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Paulo Ferreira: O exemplar caso de Lisboa

O esquema de atribuição de casas de forma arbitrária, para dizer o menos, pela Câmara Municipal de Lisboa dura há, pelo menos, 30 anos. É bom repetir a longevidade da aparente tramóia: 30 longos anos de impunidade. Os factos daquele que poderá constituir um dos maiores escândalos da política portuguesa das últimas décadas não estão ainda todos apurados. Longe disso. Quando estiverem – se vierem a estar… -, perceber-se-á melhor o alcance do estratagema, tão revelador do modo como tende a ser olhada pelos portugueses a “coisa pública”.

Parece que, tanto quanto foi possível apurar até agora, terão sido entregues casas a amigos, amigos de amigos, correlegionários, amigos de correlegionários, artistas, amigos de artistas, jornalistas amigos (e até jornalistas inimigos que passaram a amigos) e, por fim, a efectivamente necessitados. No todo e por junto, qualquer coisa como 3200 casinhas a preços módicos: uma renda média de 35 euros com que qualquer português sonha.

O eterno vereador Pedro Feist não vê nisto qualquer problema, uma vez que, por se ter cristalizado, a entrega de casas sem critério já não provoca azia a ninguém. Pelo menos na Câmara de Lisboa.

A pergunta é: e deve provocar? Depende dos gostos. Se quisermos que o “jeitinho” e o pequeno favor, vetustos recursos dos portugueses para eliminar incómodos e alcançar benessses, continuem a minar as nossas instituições – e, por consequência, a nossa democracia -, não se vê, de facto, por que há-de ficar com azia quem beneficiou e quem foi beneficiado. Se quisermos dar um pulo qualitativo rumo à decência e ao mérito, eliminando pelo caminho as pressões espúrias e os esquemas ínvios como forma de alcançar o desejável independentemente do preço a pagar, então aí devemos ficar todos com muita azia.

Deve ser, aliás, por causa da azia que, apesar do fenómeno lisboeta atravessar a gestão de vários presidentes, foram ainda tão poucos os responsáveis que se decidiram a esclarecer um bocadinho do esquema, em que podem até ter sido apanhados sem nada saberem. Ainda assim, não deixa de ser verdadeiramente impressionante, mas ao mesmo tempo tão revelador, o silêncio ensurdecedor que rodeia este sinistro caso.

O que resta fazer? Restam duas coisas. Antes de tudo o mais, exigir que a lista dos beneficiários das casas ao longo dos últimos trinta anos seja divulgada na totalidade. Essa é a única maneira de separar o trigo do joio e de perceber quem actuou de boa e de má-fé. Segunda e de seguida: actuar exemplarmente sobre os prevaricadores. A impunidade em casos como este é um factor de tremenda corrosão para a democracia. E para a decência.

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30/09/2008 - Posted by | Política: artigos de opinião |

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