Carlos Abreu Amorim, Jurista: Há derrotados
Ontem, deu-se o insucesso de uma campanha que jurou só falar em temas europeus e acabou a sujar os adversários à boleia de escândalos internos que não têm partido. Foi o desaire da táctica ridícula da ‘campanha negra’ e dos ‘poderes ocultos’. Foi a queda de um estilo peculiar de querer ser ‘duro’, assente em ameaças pouco veladas a professores descontentes e em processos judiciais a jornalistas menos respeitosos em relação ao ‘chefe’.
Ontem percebeu-se, também, que não é impunemente que se finge governar com muito marketing político mas poucas medidas competentes, com reformas anunciadas mas nunca realizadas.
Ontem, Sócrates foi o grande derrotado. Rangel o vencedor indiscutível. A sorte do ainda primeiro-ministro é que não vai ter o mesmo adversário nas Legislativas.
Manuel António Pina: A “componente humana”
2008-12-12
A ideia de Guilherme Silva, do PSD, para resolver o problema das faltas dos deputados que, às sextas-feiras, assinam o ponto e vão de fim-de-semana prolongado, estando-se nas tintas para a AR e para o que ali se discute e decide, é de apoiar: passaria a haver plenários só às terças, quartas ou quintas (pois que as segundas ainda são fim-de-semana).
A explicação de Guilherme Silva é que os deputados têm família, pelo que há no caso “uma componente humana (…) respeitável”. O PSD é um partido respeitador não só da família como das tradições. Os deputados pirarem-se às sextas-feiras é uma tradição parlamentar, e o PSD não poderia ter no caso posição diferente da que teve em relação a Barrancos. O problema é que, sabendo-se o que a casa gasta, o mais certo é que os deputados comecem, depois, a baldar-se às quintas, e quando deixar de haver plenários também às quintas, às quartas, e depois às terças, e acabem ficando a semana inteira em casa com a família, coisa com uma “componente humana” inteiramente respeitável, até porque a maior parte deles não faz falta nenhuma na AR e em casa decerto faz.
Manuel António Pina: Deputados “da Nação” ?
Não sei qual foi a surpresa da dra. Manuela Ferreira Leite por 30 dos “seus” deputados (pois é das direcções partidárias que os deputados são, não “da Nação”) terem faltado a uma votação. Pelos vistos, a líder do PSD não faz a mínima ideia daquilo em que se tornou a AR.
Não faltaram só os 30 do PSD; faltaram ainda 13 do PS, 3 do CDS, 1 do PCP e 1 de “Os Verdes”. Numa sexta-feira véspera de fim-de-semana prolongado, até foram poucos. Se aos deputados (gente, essa sim, com privilégios) se aplicasse o modelo de avaliação dos professores, e também eles tivessem que definir objectivos individuais, ter intervenções assistidas e ser julgados pelos “resultados”, quantos aprovariam? Dir-se-á que são julgados de 4 em 4 anos. Não são. No meio das listas partidárias todos os gatos (mais rigorosamente, todos os ratos) são pardos, e sabem lá os eleitores em quem votam. O único critério de avaliação a que um deputado está hoje sujeito é o da obediência acrítica. Um acto de honestidade intelectual e política como o dos 6 do PS que pensaram pela própria cabeça pode custar-lhes o lugar. Se não, veremos.
Manuel António Pina: Ganharam os bons
362 escolas fecharam portas no dia de greve dos professores e, nas que não fecharam porque houve “aulas” (na maior parte dos casos porque houve “aula” ou nem sequer isso), mantiveram-se ao serviço 1, 2 ou 3 professores. Isto, para o felicíssimo secretário de Estado Pedreira, significa que “a maioria das escolas [esteve] aberta em dia de greve nacional dos professores”… Já para o contentíssimo secretário de Estado Lemos, ao fim da tarde de quarta-feira, “só” aderiram à greve “às 11 horas” 61% dos professores, o que constitui, obviamente, grande derrota dos professores, até porque, um pouco mais cedo, às 6 e às 7 horas, a adesão foi ainda menor.
Quanto à ministra, fez greve a jornais, TV e escolas e foi visitar… um hospital, pois, em dia de greve nacional de professores, estiveram abertos (nova derrota dos professores) 100% dos hospitais. A moral da história é que, como antes tinha sido anunciado por não sei quem, “os bons ganham sempre”. Os bons somos nós (os bons, os justos, os altos, os inteligentes, os bonitos). Os maus, injustos, baixinhos, burros e feios (o Inferno) são os outros.
DESENHO CONTA-NOS TAL E QUAL
Ferreira Fernandes
Ontem, o Times de Londres dedicou a Portugal um grande desenho, na página de opinião. Na verdade, o jornal nem sabia que estava a falar de Portugal. Aliás, o cartoonista Morland, o autor do desenho, pensava que estava a ilustrar uma actualidade britânica: a vaga de crimes à navalhada pelos jovens londrinos. Mas, quanto a mim, era de Portugal, escarrapachadinho, que ele falava. Vamos ao desenho, de dois personagens, um rapazinho e a mãe. Ele, com um daqueles capuzes muito em moda e são sinal de garoto suburbano que gosta de esconder a cara, estendia um facalhão à mãe: “Desculpa, mãezinha…” E a mãe, gritando, em crescendo: “Desculpa?! Tu pedes desculpas?! Foi isso que te ensinei?! Acusa é o Governo! Acusa a câmara, a escola, a sociedade e a loja que te vendeu a naifa!” O desenho vinha com uma ironia suplementar, a mãe tinha tatuado no braço o seu provável destino: “Vítima.” Não vos disse? Era mesmo sobre Portugal, onde a culpa nunca mora lá em casa.
MILAGRE NA MATEMÁTICA
João Marcelino

Seja como for, esta situação ilustra o que nos últimos anos se tem passado na sociedade portuguesa e a todos os níveis.
Esmagado pela estatística, sobretudo no ensino e na saúde, o País interiorizou, com os governantes à cabeça, que a convergência com a Europa é um simples exercício numérico. Tudo estará bem se as estatísticas, ratificadas na Europa, forem melhores.
Fosse assim tão simples tratar da realidade




