Livresco’s Weblog

O que vou lendo por ai…

Mais um artigo espectacular do Mário Crespo: Danos colaterais

“Quem é que sabe o que é uma OCD?”. Havia cerca de quatrocentos jornalistas de televisão na sala de conferências e à pergunta de Steve Sedgwick da CNBC ninguém respondeu. Eu estava lá. A questão tinha sido posta em Inglês. ‘What’s a CDO?’.

Depois de esgotado o minuto de embaraço Sedgwick, um especialista em jornalismo económico e financeiro, voltou à carga: ‘Presumo que também não saibam o que é uma OCD ao quadrado…ou ao cubo? ‘. Não se sentiu o arrastar de pés do desconforto nem o silêncio que permitiria ouvir o tal alfinete a cair no chão porque o auditório do Hilton de Valência é alcatifado. Foi o próprio Sedgwick, um tipo irritantemente novo, irritantemente bem parecido e bem vestido, irritantemente sabedor e extraordinariamente sagaz a fazer entrevistas (o que irrita também) que nos deu a redenção: ‘Não se preocupem muito. O Presidente de um dos maiores bancos multinacionais foi questionado sobre isto na Câmara dos Comuns e também não sabia’. Tinha sido no início da crise numa audição no parlamento britânico quando os bancos da City começaram a falir. Numa áspera troca de argumentos o parlamentar inquiridor tinha confrontado o banqueiro com o facto de desconhecer um produto que o seu banco andava há anos a vender por todo o Mundo. Os jornalistas que participaram no seminário de Valência, além da lição de humildade de que a crise financeira tem que ser jornalisticamente mais bem tratada, receberam como bónus a informação do que é uma CDO ou uma OCD em português. É um dos tais produtos financeiros tóxicos que nos fazem perder empregos, ter fome e que durante uns anos enriqueceram obscenamente uma série de Donas Brancas por esse mundo fora. Tecnicamente definida como Obrigação de Dívida Colateralizada, na realidade traduz-se na manipulação dos ingénuos que acreditam em galinhas dos ovos de ouro ou, já que estamos em avicultura, confiam que o tal ovo que se supõe esteja no oviducto do galináceo mas ainda ninguém viu, acabe por sair na forma de uma omeleta de espargos. Depois o ovo não sai e aumentam-nos os impostos e tiram-nos os empregos e retardam-nos a pensão de reforma e fecham maternidades e escolas e esquadras de polícia. Estamos a viver em Portugal uma destas monstruosidades. Preocupado com a crise financeira internacional o governo de Sócrates disponibilizou uma quantidade astronómica de dinheiro para “salvar o sistema”. Todos assumimos que se tratava de apoiar algo que servisse o bem público. O primeiro acto detectado deste plano foi salvar, o Banco Privado que tem tanto a ver com o público como a Ferrari, a Bentley e a Louis Vuitton têm a ver com a Carris. Fiquei finalmente a compreender a lição do jornalista de economia em Valência. O Estado Português deu dinheiro à banca privada mas não se quis meter no Banco Privado. Seis bancos privados, por razões que a razão ainda desconhece “colateralizados” pelo Estado Português, dão ao Banco Privado o “colateral” para manter os interesses privados que representa salvaguardados. É de facto a tal dívida sobre dívida colateralizada ao quadrado de que falava Sedwick na conferência de Valência e nós não sabíamos o que era. Pelo menos uma coisa já sabemos agora. É que vamos pagar por ela.

Fonte: Jornal de Notícias

29/12/2008 Posted by | Uncategorized | , | 1 Comentário

Armando Esteves Pereira, director-adjunto – Correio da Manhã: Gato por lebre no BPP

A ASAE pode ser acusada de alguns excessos, mas graças à sua actuação temos a garantia de que dificilmente haverá um restaurante que venda literalmente gato por lebre.

Infelizmente na Banca há casos de gato por lebre que passaram com a omissão da entidade que fiscaliza o sector. É o caso dos produtos do BPP com garantia de capital, que tecnicamente não são depósitos, mas que eram vendidos pela instituição como se fossem. O BPP garantia o dinheiro das aplicações em PIAP, produtos a que chamavam estratégias de investimento com mínimo risco. A quebra do mercado revelou que os riscos não eram assim tão mínimos.

Vítor Constâncio tem tido as costas largas sobre as deficiências da supervisão, mas quem tutela essa área é o vice-governador Pedro Duarte Neves. O banco central tinha obrigação de saber que o BPP estava a prometer aos clientes uma expectativa que em caso de evolução negativa do mercado não podia cumprir.

O BPP era especializado em gestão de fortunas mas, como alguém disse, transformou-se numa entidade de digestão de patrimónios. E se na actividade de risco havia clientes que sabiam que as suas aplicações tinham riscos, os consumidores que pensavam que tinham um depósito seguro num banco autorizado também têm razões de queixa da supervisão.

Fonte: Correio da Manhã

25/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | , , , | 1 Comentário

Manuel António Pina: Doutores ou ainda menos

A propósito do generalizado tratamento de “doutor” em Coimbra, contava-se a história de um barbeiro que, enquanto escanhoava o cliente, metia conversa com ele: “O sr. dr. não é o engraxador que pára lá em baixo na Portagem?” Entretanto todo o país se “coimbrizou” (e o que não se “coimbrizou” está a “bolonhizar-se”) e a piada perdeu-se.

Hoje, no supermercado, devemos dirigir-nos à menina da caixa dizendo: “Pago com Multibanco, sra. dra.”, e à empregada doméstica: “Dra. Irene, sirva o leite-creme”, do mesmo modo que não podemos esquecer-nos de que o lavador de carros pode ser engenheiro pela Moderna ou pela Internacional: “Lavagem completa, sr. engenheiro”. A revista “Sábado” conta a história de um atleta de “taekwendo” que, sem nunca ter feito o ensino secundário, em poucos meses conseguiu, como tantos outros, um diploma “simplex” do 12.º ano nas “Novas oportunidades” e já está a caminho da Faculdade de Medicina. Um dia destes, juntamente com um anestesista também “simplex”, estará a operar o leitor num hospital público, os dois cheios de curiosidade sobre o que haverá dentro de uma barriga.

Fonte: Jornal de Notícias

24/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Fernando Ulrich – líder do BPI: “Governo reagiu mal à pressão mediática”

Fernando Ulrich diz que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças não aguentaram a pressão e lançaram um conjunto de críticas “injustas” aos bancos. E avisa: nem todos os grandes projectos são financiáveis

Uma semana depois de o Governo ter vindo pressionar a banca para que financie a economia, o líder do BPI responde ao Governo. Fernando Ulrich explica quais os grandes desafios por que passa actualmente a economia nacional.
O primeiro-ministro (PM), José Sócrates, e o ministro das Finanças (MF), Teixeira dos Santos, têm razão quando ameaçam a banca de lhe retirar a garantia estatal por não
conceder crédito?
Neste momento, o único banco a que o Governo pode tirar a garantia do Estado é a Caixa Geral de Depósitos (CGD), que foi o único que a utilizou. Mas essa é uma questão interna entre o Governo e o seu banco. Esta crise é muito séria e vai demorar tempo a ser ultrapassada e o que é necessário é que haja uma concertação de esforços dos principais responsáveis, seja dos líderes do Governo, da oposição, das empresas ou dos bancos. Todos temos que estar disponíveis para nos sentarmos à volta da mesa e discutir quais são as melhores soluções. Não vejo nenhuma vantagem em andarmos a atirar pedras uns aos outros. Isso não vai ajudar a resolver os problemas.
Tudo se resume a uma pedra atirada aos bancos?
O Governo tem reagido bem ao procurar encontrar soluções para os problemas no quadro europeu. Mas, nos últimos dias, líderes de opinião e pessoas com especial responsabilidade têm feito declarações injustas.
Está a falar de quem?
Do dr. Mário Soares, do dr. Jorge Sampaio, do eng.º Belmiro de Azevedo e do dr. Henrique Granadeiro. Tenho grande admiração por todos, mas lamento que tenham dito certas coisas, porque não ajudam.
Não sabem do que estão a falar?
Perante esta pressão mediática, muitos líderes de opinião e políticos e até membros do Partido Socialista, como o dr. Manuel Alegre, não reagiram da melhor maneira. E todos foram infelizes, quer mesmo o PM, quer o MF. A sugestão que faço é que se fale menos e que, sobretudo, não atiremos pedras uns aos outros. Mas recuso-me a assumir o papel de banco ofendido e responder, apesar da oportunidade que me dá, a essas afirmações, pois essa é a pior atitude que podemos ter. Se há problemas, sentemo-nos à mesa e encontremos as soluções.
Num quadro de crise como este, José Sócrates e Teixeira dos Santos, que sabem exactamente o que se passa, falam sem fundamento ao criticar a banca? Ou falam com ignorância?
Nem é por ignorância, nem por má-fé. Pelo stress a que devem estar submetidos, reagiram mal à pressão mediática que surgiu por parte da opinião pública e de vários quadrantes da sociedade.
O PM e o MF podem ser permeáveis a pressões?
Foram infelizes e reagiram mal à pressão mediática.
Como explica que dois ex-Presidentes da República se tenham pronunciado nos termos em que o fizeram?
Têm por base preconceitos ideológicos. E no caso de algumas associações empresariais há mesmo uma atitude negocial.
O Governo também já acusou a banca de usar o dinheiro levantado por via do aval do Estado para realizar operações de saneamento interno…
Essa afirmação é muito infeliz. Só a CGD, que é pública, é que utilizou o aval do Estado. Mas o que é importante sublinhar é que Portugal tem um défice da Balança de Transacções Correntes (BTC) muito significativo, pois compramos muito mais ao exterior em bens e serviços do que vendemos. Ora é esse défice que tem que ser financiado. E ainda temos dívida que quer os bancos, quer a República contraíram no passado [de quase 20 mil milhões de euros] e essa dívida tem que ser refinanciada todos os anos.
É a sua maior preocupação?
Portugal é um dos países com um dos maiores défices da BTC do mundo. Quer em percentagem do PIB, quer em valor absoluto. O país com maior défice da BTC é os EUA, o segundo é a Espanha. E Portugal está nos dez primeiros. E o desafio é este, pois financiar este défice vai ser muito mais difícil do que foi até aqui. E pode até não ser possível.
E se não for possível?
Terá consequências negativas quer nos programas de investimento que queremos fazer em Portugal, quer no nível de vida dos portugueses. A necessidade de financiar um dos défices da BTC maiores do mundo e de refinanciar a dívida que emitimos no passado é a questão central. Em condições do boom financeiro dos últimos dez anos era facílimo, em condições da actual crise de crédito é muito complicado. Portugal, nas emissões internacionais de obrigações da República, que têm associado o melhor rating que existe, antes de começar a crise financeira pagava 0,2 por cento a mais do que a Alemanha. Neste momento as obrigações a 10 anos emitidas pela República já pagam mais um por cento do que a dívida alemã. Este é um sinal claríssimo do como o mercado está a fazer a selecção dos vários países. Na Grécia a situação ainda é pior, pois paga mais de dois por cento a mais do que a Alemanha, quando há um ano pagava mais 0,3 por cento, enquanto a Espanha paga quase tanto como Portugal, e a Itália e a Irlanda, que há um ano pagavam o mesmo que Portugal, agora até pagam mais. O mercado está a penalizar os países do Sul da Europa, e também a Irlanda, exigindo-lhes um preço cada vez maior para os financiar. O problema está muito para além dos bancos.
O economista Campos e Cunha diz que os grandes projectos vão absorver recursos que deveriam servir para financiar as PME.
Numa situação de crise e de recessão económica, os governos tendem a estimular a economia e o investimento. Mas esta atitude voluntarista pode não ser suficiente, pois alguns destes grandes projectos podem não ser financiáveis. Ninguém pode garantir que vai haver financiamento, nem mesmo o Tesouro. Admito que alguns dos grandes projectos venham a ter que ser repensados. Poderá não ser possível executar todos, pois poderá não haver resposta dos mercados.
Os bancos estão a cortar o crédito às PME?
As PME são um segmento a que os bancos atribuem grande prioridade comercial, pois são clientes interessantes do ponto de vista da racionalidade económica e da lógica do negócio. Os bancos mais facilmente preferem escusar-se a financiar alguns dos grandes projectos do que prejudicar as PME. Uma vez acabadas as grandes obras, estas não trazem mais negócio. As PME estão cá sempre, são permanentes, têm negócio recorrente, temos o negócio do dono da PME, dos empregados. É uma actividade muito importante para os bancos.
Fernando Ulrich comenta entrada de empresa angolana no capital do BPI

Fonte: Público

23/12/2008 Posted by | Política: notícias | , | Deixe um comentário

Sócio da consultora dos CTT passou a gestor do grupo BPN

Caso CTT. Auto Aliança aconselhou negócio com Rentilusa, empresa do grupo BPN/SLN

Um ano após o negócio, Paulo Silveira foi presidente da administração da Rentilusa

Um dos sócios da empresa de consultadoria que aconselhou à anterior administração dos CTT o negócio com a Rentilusa, para a renovação da frota automóvel, foi nomeado, um ano depois dos factos, presidente do conselho de administração desta empresa do grupo BPN/SLN que ficou com o contrato.

A actuação da empresa de consultadoria, a AutoAliança, foi alvo de reparos pela Inspecção Geral da Obras Públicas (IGOP), que analisou o negócio de aquisição de viaturas adjudicado pela anterior administração de Carlos Horta e Costa à Rentilusa. Um negócio que, segundo uma auditoria, ficou dois milhões de euros mais caros pela opção feita. Em Janeiro de 2005, apesar de vários pareceres internos, a anterior administração adjudicou o contrato à Rentilusa. O caso, tal como o DN avançou ontem, está a ser investigado pela Polícia Judiciária, no âmbito de um inquérito que tem como temas centrais a venda de dois prédios (um em Coimbra, outro em Lisboa) à empresa TramCrone.

A decisão de adjudicar o contrato de renovação a frota automóvel à Rentilusa foi tomada com base num estudo apresentado pela empresa AutoAliança que pertencia a Paulo Silveira e João Vicente (que o DN não conseguiu localizar para obter uma reacção). Esta empresa, de acordo com a IGOP, foi constituída a 20 de Janeiro de 2005, precisamente um dia depois dos CTT terem decidido avançar para a renovação da frota. Em Fevereiro daquele ano, o contrato foi assinado.

Uma consulta feita pelo DN à base de dados da Conservatória do Registo Comercial de Lisboa mostrou, entretanto, que a 15 de Março de 2006, Paulo Silveira assumiu o lugar de presidente da administração da Rentilusa. E abandonou o cargo de gerente da AutoAliança em Agosto daquele ano.

Tal como o DN revelou ontem, o anterior conselho de administração dos CTT optaram pela Rentilusa ao arrepio de pareceres internos. Uns que consideravam a opção pelo AOV (Aluguer Operacional de Viaturas) mais dispendiosa do que a gestão directa da frota. Outros, não consideravam a proposta da Rentilusa como a mais vantajosa para a empresa. Certo é que, após parecer da AutoAliança, a administração rubricou o contrato, representando um custo para a empresa de 17,783 milhões de euros. Mais dois milhões do que a proposta apresentada pela Leaseplan, a segunda concorrente.

Em resposta ao inquérito da IGOP, os antigos administradores Carlos Horta e Costa, Luís Fragoso e Manuel Baptista justificaram a contratação da AutoAliança (uma empresa cujo pacto social nada refere quanto a gestão de frotas, mas sim ao comércio de produtos informáticos). Afirmaram que a consultora “não pode seriamente ser posta em causa quando são reconhecidas no meio a reputação e o currículo dos seus sócios”. E que a opção pela Rentilusa se deveu face à “mais completa oferta” em termos de serviços e à cobertura geográfica da mesma.

Fonte: Diário de Notícias

23/12/2008 Posted by | Política: notícias | | 1 Comentário

Dedico este artigo à cegueira, surdez e mudez simultânea de certos homens: Manuel António Pina – À maneira de Darwin

Richard Dawkins fala da “mãe de todas as burcas” a propósito da pequeníssima fresta que a evolução proporcionou aos nossos olhos para verem o mundo. O nosso cérebro terá evoluído de modo a perceber, do espectro electromagnético e do mundo real, a infinitésima parte deles necessária aos nossos antepassados para sobreviverem.

Assim, a nossa “realidade” será um particular modelo do mundo real, construído de modo conveniente aos nossos particularíssimos interesses biológicos. Estou em crer que é a aptidão do dr. Vítor Constâncio para a sobrevivência que explica o modelo do mundo real que habitualmente preside às análises do Banco de Portugal, e que a optimista fresta através da qual costuma analisar as realidades económicas é a que melhor se adequa a conveniências políticas. Isto é, que o BP analisa (e, se calhar, supervisiona) fazendo política. Se não, como explicar o facto de, para o BP, a actividade económica em Portugal ter melhorado em Novembro, enquanto que, para o INE, teve um “abrandamento significativo”, com o indicador do clima económico a atingir mesmo o valor mais baixo desde 1989?

Fonte: Jornal de Notícias

23/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Dedicada à Ministra da Saúde Ana Jorge: Mário B. Resendes – OS POLÍTICOS E OS MICROFONES

Episódio I – Na apresentação pública do Plano de Combate à Sida nas Escolas, com a presença das ministras da Saúde e da Educação, um jornalista da RTP decidiu interrogar Maria de Lurdes Rodrigues sobre o conflito com os professores. Segundo foi noticiado, Ana Jorge terá reagido com palavras deste teor: “O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é da RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E depois, logo à noite, não sai a reportagem.”

Episódio II – Manhã de domingo, 14 de Dezembro. Numa inauguração ligada ao sector dos transportes na margem sul do Tejo, o primeiro-ministro é interrogado por um jornalista sobre o Fórum das Esquerdas, que iria reunir, nessa tarde, entre outros, Manuel Alegre e Francisco Louçã. Visivelmente irritado, Sócrates recusa-se a falar sobre o assunto, acrescentando que o jornalista “parecia não ter a mínima ideia do que estava ali a fazer” (o provedor não garante a transcrição literal, mas responde pelo sentido fundamental das afirmações do chefe do Governo).

Episódio III – Falando à saída do plenário, na quarta-feira, depois da habitual sessão quinzenal no Parlamento, José Sócrates, cordato e bem-disposto, não foge ao tema “Manuel Alegre”. Reconhece que ainda não se pronunciou sobre o caso, mas acrescenta que “em breve irá fazê-lo” e afirma mesmo que “compreende o interesse do jornalista” sobre a matéria.

Os episódios aqui enunciados remetem para a questão da capacidade de coordenação da agenda política no espaço público. Nos tempos que correm, governantes e dirigentes partidários, frequentemente com a colaboração de profissionais especializados, procuram planificar as suas intervenções de forma a conseguir um eco amplo e favorável – o que, na gíria, se chama, ter “boa imprensa”.

Numa democracia aberta, em que há uma lógica muitas vezes conflitual entre os interesses dos diversos poderes e o dever de escrutínio dos media, percebe-se que os protagonistas desenvolvam esforços para conseguir os seus objectivos, ou seja, neste caso, que os agentes políticos restrinjam o seu discurso em conformidade com as respectivas conveniências. Um jornalista cumpre o seu dever quando coloca questões de actualidade, mas um qualquer dirigente político está no seu pleno direito se decidir não se pronunciar sobre o tema em causa.

As “regras do jogo” são, portanto, claras. No espaço público, não cabe ao político instruir a temática do interrogatório, da mesma forma que o profissional de informação deve aceitar a invocação do direito de recusa de resposta. E o normal seria que as coisas se passassem como aconteceram no terceiro episódio descrito na parte inicial deste texto.

Inaceitáveis são as palavras atribuídas à ministra da Saúde, não só por revelarem manifesta incompreensão daquele que é o dever de um jornalista, mas também pela implícita “funcionalização” de um profissional da RTP: aparentemente, para Ana Jorge, a estação pública deveria estar ao serviço do poder político. Lamentavelmente, este episódio quase não teve repercussão pública, com a honrosa excepção de um deputado do PSD, Luís Campos Ferreira, que abordou o caso no Parlamento. Da parte do Sindicato dos Jornalistas, que se desse por isso, nem uma palavra de protesto…

A simples divulgação de um comunicado ou uma declaração “sem direito a perguntas posteriores”, quando assim anunciada, asseguram a um protagonista que não será confrontado com questões eventualmente incómodas. Em qualquer outra circunstância, numa democracia aberta e plural, o que se espera é que os jornalistas cumpram o seu dever de representação do interesse da opinião pública.

Fonte: Diário de Notícias

21/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | , | Deixe um comentário

João Vaz: Pela transparência

19 Dezembro 2008 – 09h00
Opinião
Pela transparência
Ninguém imagina a D. Branca – Maria Branca dos Santos (1902/1992) – ‘banqueira do povo’ na primeira metade dos anos 80, com o seu estilo de dona de casa octogenária e cabelo branco apanhado em chinó, como presidente, em Nova Iorque, da praça financeira ligada às novas tecnologias.

No entanto, descobriu-se que Bernard Madoff, septuagenário e antigo presidente do Nasdaq, faz negócios iguais aos que deram fama a D. Branca. Durante dez ou mais anos dos 48 de vida profissional, utilizou a sua credibilidade para manter um negócio fraudulento em pirâmide a que os americanos chamam Ponzi. O no-me vem do primeiro burlão do género, o italiano Charles Ponzi, que chegou à América em 1903 com meia dúzia de moedas no bolso e que nos anos 20 pagava altos juros a quem lhe confiava o dinheiro e levava vida de fausto com piscina aquecida em casa. Acabou a cumprir cinco anos de prisão e expulso dos EUA.

Bernard Madoff não precisou de concluir o curso de Direito para ser rei da finança. Os bilionários que encontrava a jogar golfe deixavam-se seduzir pelos altos rendimentos de 9% a 12% e entregaram–lhe rios de dinheiro. Madoff fez funcionar o mecanismo do ‘segredo é a alma do negócio’. Nenhuma supervisão, nem inspector, descobriu que era tudo fictício. Depois do buraco de 50 mil milhões de dólares nos fundos, cujo crescimento artificial se fazia de rendimentos que nunca existiram, é que se fala de práticas obscuras. Curiosamente, como com a Afinsa dos selos criada em Espanha pelo português Albertino de Figueiredo, houve um alerta na revista ‘Barron’s’ a que ninguém deu importância.

Parece incrível como pessoas inteligentes e informadas imaginam que alguém consegue obter lucros de investimento suficientes para lhes pagar juros especulativos. O hábito de ver o segredo como a alma do negócio cega as pessoas ao ponto de ser decisivo acabar com ele. Enquanto há quem sonhe já com mundos novos e homem novo, sente-se que o mais importante passo em frente será a adopção de práticas de transparência.

O primeiro efeito da transparência é constatar que a riqueza nasce do trabalho. Está em contradição com o dito popular que ‘ninguém enriquece a trabalhar’, mas é o que tem lógica. O trabalho deve ser valorizado em relação ao capital. Quando os juros reais já estão nos EUA de 0% a 0,25% fica claro que é do trabalho, e não dos Madoff, que se espera a saída da crise. Sem segredos e só com transparência.

Fonte: Correio da Manhã

19/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário

Pois é isso mesmo…: Paulo Martins – Viver para trabalhar

Se política fosse futebol, dir-se-ia que o Parlamento Europeu (PE) venceu ontem ao Conselho. O órgão representativo dos cidadãos derrotou o clube de chefes de Estado e de Governo, ao chumbar as alterações que propunha à directiva sobre organização do tempo de trabalho. Ganhou uma batalha; não a guerra – ou a primeira mão, não a eliminatória. O processo passa agora a uma nova fase, que implica negociação entre as duas partes. Mas não alimentemos ilusões: quanto mais se aprofundar a crise económica, mais caldo de cultura será criado para aumentar o tempo de trabalho. Mais tarde ou mais cedo, as teses da nova escravatura acabarão por vingar.

Na Europa, o período semanal de trabalho já atinge 48 horas (oito por dia, restando um de folga). Numa votação em que Portugal – o ministro Vieira da Silva, mais concretamente – se absteve, o Conselho queria “esticar” o limite até às 65. Como o trimestre passaria a ser o período de referência, um trabalhador poderia ter de cumprir 79 horas semanais. Pior: não contando o tempo de inactividade, o mais provável é que passasse a levar um colchão para o emprego.

Muito sangue se verteu pela jornada de oito horas de trabalho. Entre os direitos laborais, foi o que impulsionou outros, hoje dados como adquiridos. Nos tempos que correm, contudo, falar em direitos adquiridos é quase crime de lesa-pátria. Tomados por “privilégios”, mais facilmente se sacrificam a valores como a competitividade. Como a Europa não aguenta a concorrência dos países emergentes, a receita é conhecida: despede ou força quem tem emprego a trabalhar de manhã à noite. Entenda-se por “concorrência dos países emergentes”, para este efeito, sobretudo a exercida por multinacionais instaladas na China para aproveitarem salários de miséria.

A questão, porém, não se cinge ao retrocesso – civilizacional – que o aumento de horas de trabalho representaria. O social-democrata Silva Peneda e a comunista Ilda Figueiredo, eurodeputados que acompanharam colegas portugueses e mais de 500 estrangeiros na rejeição da proposta, puseram o dedo noutra ferida aberta pela proposta de revisão de uma directiva que também visa, curiosamente, proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores. Poderiam até trocar uma parte dos seus discursos sobre a matéria, aquela em que falavam na conciliação da vida familiar com a profissional.

Políticos que se prezam falam ao coração da família. Se perceberem os sinais dos tempos, não prometem só abonos; prometem incentivos à natalidade, tanto mais necessários quanto mais envelhecida a Europa está a ficar. Mas frequentemente esquecem – como notou o espanhol Alejandro Cercas, relator da Comissão de Emprego do PE – que os cidadãos devem “trabalhar para viver e não viver para trabalhar”.

Fonte: Jornal de Notícias

18/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | Deixe um comentário

Lá vai o Sócrates salvar mais uns ricos…: Fraude Madoff causa perdas de 96 milhões em Portugal

Banca. O maior sistema piramidal de sempre
O total da factura em Portugal da fraude protagonizada por Bernard Madoff cifra-se em perto dos 100 milhões de euros. Os resultados foram ontem anunciados pelos reguladores portugueses, depois das acções de averiguação aos danos provocados pelo maior sistema piramidal alguma vez desenvolvido a nível global.

“A exposição do sistema bancário português ao grupo Madoff é extremamente reduzida, situando-se em cerca de 18 milhões de euros”, explicou em comunicado o Banco de Portugal (BdP). A este valor acrescem 67 milhões de euros relativos à exposição de “clientes cujas carteiras são geridas por aqueles grupos e instituições”. No total, segundo o regulador do sector bancário português, estão em risco 85 milhões de euros.

Esta avaliação inclui o investimento directo em activos lançados por Bernard Madoff (residual), mas sobretudo a aposta em fundos de investimento (estrangeiros, na maioria) que continham fundos ou activos criados pelo norte-americano com base num esquema piramidal.

De acordo com a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), “a exposição dos fundos de investimento mobiliários portugueses e da gestão individual de carteiras (…) a activos da Madoff Investment Securities, a 16 de Dezembro” chega a “75 milhões de euros dos quais 11 milhões de euros nos fundos de investimento (0,07% do seu valor total) e 65 milhões de euros nas carteiras individuais (0,11% do seu valor total)”.

Os 11 milhões de euros referidos pela CMVM relativos a fundos de investimento somam aos 85 milhões do BdP, já que os 65 milhões da gestão individual equivalem aos 67 milhões identificados pela entidade liderada por Vítor Constâncio. A discrepância de dois milhões, esclareceu o BdP “pode resultar, entre outros aspectos, de reporte e apuramento em diferentes momentos do tempo de uma informação que foi fornecida numa base de melhor estimativa relativamente a amostras que não são necessariamente coincidentes”. Ou seja, a supervisão foi feita através de uma “estimativa” que pode não coincidir por ter tido como base uma amostra diferente.

Independentemente do valor exacto dos danos provocados pela fraude Madoff, o seu impacto nas carteiras não é significativo. E, no caso da gestão de activos, pode ser contrabalançada por investimentos noutros activos. No entanto, no actual momento de crise dos mercados financeiros, o trabalho dos gestores de carteiras fica mais difícil.

Isso mesmo é sublinhado pela CMVM. “As sociedades gestoras dos fundos e das carteiras individuais deverão, respectivamente, propor ou adoptar, procedimentos de revalorização dos activos expostos” aos activos de Madoff”. E devem “actuar sempre em benefício dos investidores, pelo que devem desencadear todas as medidas necessárias para minimizar as perdas sofridas (…), nomeadamente tendo em vista a recuperação do investimento”.

Fonte: Diário de Notícias

18/12/2008 Posted by | Política: artigos de opinião | | Deixe um comentário