Baptista-Bastos Escritor e jornalista – b.bastos@netcabo.pt: HOMENS SEM REINO
A governação está em banho-maria e José Sócrates anda pelo País a promover a moção que vai apresentar ao congresso do seu partido. No intervalo inaugura isto e aquilo, sempre coisas sem importância, e avisa que, futuramente, vêm aí toneladas de realizações destinadas à felicidade dos portugueses. Claro que quase ninguém acredita na suave bondade das promessas. Aliás, já quase ninguém acredita em nada. Mas aprendeu que a cupidez tem dado cobertura à mais ignara mediocridade. O panorama parece mavioso. O caso Freeport e as peripécias que envolvem o assunto Casa Pia transformaram as angústias quotidianas em factos desprezíveis. A verdade é que o Governo paralisou e os portugueses são homens sem reino. Despedidos aos milhares, tratados como subalternos, humilhados na mais rudimentar dignidade – sem que os seus gritos de desespero, as suas lágrimas excruciantes consigam congregar um feixe de energias.
Vemo-los e escutamo-los nas televisões, os retábulos modernos que condenam os homens e as mulheres a admitir o mundo tal como ele lhes é apresentado, e aprendemos que o medo impede tomadas de consciência e sufoca as manifestações da razão. Nada tem sido feito para inverter a tendência de uma crise nascida de um sistema em declínio. O Governo obedece, cegamente, às regras que tentam inserir-se no real, a fim de salvar o que sobra dos escombros. Cede à facilidade, e legitima decisões as mais asquerosas e danosas para a generalidade dos portugueses, apoiado numa maioria que, demonstradamente, não merece. Para que o embaraço continue, o ministro Santos Silva desencadeia novo alvoroço no partido, já de si tão ausente de convicções quanto repleto de oportunistas. Lembremo-nos de que o PS não pertence, apenas, ao “arco do poder”: é uma agência de empregos, tal como o PSD. O conflito com Manuel Alegre resulta de um acto de má educação, infelizmente comum ao ministro dos Assuntos Parlamentares. Porém, a peça mais relevante deste berbicacho é um artigo do eng. Henrique Neto, publicado no Jornal de Leiria. O conhecido empresário socialista reafirma, claramente, que vivemos na indiferença porque o medo está presente e a presença do medo dá azo à resignação. Mas se o PS não serve, o PSD serve ainda menos. É o nosso drama, porque nos inculcaram a ideia de que não há alternativa. Claro que há. Mas será que isso nos tem sido explicado? A comunicação social, no seu todo, tem cumprido, de facto, as funções para as quais está destinada? Penso o contrário. Todavia, as derivas, os compromissos e as malfeitorias daqueles dois partidos não justificam a nossa atonia cívica, a nossa falta de comparência política e moral, a abjecção da nossa passividade.
Fonte: Diário de Notícias de 11.02.2009
Manuel António Pina: A “componente humana”
2008-12-12
A ideia de Guilherme Silva, do PSD, para resolver o problema das faltas dos deputados que, às sextas-feiras, assinam o ponto e vão de fim-de-semana prolongado, estando-se nas tintas para a AR e para o que ali se discute e decide, é de apoiar: passaria a haver plenários só às terças, quartas ou quintas (pois que as segundas ainda são fim-de-semana).
A explicação de Guilherme Silva é que os deputados têm família, pelo que há no caso “uma componente humana (…) respeitável”. O PSD é um partido respeitador não só da família como das tradições. Os deputados pirarem-se às sextas-feiras é uma tradição parlamentar, e o PSD não poderia ter no caso posição diferente da que teve em relação a Barrancos. O problema é que, sabendo-se o que a casa gasta, o mais certo é que os deputados comecem, depois, a baldar-se às quintas, e quando deixar de haver plenários também às quintas, às quartas, e depois às terças, e acabem ficando a semana inteira em casa com a família, coisa com uma “componente humana” inteiramente respeitável, até porque a maior parte deles não faz falta nenhuma na AR e em casa decerto faz.
Um dois maiores jornalistas portugueses – o Grande Mário Crespo: Falem ou calem-se de vez
A exigência que é feita à Dra. Manuela Ferreira Leite e ao seu PSD para que se pronunciem não é nem um capricho de comentadores sádicos nem uma estratégia dos media alcoviteiros, ansiosos por provocar uma zaragata partidária. Propor e criticar políticas é um dever do PSD que não está a ser cumprido.
Os partidos políticos são pagos com dinheiro público. Não são clubes de reflexão filosófica ou política para baronesas ou barões diletantes. Os partidos e os partidários, governo ou oposição, estão lá pagos e bem pagos porque se dispuseram a servir causas públicas. Celebraram esse contrato de confiança com os País nas eleições. Assumiram compromissos públicos em congressos onde se escolhem pessoas para ter representatividade.
Os deputados custam muito dinheiro ao erário público. Os deputados europeus custam muitíssimo. As estruturas partidárias são pagas pelos contribuintes. Os que delas usufruem e os que nelas se assumem com posturas nacionais têm por obrigação o cumprimento do contrato que aceitaram. Em Portugal há uma imensa complacência com o distanciamento entre os políticos e o eleitorado que os escolhe e lhes paga.
Um dos mais insultuosos remoques que muitos têm o ultraje de proferir com regularidade é que não precisam da política para nada. Como se estivessem na vida pública para agraciar o País com o supremo favor da sua visibilidade ou, no caso do actual PSD, invisibilidade. O País tem tolerado esta constante ofensa dos que “não precisam nada da política” embora, não havendo pais ricos, haver sempre uma pensão de reforma quase obscena do Banco de Portugal ou da Caixa Geral, uma sinecura numa Lusoponte ou um lugar interessante numa Mota-Engil ou onde quer que seja que a prescindibilidade da subvenção directa pelo serviço partidário os (e as) conduza. Isto seria inócuo se a falácia de se estar na política a fazer um favor à nação, não tivesse como consequência muito directa estes distanciamentos fruto da arrogância do quero-posso-e-mando.
Por isso é intolerável, e de facto fraudulento, o incumprimento do contrato nacional que estes silêncios e esta inacção traduzem. Manuela Ferreira Leite dirige o mais numeroso grupo partidário da oposição. É por isso obrigada a interpelar as muitas crises que se declararam nestes três meses do seu consulado. Dos colapsos económicos aos financeiros às quebras na ordem pública. Se está segura daquilo que os seus governos fizeram no passado e não sente responsabilidades no presente devia vir dizê-lo e prova-lo com argumentos.
Se o que está a ser feito está mal, force as políticas incorrectas a serem revistas. O País e o Mundo vivem momentos excepcionais. A crise da energia e da Geórgia não se compadecem com cinzentismo político em regime de part-time. Há tiros nas ruas de Lisboa. O reconhecimento do Kosovo rompeu a textura da própria União Europeia e definiu um novo Leste e um confuso Ocidente (não notou?). Os saltos no petróleo confundem os próprios operadores dos futuros de Nova York de onde vem parte dessa reforma do Banco de Portugal (acautele-se!). A resposta do PSD tem sido pedir a demissão de Ministros e remeter-se ao silêncio. Cuidem-se. Está a notar-se. Recordem-se de Churchill quando ele disse que não é possível enganar toda a gente durante todo o tempo.
A DIREITA NO VÁCUO
Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt
A ver o que vi, naquela espécie de teologia de enganos que constituiu o debate mensal no Parlamento, José Sócrates não perderá as eleições. Paulo Rangel, aguardado com expectante alvoroço, estatelou-se: parecia um orador fúnebre entre sepultos. Quando trepou ao púlpito leu um texto enfadonho, asséptico, interminável. As câmaras das televisões fixaram para a eternidade alguns bocejos silenciosos e místicos. Não foi difícil a Sócrates desmontar o tosco edifício verbal de Rangel. Usou, aliás, o mesmo fundo de dissimulações: não expôs nenhuma ideia consistente, demonstrando um protagonismo absoluto na arte de falar sem nada dizer.Confesso que esperava outra coisa de Paulo Rangel. Ocasionalmente, via-o nas televisões, comentador sem graça mas com esmero e gravidade, curvado ao peso de inauditas e desconhecidas angústias. Porém, fugia um pouco à ideia do realejo, comum a quem fez da política a pauta de um nota só. No Parlamento foi um desastre. A frase lacustre de Rangel encontrou na retórica de Sócrates, festiva e esbracejante, uma parede tenaz.O novo líder parlamentar do PSD apenas reflecte o ânimo de cemitério da nova direcção do partido, com particular enfoque na dr.ª Manuela Ferreira Leite. Ouço-a e leio-a, sobretudo no espesso e dramático suplemento de economia do pesado Expresso, e dali nada resulta. A senhora não passa de um olhar gelado, um rosto gótico, uma tarefa adiada. É, somente e tragicamente, uma dirigente política para amigos; nunca será uma dirigente política para gerações – como quem diz: para o futuro.Dois meses decorridos sobre a desistência de Menezes, o PSD aparenta não ter nada para comunicar, a não ser a atroz melancolia das suas contradições. A dr.ª ataca, agora, com a languidez ressentida de quem pressente que não causa perigo, o que anteriormente defendera com desembaraço e com adjectivos.
Na ausência de Santana Lopes, parecia emersa a hora e a vez de Paulo Portas. O primeiro é um farsante genial da política; o segundo, um clown envelhecido, e tão sem graça que chega a ser patético. Foi um articulista engenhoso: utilizava a metáfora como um aríete e a insídia como uma transgressão. A sua leviandade era tida como leveza de espírito. Tratava-se, tão-só, de irresponsabilidade. O jornalismo que praticou salda-se como uma vergonha no historial da imprensa. Cobriu Cavaco de injúrias e de desprezo. Mais tarde, apertou-lhe a mão, numa cena indignificante para ambos.
Perante esta direita arrogante mas sem orgulho, oca e desorientada porque vê cada vez mais distante o que considera seu direito divino: o poder – Sócrates poderá continuar a encenação do melodrama barato configurado no “socialismo moderno”.
Baptista-Bastos: A ALEGRIA DOS CEMITÉRIOS
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt

Pedro Passos Coelho quis saber qual o projecto, qual o programa, qual a doutrina, qual a estratégia que a Dr.ª Manuela Ferreira Leite possuía para resgatar a pátria dos malefícios do “socialismo moderno” de José Sócrates. A pátria ficou muito reconhecida, e até lhe saltou uma furtiva lágrima, com as estremecidas preocupações do desenvolto Passos. A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, impassível, fechada, fatigada, gótica, na escura profundidade das suas cogitações parecia nem sequer ouvir.
Levemente rouco, místico, lívido, surgiu na noite o fatal Santana. Os jornalistas, muito animosos, agitaram-se com intenso regozijo. “Agora é que é!” O Congresso decorrera morno, lento, pesaroso. E o velho animador da congregação nunca se deixara substituir, nem entregara os créditos em mãos alheias. Falou em ética política, como se ele próprio constituísse uma garantia da verdade, uma força da consciência e, de certo modo, um instrumento da justiça. A plateia, ante a sumária execução, sorriu e aplaudiu.
O rosto da dr.ª Manuela Ferreira Leite, esse, permanecia o que tem sido: um enigma íntimo. Aliás, a substância do seu discurso (que Pacheco Pereira aplaudiu, frenético, com transporte e unção) foi o gélido resultado de uma assustadora ausência de ideias. Qualquer módica alegria de grupo fica ensombrada pelo mal-estar provocado por esta inexistência de empatia. A senhora nada disse de novo, nada acrescentou ao que já se sabia. Como nos comunicou António José Teixeira, naquele registo fúnebre que se lhe reconhece, a Dr.ª Manuela Ferreira Leite é irmã gémea do Dr. Cavaco. Quer dizer: cria uma atmosfera de frigorífico.
Ao imbricar para a “esquerda”, na vaga afirmação do “social”, a chefe do PSD lança a linha nas águas que pertenceriam aos socialistas. Estes, inclinando-se para a “direita” tinham pescado no lago dos “sociais-democratas.” Não há redenção possível para as duas agremiações. O seu discurso cuneiforme desenvolve um absurdo clima de bocejo, falso e letal. As diferenças entre o PSD e o PS são nulas. E, além de não empolgarem ninguém, nenhum dispõe de querer político nem de vontade moral.
Veja-se aquela gente do conclave de Guimarães. É a imagem devolvida da falta de paixão, da carência de vontade, da vacuidade de convicções, da ignorância rotativa. A alegria dos cemitérios.
