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João Vaz: Pela transparência

19 Dezembro 2008 – 09h00
Opinião
Pela transparência
Ninguém imagina a D. Branca – Maria Branca dos Santos (1902/1992) – ‘banqueira do povo’ na primeira metade dos anos 80, com o seu estilo de dona de casa octogenária e cabelo branco apanhado em chinó, como presidente, em Nova Iorque, da praça financeira ligada às novas tecnologias.

No entanto, descobriu-se que Bernard Madoff, septuagenário e antigo presidente do Nasdaq, faz negócios iguais aos que deram fama a D. Branca. Durante dez ou mais anos dos 48 de vida profissional, utilizou a sua credibilidade para manter um negócio fraudulento em pirâmide a que os americanos chamam Ponzi. O no-me vem do primeiro burlão do género, o italiano Charles Ponzi, que chegou à América em 1903 com meia dúzia de moedas no bolso e que nos anos 20 pagava altos juros a quem lhe confiava o dinheiro e levava vida de fausto com piscina aquecida em casa. Acabou a cumprir cinco anos de prisão e expulso dos EUA.

Bernard Madoff não precisou de concluir o curso de Direito para ser rei da finança. Os bilionários que encontrava a jogar golfe deixavam-se seduzir pelos altos rendimentos de 9% a 12% e entregaram–lhe rios de dinheiro. Madoff fez funcionar o mecanismo do ‘segredo é a alma do negócio’. Nenhuma supervisão, nem inspector, descobriu que era tudo fictício. Depois do buraco de 50 mil milhões de dólares nos fundos, cujo crescimento artificial se fazia de rendimentos que nunca existiram, é que se fala de práticas obscuras. Curiosamente, como com a Afinsa dos selos criada em Espanha pelo português Albertino de Figueiredo, houve um alerta na revista ‘Barron’s’ a que ninguém deu importância.

Parece incrível como pessoas inteligentes e informadas imaginam que alguém consegue obter lucros de investimento suficientes para lhes pagar juros especulativos. O hábito de ver o segredo como a alma do negócio cega as pessoas ao ponto de ser decisivo acabar com ele. Enquanto há quem sonhe já com mundos novos e homem novo, sente-se que o mais importante passo em frente será a adopção de práticas de transparência.

O primeiro efeito da transparência é constatar que a riqueza nasce do trabalho. Está em contradição com o dito popular que ‘ninguém enriquece a trabalhar’, mas é o que tem lógica. O trabalho deve ser valorizado em relação ao capital. Quando os juros reais já estão nos EUA de 0% a 0,25% fica claro que é do trabalho, e não dos Madoff, que se espera a saída da crise. Sem segredos e só com transparência.

Fonte: Correio da Manhã

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19/12/2008 - Posted by | Política: artigos de opinião |

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