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Dedicada à Ministra da Saúde Ana Jorge: Mário B. Resendes – OS POLÍTICOS E OS MICROFONES

Episódio I – Na apresentação pública do Plano de Combate à Sida nas Escolas, com a presença das ministras da Saúde e da Educação, um jornalista da RTP decidiu interrogar Maria de Lurdes Rodrigues sobre o conflito com os professores. Segundo foi noticiado, Ana Jorge terá reagido com palavras deste teor: “O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é da RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E depois, logo à noite, não sai a reportagem.”

Episódio II – Manhã de domingo, 14 de Dezembro. Numa inauguração ligada ao sector dos transportes na margem sul do Tejo, o primeiro-ministro é interrogado por um jornalista sobre o Fórum das Esquerdas, que iria reunir, nessa tarde, entre outros, Manuel Alegre e Francisco Louçã. Visivelmente irritado, Sócrates recusa-se a falar sobre o assunto, acrescentando que o jornalista “parecia não ter a mínima ideia do que estava ali a fazer” (o provedor não garante a transcrição literal, mas responde pelo sentido fundamental das afirmações do chefe do Governo).

Episódio III – Falando à saída do plenário, na quarta-feira, depois da habitual sessão quinzenal no Parlamento, José Sócrates, cordato e bem-disposto, não foge ao tema “Manuel Alegre”. Reconhece que ainda não se pronunciou sobre o caso, mas acrescenta que “em breve irá fazê-lo” e afirma mesmo que “compreende o interesse do jornalista” sobre a matéria.

Os episódios aqui enunciados remetem para a questão da capacidade de coordenação da agenda política no espaço público. Nos tempos que correm, governantes e dirigentes partidários, frequentemente com a colaboração de profissionais especializados, procuram planificar as suas intervenções de forma a conseguir um eco amplo e favorável – o que, na gíria, se chama, ter “boa imprensa”.

Numa democracia aberta, em que há uma lógica muitas vezes conflitual entre os interesses dos diversos poderes e o dever de escrutínio dos media, percebe-se que os protagonistas desenvolvam esforços para conseguir os seus objectivos, ou seja, neste caso, que os agentes políticos restrinjam o seu discurso em conformidade com as respectivas conveniências. Um jornalista cumpre o seu dever quando coloca questões de actualidade, mas um qualquer dirigente político está no seu pleno direito se decidir não se pronunciar sobre o tema em causa.

As “regras do jogo” são, portanto, claras. No espaço público, não cabe ao político instruir a temática do interrogatório, da mesma forma que o profissional de informação deve aceitar a invocação do direito de recusa de resposta. E o normal seria que as coisas se passassem como aconteceram no terceiro episódio descrito na parte inicial deste texto.

Inaceitáveis são as palavras atribuídas à ministra da Saúde, não só por revelarem manifesta incompreensão daquele que é o dever de um jornalista, mas também pela implícita “funcionalização” de um profissional da RTP: aparentemente, para Ana Jorge, a estação pública deveria estar ao serviço do poder político. Lamentavelmente, este episódio quase não teve repercussão pública, com a honrosa excepção de um deputado do PSD, Luís Campos Ferreira, que abordou o caso no Parlamento. Da parte do Sindicato dos Jornalistas, que se desse por isso, nem uma palavra de protesto…

A simples divulgação de um comunicado ou uma declaração “sem direito a perguntas posteriores”, quando assim anunciada, asseguram a um protagonista que não será confrontado com questões eventualmente incómodas. Em qualquer outra circunstância, numa democracia aberta e plural, o que se espera é que os jornalistas cumpram o seu dever de representação do interesse da opinião pública.

Fonte: Diário de Notícias

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21/12/2008 - Posted by | Política: artigos de opinião | ,

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