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O que vou lendo por ai…

Pois…: Rui Cartaxana – O elogio dos vigaristas

O português pela-se por uma boa vigarice, especialmente se com ela se desacredita a autoridade, seja a do Fisco ou a da polícia. A cena do 2º amarelo a Fucile, no Restelo, é a prova do descrédito da Liga, dos árbitros, do futebol.

O uruguaio tinha acabado de ver o 5º amarelo (da prova), o que o obrigava a 1 jogo de suspensão no campeonato (com o Benfica), mas do banco voaram instruções e, de seguida, Fucile forçou ostensivamente o 2º amarelo do jogo. Com o ‘vermelho’ já teria de cumprir castigo no jogo seguinte (Taça da Liga) e libertava-se para o Benfica. Tudo no meio de sorrisos cúmplices, do árbitro aos adversários. E, no dia seguinte, elogios nos jornais. Pobre Taça da Liga

Fonte: Correio da Manhã de 03.02.2009

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03/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Domingos Amaral, Director da GQ: Cozido à portuguesa – Dicionário Freeport

“Segundo Sócrates, qualquer notícia da Comunicação Social sobre o ‘caso Freeport’ é uma calúnia”

O‘estranho caso Freeport’ está cheio de misteriosas palavras. Vou tentar decifrar os sentidos ocultos de algumas delas.

Ano de eleições – Época de exibição da saga ‘Freeport’. A primeira série foi em 2005. Em 2009 temos ‘Regresso a Freeport’, com caras novas, mais fanfarra e intriga mais densa.

Calúnias – Segundo Sócrates, é qualquer notícia da Comunicação Social sobre o ‘caso’. Mesmo que se trate de uma investigação judicial.

Carta rogatória – Passatempo divertido com que os investigadores ingleses e portugueses se entretêm, enviando-as uns aos outros, sem lhes dar resposta.

Domínio privado – Dá uma ideia grandiosa e semi-oculta da realidade, mas, na verdade, trata-se do computador pessoal de José Sócrates.

Ingleses – Investigadores perigosíssimos, que têm o topete de querer investigar as finanças dos nossos governantes, mas em três anos não acrescentaram quase nada às investigações portuguesas.

Ocultos – Interesses secretos que, segundo Sócrates, estão apostados em destruir a sua credibilidade. Obviamente, em caso algum se pense que é o PSD, pois o seu vice-presidente, António Borges, já disse que não há qualquer razão para demitir Sócrates, e nem quer ouvir falar em eleições antecipadas.

Primos – Na verdade, não são primos, mas meios-primos. É uma imprecisão relevante, caso seja preciso usar o DNA.

Smith & Pedro – Ao contrário do que se possa pensar, não é uma marca de pistolas anglo-portuguesa. Contudo, há quem diga que se trata de dois pistoleiros, rápidos a puxar do gatilho e procurados em todo o Oeste americano.

Suspeitos – Qualquer pessoa que tenha passado perto do Freeport em 2002 ou tenha ido a qualquer reunião sobre o tema.

Tio – Meio-irmão da mãe (olha o DNA!), que gosta de carros bons e offshores. Ou seja, o tio rico que toda a gente gostava de ter.

ZEA – Espécie de nave extraterrestre, que em épocas pré-eleitorais sobrevoa o Freeport, em ousados movimentos laterais, antes de aterrar finalmente no local escolhido pelo Governo.

50k – Código secreto para as notas de mil libras inglesas. Usa-se assim: ‘É pá, para o estudo, são necessárias mais 50k’.

Fonte: Correio da Manhã de 03.02.2009

03/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | Deixe um comentário

Pinóquio na versão feminina…: Pagamentos a advogados de Fátima Felgueiras são ilegais e deve ser exigida a sua devolução (Público de 03.02.2009)

Parecer do Conselho Consultivo da PGR diz que as despesas só podem ser apresentadas após decisão final e não podem incluir gastos da fuga para o Brasil

Os pagamentos que têm sido feitos a advogados pela Câmara de Felgueiras são ilegais e deve ser exigida a devolução de todas aquelas verbas aos cofres do município. A conclusão consta de um parecer emitido pelo Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República, onde é referido que “o eleito local apenas poderá exigir o pagamento das despesas [com processos judiciais] após a decisão final” e que “os pagamentos feitos noutras circunstâncias são ilegais, pelo que deve ser exigida a devolução das respectivas quantias”. Um inquérito está já a correr no Ministério Público.

Considerando que o pagamento previsto na lei se refere aos casos em “que não se prove dolo ou negligência por parte dos eleitos”, o parecer salienta que, “sobretudo em relação aos crimes imputados aos eleitos locais, não se vêem razões para que possa ser feito antes de o processo terminar (…) e não vemos que deva ser deixado ao critério dos órgãos autárquicos decidir, em cada caso, se o pagamento pode ser feito antes ou depois de o processo terminar, assim fazendo uma espécie de ‘pré-julgamento'”.
O parecer foi solicitado pelo procurador-geral distrital do Porto, na sequência de uma exposição apresentada pelos órgãos concelhios do PSD de Felgueiras, em Novembro de 2007, juntando documentos dando conta de que a autarquia tinha então despendido quantias à volta de meio milhão de euros para pagamento de despesas com os advogados de Fátima Felgueiras, de alguns vereadores e ex-vereadores da autarquia.
Considerando que o apoio a conceder “depende da verificação cumulativa de dois pressupostos”, ou seja, que o acto que deu origem ao processo “tenha sido praticado no exercício de funções e por causa delas” e que ao mesmo tempo “não se prove que foi praticado com dolo ou negligência”, o documento aponta para que essa avaliação implica que seja feita caso a caso e só depois de terminado o respectivo processo.
Referindo-se ao caso dos pagamentos que foram feitos ao advogado que a autarca contratou quando fugiu para o Brasil, o parecer deixa claro que em circunstância alguma tais despesas poderiam ter sido consideradas. “O arguido que se ausenta para o estrangeiro foge à justiça do seu país. O seu comportamento já não está relacionado com a condição de autarca, actuando completamente fora do exercício de funções.”
No processo do “saco azul” Fátima Felgueiras foi condenada a uma pena (suspensa) de três anos e três meses, mas o caso está em recurso, estando agora a ser julgada pelos financiamentos ao futebol.

Fonte: Público de 03.02.2009

03/02/2009 Posted by | Política: notícias | , | Deixe um comentário

João Miguel Tavares – Jornalista – jmtavares@dn.pt: A CABALA EXPLICADA ÀS CRIANCINHAS

Ah, como eu teria ficado mais feliz se José Sócrates, em vez de clamar contra os “poderes ocultos”, tivesse dito que desocultava as suas contas bancárias. Era tão fácil. Estou a imaginá-lo a aproximar-se do microfone, na sua última conferência de imprensa, e em vez de falar em “insídias” e “ignomínias”, dizer simplesmente: “Portugueses, nada tenho a esconder. Abdico voluntariamente do meu sigilo bancário. As minhas contas estão à disposição da Polícia Judiciária e do Ministério Público.” Era tão fácil, não era?

Mas não. Sócrates preferiu deitar mão ao velho discurso da cabala, como se fosse um treinador de futebol no rescaldo de um jogo com arbitragem desfavorável. E não contente, despachou para as televisões os ministros que por ele nutrem a mais platónica das paixões, para sessões de gritinhos histéricos em directo, perorando enviesadamente sobre a ZPE e fazendo os portugueses passar por parvos, como se não existissem dúvidas inteiramente legítimas neste caso. Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira não são o Bobby e o Tareco de José Sócrates. São dois ministros do Estado português. Convinha que se comportassem como tal.

Só que, infelizmente, no meio desta triste história, não há uma alminha sobre a qual possamos dizer “ora aqui está, este pelo menos agiu bem”. De uma ponta à outra, a imoralidade atravessa todas as instituições que deviam sustentar o Estado em que vivemos. A reacção de Sócrates foi inaceitável. O comunicado da Procuradoria foi inacreditável, e mais parecia ter sido escrito por um assessor do primeiro-ministro no intervalo de um Portugal-Inglaterra, conseguindo o prodígio de ser desmentido pelas notícias do dia seguinte. E o que dizer da entrevista da procuradora Cândida Almeida, onde ela quebrou mais do que uma vez o segredo de justiça (por exemplo, na história do suspeito que não é muito suspeito mas apenas um bocadinho suspeito), ao mesmo tempo que informava ir abrir um inquérito sobre quebras do segredo de justiça? Seria hilariante, se não fosse tão triste.

Alguém, por amor de Deus, que tome a iniciativa de repensar o sistema de justiça de cima a baixo, que isto está a tomar dimensões insustentáveis. O que se passou está à vista de todos: após as chatices de 2004, a investigação entrou alegremente em banho-maria até os ingleses virem melgar com aquela carta rogatória, que colocou a polícia e o Ministério Público em cheque. Vai daí, aplicou-se uma velha técnica: isto é muito aborrecido de tratar, o mais provável é não haver provas suficientes para incriminar, porque é que não deixamos a comunicação social tratar disso? Assim foi. E assim vai continuar a ser. Até o País bater no fundo.

Fonte: Diário de Notícias de 03.02.2009

03/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , , | 1 Comentário