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O que vou lendo por ai…

Manuel António Pina: O candidato fenomenológico

Eu, quando for grande, quero ser como o dr. Pedro Passos Coelho, cantar ópera, entrar em “castings” de La Feria e ler “autores existencialistas que problematiz(am) matérias sobre as quais também me interrog(o)”.

Na última entrevista de Pedro Passos Coelho ao “Público”, em que desnuda as suas mais pudendas partes intelectuais, descubro porque é que nunca serei candidato a coisa nenhuma. A culpa não é minha, é das más companhias. Enquanto, nos tenros anos juvenis, eu acompanhava com Tintin, Litle Nemo, Spirit, Lil’Abner e Dick Tracy (e o pior é que ainda acompanho), Passos Coelho mergulhava nas profundezas de Voltaire; enquanto eu me emocionava com as viagens de Gulliver e de Nils Holgersson, ele reflectia sobre “A fenomenologia do ser”, de Sartre. E não adianta Pacheco Pereira desenganar-me dizendo que Sartre nunca escreveu tal obra, porque eu também a li. “Mais tarde”, como Pedro Passos Coelho fez com Kafka, mas li. A “A fenomenologia do ser” e “As mãos e os frutos” (ou seria “As mãos sujas”?); é, se não me engano, onde Sartre “problematiza” a privatização das caixas gerais de depósitos.

Fonte: Jornal de Notícias de 25.02.2009

25/02/2009 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

Em ditaduras é assim…: Jornalistas da Lusa criticam cobertura do Caso Freeport

O Conselho de Redacção da Lusa «estranha a diferente cobertura jornalística dada às buscas efectuadas ao escritório de advogados de Vasco Vieira de Almeida e às efectuadas ao escritório e casa do tio do primeiro-ministro»

O Conselho de Redacção (CR) da Lusa não poupa críticas à Direcção de Informação da agência. Em comunicado, a que o SOL teve acesso, os jornalistas daquele órgão mostram-se preocupados com a «degradação da qualidade do serviço» da agência noticiosa e criticam a cobertura dada ao Caso Freeport.

Para os membros do CR, é questionável a forma como foi tratado o caso que lança suspeitas contra José Sócrates.

«O CR discorda que não se tenha feito notícia das declarações do tio de José Sócrates ao jornal SOL», lê-se no documento, que refere que a entrevista de Júlio Monteiro ao semanário apenas foi reproduzida pela Lusa «como background numa notícia com as declarações do primeiro-ministro no final do dia».

Os membros do Conselho de Redacção também criticam «a diferente cobertura jornalística dada às buscas efectuadas ao escritório de advogados de Vasco Vieira de Almeida e às efectuadas ao escritório e casa do tio do primeiro-ministro».

«Enquanto as buscas realizadas aos escritórios de Vasco Vieira de Almeida foram objecto de várias notícias autónomas, os procedimentos policiais realizados ao escritório e casa do tio de José Sócrates não foram objecto de qualquer notícia autónoma», dizem no comunicado.

Em tom muito crítico, os jornalistas descrevem a «instabilidade e mal-estar que se vive na redacção». E chamam a atenção para «a degradação da qualidade do serviço da Lusa», denunciando o facto de serem produzidas «notícias sem fonte e notícias sem rigor quer na forma, quer no conteúdo».

O texto a que o SOL teve acesso é, de resto, mais uma prova da tensão crescente entre o Conselho de Redacção e o director da Lusa, Luís Miguel Viana.

O Conselho de Redacção acabou, aliás por reunir, esta terça-feira, sem qualquer representante da Direcção de Informação, que «não compareceu na reunião» depois de ter sido notificada para o fazer.

Em regra, os conselhos de redacção são presididos pelo director do respectivo órgão de comunicação social. Mas os membros eleitos do CR da Lusa optaram por reunir sem a presença de Viana, afirmando que «todos os procedimentos adoptados estão suportados na lei e em parecer jurídico».

No comunicado a que o SOL teve acesso, o CR informa ter já feito seguir uma queixa para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) «sobre a recusa do Director de Informação em se reunir com o Conselho de Redacção». E anuncia que irá comunicar à ERC e à Comissão da Carteira Profissional a «utilização na linha noticiosa do trabalho de estagiários curriculares».

Contactado pelo SOL, o director da Lusa, Luís Miguel Viana recusou fazer qualquer comentário às críticas e denúncias do Conselho de Redacção. «Não vou falar sobre isso», disse.

Fonte: SOL – 18 Fevereiro 2009

18/02/2009 Posted by | Política: notícias | | Deixe um comentário

Baptista-Bastos – Escritor e jornalista – b.bastos@netcabo.pt: O DISCURSO DO NADA

A vitória de Sócrates é a metáfora do eucalipto: ele seca tudo à sua volta e conduz o partido como muito bem entende. A percentagem de 96,43 por cento dos votos não reflecte, em boa verdade, a imagem que o PS deseja expor. O PS dispõe de cerca de 73 mil militantes, mas apenas 29 mil votaram, por terem as quotas em dia. Há um manifesto desinteresse dos socialistas pelo destino do partido em que militam. Pode-se atribuir essa falta de comparência cívica a mil razões. As mais das vezes razões falaciosas. E as declarações jubilosas de altos dirigentes, em lufa-lufa de subserviência ao chefe, além de fastidiosas, ocultam o nó do problema. O PS é a imagem devolvida do País: desencanto, aborrecimento, ausência de convicções, desmotivação. São os próprios princípios que estão em causa. A absurda justaposição do slogan “socialismo moderno” com a lógica fatal do neoliberalismo mais assanhado conduziu a uma esterilidade ideológica e ética que estas eleições vieram sancionar. O volumoso resultado obtido por Sócrates não tem importância nenhuma. A ameaça dos acontecimentos, a carência de respostas sérias, o desprezo para com a história do partido, a falta de fidelidade descaracterizaram o PS. E José Sócrates não vive em autismo, não se move num universo virtual: simplesmente não sabe como resolver os inúmeros problemas da sociedade portuguesa. Os temas exclusivos que, no congresso, suscitaram o seu interesse, são indicadores do seu oportunismo ou da sua incompetência. Esqueceu o desemprego, o desajuste entre a realidade pungente, na qual estamos mergulhados, e a mudança das instituições; a falência dos bancos, a corrupção e a própria questão da liberdade. Sócrates tinha opções: não as tomou ou não as quis tomar. A sociedade pedia-lhe (e até lhe exigia) respostas. O método de pensamento que utilizou é-lhe habitual. Passa ao lado do que se lhe pedia, exigia ou perguntava. Sob a capa de falar de problemas “fracturantes”, nunca assumiu, com a coragem requerida, enfrentar os dilemas que o excedem, mas que são inseparáveis dos princípios elementares do nosso viver colectivo. Desconhecemos o que José Sócrates pensa da exaustão portuguesa, sovada pela agressividade das leis que promoveu e fez promulgar. Não sabemos dos seus projectos para Portugal, sobre o qual nos é inculcada a ideia de que materialmente não tem futuro.

Parece que o secretário-geral do PS e primeiro-ministro somente obedece a forças cegas e brutais, impostas e garantidas pelos grandes interesses, que sobrepuseram o económico ao político. Apesar de tudo, presumi, um pouco ingenuamente, que José Sócrates iria inflectir o discurso para outros perímetros. Enganei-me. O homem não tem cura.

Fonte: Diário de Notícias de 18.02.2009

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Manuel António Pina: A mais antiga profissão

A propósito do bom uso dos dinheiros públicos, noticia o “Público” que o Tribunal de Contas descobriu que o Governo Regional da Madeira paga (isto é, pagamos nós) para que jornais publiquem artigos de opinião do seu querido líder. No caso concreto analisado pelo tribunal, os contribuintes madeirenses, que é como quem diz os “cubanos” do Continente, pagaram a “O Diabo” mais de cinco mil e quinhentos (!) euros pela publicação de uma redacção de Jardim sobre “A intolerância da esquerda”.

Pode ser uma solução para a crise da imprensa, em vez de pagar aos colaboradores passar a cobrar-lhes, sobretudo aos que pagam com dinheiro alheio, que não discutem preços. Bem vistas as coisas, e como as transferências do Orçamento de Estado para a Madeira continuam a ser um poço sem fundo, o Governo Regional deveria ponderar a hipótese de pagar também a quem leia os artigos de Jardim, o que, se provavelmente aumentaria os níveis de iliteracia geral, ajudaria a resolver os problemas de muitas famílias carenciadas e não só da “Escort Imprensa” que recebe em página e apartamento próprios e vai a hotéis e motéis.

Fonte: Jornal de Notícias de 18.02.2009

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Carlos de Abreu Amorim, Professor universitário: Ética e política

Muitos defendem que um titular de um alto cargo público ou político só se deverá demitir caso seja formalmente constituído arguido – estou em desacordo total.

Antes de ser jurídica, a questão é ética. Os que ocupam esses cargos não desempenham uma função qualquer: são uma referência para a comunidade e deverão reflectir valores éticos de serviço público.

Depois, remeter para o MP o poder exclusivo da decisão acerca de um alto cargo público ou político afronta a lógica do princípio da separação de poderes – seria colocar nas mãos do judicial a chave dos poderes político e executivo.

A continuidade de Dias Loureiro no Conselho de Estado, politicamente, degrada o órgão e enxovalha o Presidente da República. Quer aquele venha a ser arguido ou não.

Fonte: Correio da Manhã de 18.02.2009

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Do Blog PALAVROSSAVRVS REX: Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009 – A REALIDADE E O PATO BRAVO

É incrível como o primeiro-ministro se conserva completamente incapaz de ler a realidade. O tempo risonho do faz e desfaz dos partidos no poder está a rebentar. A miséria torna-se-nos demasiado familiar e os pratos da balança entre, por um lado, bens de sobrevivência e, para outros, brutal ostensividade de ultra-abundância fácil, mostram-se demasiado desequilibrados. A vergonha é multímoda. Um outro paradigma cívico-político está a emergir. Exigências de verdade efectiva completamente novas no fazer da política abrem o seu caminho. Acontece que, porque não leu qualquer livro nem sequer resumos de livros por Fax que lhe sedimentassem valores sólidos humanísticos, nada se pode esperar da nulidade que mora dentro dos Armani socratinos. Que alma mora ali? Zero. Que saberes testados e comprovados? Zero. Este espécimen Anas querquedula ou, em português Pato Marreco (Bravo), não resistiria ao mais simples confronto intelectual com um professor médio, posto a sofrer pela iniquidade em vigor. Daquilo só há a esperar o desenrasca rasca das pauladas e das frases assassinas no Parlamento, e sabemos que tal como nada detém um burro imóvel na sua imobilidade sobre a ponte porque sim, nada o deterá a ele até ser demasiado e vergonhosamente tarde. Hoje mesmo, o ainda PM «afastou implicitamente a possibilidade prática de um pacto de regime com o PSD para o combate à actual crise económica e financeira mundial, sublinhando as diferenças de concepção ao nível do investimento público. A posição de José Sócrates foi transmitida aos jornalistas após ter visitado as obras de uma escola em Odivelas e de ter inaugurado o novo Centro Escolar de Alenquer, onde esteve acompanhado pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues. “O Governo entende que é preciso reforçar o investimento público, mas infelizmente tenho notado que há partidos que apenas tentam desmerecer tudo o que se faz”, declarou Sócrates, depois de ser confrontado com um cenário de acordo de regime com o PSD. “Acho que seria bom se todos percebessem que o investimento público é a questão central para combatermos a crise económica internacional”, disse.Em seguida, o primeiro-ministro lamentou “que haja partidos que entendem que a única coisa que se deve fazer é o Governo ficar sentadinho à espera que a crise passe”.» A insistência no investimento público indiscriminado, orientado para as Jorge-Construtoras-Coelhone, a promessa de endividamento infrene, quando as contas púlbicas estão rigorosa e sorridentemente fucked up e não foi Santana, foram treze anos xuxas, a mentira como horror transparente aos olhos de uma Opinião Pública mais atenta, tudo isto fará em frangalhos a personalidade de papel do ainda PM. A realidade tratará dele, não tarda. Dentro em breve, o Governo unilateralista e praticante denodado da selecção artificial não vai poder abrir a boca sem que os dentes da nula credibilidade lhe não caiam. Entretanto, a Realidade continua o seu trabalho mostrando com quantos Patos Bravos se faz uma canoa. Nem de propósito, porque tem moral e provas mais que dadas, como gestor de alguma coisa, para falar, o patrão da Sonae, que participava hoje, em Lisboa, no Forum da Competitividade e arrasou de alto a baixo, para meio entendedor. Belmiro de Azevedo foi particularmente abrangente no alcance das suas críticas (o apanhado é do meu amigo João):- “A crise é de regime, é de líderes dos partidos, é de líderes das associações, é de líderes dos sindicatos, é de líderes dos empresários”- “Se Portugal continuar com a mesma despesa, ficará um país igual aos de África”“Os políticos falam do que não sabem e prometem o que não podem cumprir”– “Para que não haja despedimentos é preciso que o país tenha actividade económica”. Depois estrebuchem quando se expõe e demonstra na bloga com toda a liberdade de que modo se manifesta grosseira e reincidente muita da incompetência e falta de seriedade governamental. Na mentira nada se consegue. Nada.

Fonte: Blog PALAVROSSAVRVS REX

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Manuel António Pina e a ironia ácida…: Em defesa de Dias Loureiro

Dias Loureiro diz que “não se lembra” de ter assinado os contratos para a compra ruinosa de duas empresas tecnológicas em Porto Rico que o “Expresso” revelou, e que só porque, na altura, não se lembrava é que declarou na Comissão de Inquérito ao BPN que nunca tinha ouvido falar do Excellence Assets Fund, parceiro no negócio. Por isso está, obviamente, de “consciência tranquila”. Compreendo-o perfeitamente; as pessoas esquecem-se, eu ainda ontem me esqueci de umas luvas (sem ironia) no café.

Diz William James que a memória é uma narrativa com que construímos o passado que, em cada momento, desejamos ou tememos; se alguém é culpado no caso, não é, pois, Dias Loureiro, é William James. Marc Augé assegura, por seu lado, que uma má memória rejuvenesce, e toda a gente viu o ar fresco e jovial que Dias Loureiro exibia durante a audição parlamentar. Alguns poderão ter pensado que teria feito uma plástica, mas o esquecimento é mais eficaz que o botox para eliminar as rugas, as do rosto como as da consciência. Ora se os filósofos e os antropólogos absolvem Dias Loureiro, quem somos nós para o condenar?

Fonte: Jornal de Notícias de 17.02.2009

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Ando cá com uma falta de memória…: Dias Loureiro – DN – Loureiro concluiu negócio falhado

Caso BPN. O ex-administrador da SLN participou no acordo que pôs fim ao negócio ‘desastroso’ com os porto- -riquenhos da BI. Isto depois de ter dito que só esteve no arranque da parceria

Ex-ministro actuou no acordo que negou conhecer

Dias Loureiro participou activamente no fim do negócio entre a porto-riquenha Biometrics Imagimeering (BI) e a Sociedade Lusa de Negócios (SLN), liderando várias reuniões, entre Junho e Julho de 2002, e tendo concluído o acordo de saída do grupo português. Uma participação que contraria as suas declarações ao DN há duas semanas, quando referiu ter participado apenas no arranque do negócio, bem como o seu depoimento na comissão parlamentar de inquérito ao caso BPN, em que referiu “não se lembrar” dos contratos que assinou.

De acordo com documentos a que o DN teve acesso, Dias Loureiro liderou uma reunião, em Junho daquele ano, em que foram discutidos vários aspectos relacionados com a parceria estabelecida em Novembro de 2001 e que não tinha tido qualquer desenvolvimento.

Confrontado com a sua participação no fim do negócio, Dias Loureiro afirmou ao DN que interveio “activamente” no seu cancelamento, em “várias reuniões”, “para que a SLN não fosse a tribunal por incumprimento do investment agreement”.

Segundo o ex-presidente da SLN Novas Tecnologias – sub-holding do grupo que geria a NovaTech, a empresa criada no âmbito do negócio com a BI, detida a 75% pela SLN e a 25% pela BI – a sua intervenção impediu que os prejuízos com o negócio fossem “mais gravosos em 35 milhões de euros”. Este negócio com a BI resultou num prejuízo de 38 milhões de euros para a SLN, aos quais acresceriam mais 35 milhões. “O desenvolvimento dos produtos resultantes do acordo pressupunham o pagamento de cinco milhões de euros por semestre, durante seis semestres, por parte da SLN Novas Tecnologias, o que não se verificou”, adiantou ao DN, Dias Loureiro.

“A minha intervenção foi no sentido de impedir que os responsáveis porto-riquenhos avançassem para tribunal, o que consegui”, diz.

Com efeito, foi o ex-administrador da SLN que assinou, sozinho, o acordo que pôs fim a uma parceria que durou pouco menos de um ano. A 22 de Julho de 2002, a BI, representada por Hector Hoyos, e as empresas SLN, Nova Tech, Excellence Asset Fund Limited e Newtech Strategic Holding Limited (era nestas duas últimas que estavam estacionadas as acções envolvidas no negócio), representadas por Dias Loureiro, celebravam um acordo. Entre outros pontos, a Nova Tech tornava-se uma subsidiária da BI e o Excellence Assets Funds permanecia como accionista da BI durante dois anos, findos os quais venderia a esta os 25% da sua posição por um dólar.

O “desastre” de todo este negócio poderia ter sido evitado, se os seus responsáveis tivessem atendido ao parecer sobre a porto-riquenha BI, nos domínios tecnológico e estratégico. Neste trabalho, realizado por Vieira Jordão, refere-se que, entre vários aspectos técnicos, a experiência acumulada da BI é “muito reduzida”, caracterizando-se como uma startup.

Para a SLN, esta empresa visava o desenvolvimento do seu projecto de caixas automáticas e terminais de pagamento, o NetPay.

Fonte: Diário de Notícias de 17.02.2009

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Manuel António Pina: Samba de uma nota só

A diversidade e a pluralidade do debate interno nos partidos portugueses não deixa de me surpreender. No PCP, Jerónimo de Sousa foi eleito praticamente por unanimidade, apenas com a abstenção de quatro anónimos heróis sacrílegos; no CDS, Portas por 91,6%; no BE, Louçã por 78,7%; e, agora, no PS, Sócrates por 96,43%. Todos os queridos líderes foram a votos sozinhos (e, na maior parte dos casos, sozinhos e mal acompanhados). No BE ainda chegaram a esboçar-se umas tímidas alternativas, mas o resultado foi idêntico. Tirando o PSD, onde, em lugar do debate, reina o caos, todos os outros partidos são sambas de uma nota só, pelotões acríticos marchando em ordem unida em direcção a uma fatia do poder e do Orçamento de Estado, onde cada vez menos gente, alguma por falta de jeito outra, que sei eu?, por excesso de convicção, troca o passo. Saddam Hussein, Enver Hoxha e Kim Il-Sung têm boas razões para estarem a roer-se de inveja além-túmulo; e e Kim Jong-Il decerto reflectirá melancolicamente sobre a singularidade teórica do unanimismo à portuguesa: em vez de um partido único, quatro partidos únicos.

Fonte: Diário de Notícias de 16.02.2009

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Mário Crespo: O horror do vazio

Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido.

Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica “a morte do sentido de tudo” dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. O resultado das duas dinâmicas, um “casamento” nunca reprodutivo e o facilitismo da morte-na-hora, é o fim absoluto que começa por negar a possibilidade de existência e acaba recusando a continuação da existência. Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer. Já escrevi nesta coluna que a ampliação do casamento às uniões homossexuais é um conceito que se vai anulando à medida que se discute porque cai nas suas incongruências e paradoxos. O casamento é o mais milenar dos institutos, concebido e defendido em todas as sociedades para ter os dois géneros da espécie em presença (até Francisco Louçã na sua bucólica metáfora congressional falou do “casal” de coelhinhos como a entidade capaz de se reproduzir). E saiu-lhe isso (contrariando a retórica partidária) porque é um facto insofismável que o casamento é o mecanismo continuador das sociedades e só pode ser encarado como tal com a presença dos dois géneros da espécie. Sem isso não faz sentido. Tudo o mais pode ser devidamente contratualizado para dar todos os garantismos necessários e justos a outros tipos de uniões que não podem ser um “casamento” porque não são o “acasalamento” tão apropriadamente descrito por Louçã. E claro que há ainda o gritante oportunismo político destas opções pelo “liberalismo moral” como lhe chamou Medina Carreira no seu Dever da Verdade. São, como ele disse, a escapatória tradicional quando se constata o “fracasso político-económico” do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos.

Fonte: Diário de Notícias de 16.02.2009

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