José Leite Pereira: Capitalismo sem-vergonha
O mundo sai desta crise obviamente mais pobre. E com medo. Medo de réplicas deste autêntico terramoto. E tem razão para ter medo, porque não é seguroque se aprenda a lição
A velha máxima capitalista de que as regras de mercado sempre funcionam caiu esta semana. Terá caído de forma pouco envergonhada aos pés de uma decisão do Governo de Bush que, para salvar pensões e seguros de milhões de americanos, acabou por intervir no mercado injectando o dinheiro necessário para evitar o colapso e impondo regras de controlo que o mercado até aqui sempre desdenhava.
O que aconteceu nos Estados Unidos – e um pouco por todo o mundo – não foi mais do que a consequência de práticas assentes em ganância desmedida, em fusões e aquisições que não estimulam a concorrência, antes parecem conduzir a práticas monopolistas. E como, do lado dos Estados, falhou o controlo, a regulação, esta combinação explosiva só poderia ter levado a um desastre com uma dimensão impensável. Não se trata apenas da dimensão do prejuízo. Há uma outra medida, moral, ética, que foi desbataratada às mãos da especulação desenfreada. E onde não houve moral, nem ética, nem controlo, nem regras, cresceu em roda livre a ganância gerando o dinheiro que alimentou uns poucos e que os Governos com um pingo de dignidade não podem garantir que não tenha alimentado também o negócio de armas ou de droga e o próprio terrorismo.
Mas se caiu a velha máxima capitalista da regulação do mercado pelo mercado, não deixa de ser curioso que o remédio encontrado seja uma perfeita nacionalização. Lá onde estiver, Karl Marx não deixará de sorrir. A dictomia, porém, não é, obviamente com o marxismo. A questão, sobretudo para nós Europeus, está em saber se o capitalismo selvagem que nos trouxe até aqui não pode ser travado pelas regras de regulação que garantam mais justiça social.
O mundo sai desta crise obviamente mais pobre. E com medo. Medo de réplicas deste autêntico terramoto. E tem razão para ter medo, porque não é seguro que se aprenda a lição ou não se repitam erros. A tentação é demasiado grande: afinal de contas, atropelando princípios e esquecendo os consumidores que todos somos, uns poucos conseguem deitar a mão ao lucro sem fim. E o crime, pelos vistos, compensa. E as regras de controlo verdadeiramente eficaz poderão continuar esquecidas sob a doce alegação de que podem impedir o sistema de funcionar. O u seja:, ultrapassado este safanão, tudo poderá continuar como até aqui. Até ao dia…
Sócrates não voltará a dizer que a crise que vivemos vem de fora. Sendo óbvio e verdadeiro, não é coisa que se diga, porque deixa a nu a incapacidade dos poderes políticos para reagirem ao poder do dinheiro.
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