autoridades nacionais, regionais ou municipais sobre o que quiser.
“O jornalismo americano funciona de um modo completamente diferente do que conhecemos aqui, é uma máquina muito profissionalizada, com funcionários encarregados especificamente das relações com os media”, disse.

Outra diferença em relação ao jornalismo português é o conceito de registo público. “Tudo o que aparece no jornal, num press release, num mapa do Congresso ou num documento vale, inclusivamente em tribunal, para provar as afirmações das fontes”, especificou.

Esta prática, conjugada com o facto de um assunto ser acompanhado durante anos pelo mesmo jornalistas, faz com que nos Estados Unidos os agentes políticos ou outros, não fujam tanto à verdade porque tudo é registado.
“Os jornalistas americanos que cobrem a Política, em geral, estão no metier há muito tempo e são perfeitamente capazes de confrontar o agente político com opiniões anteriores. ‘Você há dois anos disse isto, isto e isto. Como é que agora está a dizer o contrário?'”, exemplificou.

Apesar da liberdade de imprensa, reconhecida na Constituição norte-americana e praticada no dia-a-dia, do livre acesso a milhares de fontes, institucionais ou não, e de um mercado noticioso mais competitivo do que o nacional, Mário Crespo disse que não há “uma cultura de litígio” como em Portugal.
“O mercado é mais competitivo mas o consumidor também é muito mais educado, seja sobre iogurte ou notícias, por isso o jornalismo tem um peso completamente diferente. Podes ter uma história que não sai durante três ou quatro dias, mas depois a própria energia da redacção acaba por suplantar isso e começam a surgir artigos e editoriais e acaba por se contar toda a história. Na América nada se consegue esconder”.

Aquele jornalista acrescentou que nos “States” há órgãos de informação e uma indústria de edições com capacidade financeira para permitir que um jornalista investigue um assunto durante longo tempo, a maioria das vezes por um ano, ao fim do qual sai um livro.
Em Portugal, segundo Mário Crespo, o jornalismo perdeu muitos profissionais nos últimos anos porque as administrações preferem apostar em redacções mais jovens, compostas por estagiários, e em formatos editoriais tabloides, porque é mais barato.
“Não há como fazer jornalismo de investigação”, resumiu.

Quanto a pressões sobre os media nos Estados Unidos, o jornalista admitiu que existem e relatou aquela de que foi alvo a propósito de um comentário que fez na CNN sobre Timor-Leste.
Em 1992, o cemitério de Santa Cruz foi palco de um massacre das tropas indonésias contra jovens timorenses desarmados. As imagens dos jovens a correrem para se refugiarem no cemitério enquanto os militares continuavam os disparos, correram o mundo.
Este acontecimento e a onda mundial de contestação que desencadeou, levou à mudança da política norte-americana quanto à ocupação indonésia da antiga colónia portuguesa.

Convidado pela CNN para comentar a situação timorense pós-massacre, Mário Crespo disse que não acreditava que os Estados Unidos alterassem a sua posição enquanto os interesses indonésios fossem representados pela maior empresa de lobbying norte-americana, a Hill & Knowlton.
“Tive tempo para me meter no carro e ir para o escritório. Quando cheguei já estavam a ligar-me da empresa e não mais me largaram durante a crise de Timor”, disse, acrescentando que nesse período a Hill & Knowlton lhe enviou material que “dava para encher várias bibliotecas”, convidou-o para almoços num prestigiado clube de imprensa de Washington para lhe “explicar a situação” e marcou-lhe encontros com entidades indonésias, entre outras acções.
“Tive um curso completo de Indonésia”, afirmou, adiantando que a “pressão era sistemática”.

Este episódio não manchou a sua opinião sobre os Estados Unidos ou sobre o papel dos media.
“É o meu imaginário e acho que continuará a ser, enche a minha vida. Uma vida sem passar por aquela experiência não teria tido o mesmo significado profissional”, rematou

Fonte: Revista das cadeiras do atelier de jornalismo e cyberjornalismo

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14/02/2009 - Posted by | Política: artigos de opinião |

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